O Brasil da Bossa Nova ao Heavy Metal Furioso

Por Niobe Cunha, para o Duplo Expresso:

No peito dos desalentados também bate um coração.

Acredite: o Brasil na década de 1950 era uma festa, mais precisamente entre 1955 e 1960. Em meio ao movimento da emergência urbana, na fase desenvolvimentista da presidência de Juscelino Kubitschek, os brasileiros reinventaram o futebol e ergueram, pela primeira vez, a taça Jules Rimet, na Suécia do Wellington Calasans. Tudo bem que o tempo se encarregou de derreter esse primeiro sonho de pódio, que dava vitória à ginga e a raça. Mas era tempo de charme e democracia. Oscar Niemeyer transportava do papel ao concreto as colunas do Alvorada, traços sinuosos e sensuais; João Goulart, vice-presidente, prestigiava os shows de vedetes de Carlos Machado, em vez de tentar impor qualquer ponte para algum futuro careta ou moralista: o presente bastava.

Do bate-pés descalços no terreiro, literalmente levantando a poeira, o samba que sacolejava requebros maliciosos desce o morro até a zona sul carioca e se embrulha com uma embalagem mais cool, a Bossa Nova. Um banquinho, um violão, o barquinho a navegar, o sol se pondo, uma saudade que não cabia no peito davam o ritmo ondular na caminhada das meninas de Copacabana. Chacumbum, chacumbum, as nossas garotas de Ipanema desfilavam brejeiras pelo imaginário local que gestava uma classe média batuta (gíria da época) e que buscava se descobrir dentro de um espaço democrático.

No apartamento da musa Nara Leão, que imprimia na voz o balanço das ondas do Atlântico, encontravam-se jovens autores e músicos, como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sérgio Ricardo e Chico Feitosa, entre outros. Assim, o país caminhava de encontro ao seu destino, orgulhoso de si, de suas potencialidades, mesmo que ainda ficasse ali, meio de escanteio.

Dez anos depois, em 1968, essa mesma classe média, malemolente, zona sul – já vivendo em pleno regime de exceção – tentou imprimir esse ritmo idílico de nação no poder, e o pau comeu ainda mais, a toque de AI-5. Em São Paulo, o Teatro de Arena e o Oficina traziam à tona questões mal resolvidas da nossa brasilidade. E dá-lhe cassetete. Depois, a Tropicália e a baianidade, exiladas pela força das fardas, e os festivais da canção: “vou, voltar, sei que ainda vou voltar… um sabiá.”

De lá pra cá, os ritmos variaram – bolero, rock, valsa, rap, punk –, e o Brasil, onde a violência da ruptura democrática deixou cicatrizes profundas, não fossem as nossas raízes guerreiras, talvez tivesse sucumbido completamente a um samba-canção do Antônio Maria, daqueles bem chorosos, música de fossa, de dor-de-cotovelo, de corno. Passando pelos milagres econômicos, “O Petróleo é Nosso”, “Diretas Já”, fiscais de boi no pasto, voto direto e tantos tons, conseguimos, mal e mal, construir uma identidade. Até que enfim, fomos convidados a dançar no grande baile. Já não éramos mais a moça que toma chá de cadeira escondida no canto. Passamos a ser a donzela disputada, com pés bons a desfilar no salão, e, em certa medida, chegamos a ousar ditar o ritmo.

Não sei não, mas acho que foi aí que a porca torceu o rabo. O maestro não ficou muito à vontade com esse assanhamento voluntarioso. A nossa genética musical mundialmente reverenciada, assim como um dia foi o nosso futebol, acabou se atrapalhando nas pernas, negando a nossa capacidade de produzir gênios, como Garrincha, João Gilberto, Pixinguinha, Portinari. Virou campinho de várzea, canelada de beque sem muitos recursos, mas bom de briga. Perdemos o Tom (também o Jobim) e desafinamos. Chegou-se ao ponto de um cantor que faz dupla com outro, dizer que samba é coisa de bandido. Sim, a nossa arte e origem viraram bandidagem. E, nas pesquisas, andam dizendo que, por enquanto, acumulamos 5 milhões de desalentados (como os desafinados) que desistiram de procurar emprego neste deserto, porque, afinal de contas, quem vai querer comprar bananas?

Os caminhões enfileirados, os pneus queimados, a entrega de benefícios e riquezas voltaram para a batuta do maestro: agora, querem que se dance no vai da valsa, no ritmo ditado pelo metrônomo – tec-tec-tec. Querem a moça tímida e apequenada de volta, escondida ali no canto, esperando ser convidada de volta ao baile.

Um instante maestro! Talvez o que ainda não se saiba é que hoje também é dia de rock. De guitarras distorcidas, convocando a fúria do bate-cabelo. O solo de bateria com a energia primitiva dos tambores convoca os orixás, e a moça, antes recatada e do lar, já não precisa esperar ser convidada. Enlouquece desde as entranhas e invade a pista rebolando: chão, chão, chão. Mais Anitta do que nunca, convoca a favela e o baile todo para sua incômoda provocação. Vai, Malandra! It’s Only Rock’N’Roll (But I Like It).

É o seguinte, maestro: foram mexer com quem estava quieto. Saravá, seu Zé Pelintra, saravá, Wilson das Neves, que batuca todo dia na minha cabeça esperançosa: “O dia em que o morro descer e não for carnaval..”

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