Lula, a face do povo: “voltará para de onde nunca deveria ter saído”?

Da Redação do Duplo Expresso
Recebemos este texto da seguidora do Duplo Expresso Anita Iracema e, por considera-lo importante como registro daquilo que entendemos como “Lulismo”, vamos publica-lo na íntegra:

Por Anita Iracema*, para o Duplo Expresso

É com profunda tristeza e imenso estarrecimento que assisto às manifestações públicas de amigos íntimos e não tão próximos assim, às de ex-professores de graduação e pós-graduação de uma das universidades federais mais antigas do Brasil, de eleitores de esquerda, do PT. Em muitos momentos, buscava compreender os reais motivos de todos os que se dizem de esquerda e que, até há pouco tempo defendiam a liberdade de Lula, como em um passe de mágica, cegos, agarrarem-se à candidatura de Haddad como tábua de salvação. Talvez por ser doloroso demais compreender a gravidade da situação de nosso país? Ou talvez porque não consigam ter uma visão mais complexa da realidade mundial? Foram essas e tantas as perguntas que me fiz. Não deixam de ser, até certo nível, aceitáveis. Coube-me, como louca, bradar nas redes sociais: “É golpe ou não é golpe?”, “Rasgaram ou não a nossa Constituição?”. Daí, o mais perverso e cruel, entre os que me cercam, revelaram-se, nos inúmeros comentários, postagens dia a dia, e era eu quem não queria enxergar o que, de fato, está por trás da não luta por Lula. E, nesse caso especificamente, recai uma singularidade da construção histórica e sociocultural do Brasil.

As políticas públicas, implementadas no governo Lula e Dilma, que retiraram da miséria 50 milhões de brasileiros, permitiram acesso a jovens pobres e negros às universidades, geraram emprego e renda, financiaram moradia, possibilitaram que nordestinos migrantes visitassem os parentes, através de transporte aéreo… Obviamente que é muito fácil falar, analisar os governos do PT, sobretudo os de Lula, sob a ótica do que não foi feito. De que a Lula foi dada uma concessão para que se elegesse e governasse, dando em contrapartida a segurança ao mercado e mantendo uma política econômica liberal. É certo que poderia também ter iniciado um processo de politização popular, como o fez louvadamente o presidente Hugo Chávez, na Venezuela (onde a Carta Magna é um livro de bolso, de cujos direitos e deveres cada cidadão e cidadã são muito conscientes; direitos e deveres amplamente discutidos na sociedade e votados pelo povo venezuelano em eleições constituintes). Mas, recordo muito bem de como estava a população brasileira no fim da era FHC. Com fome, sem habitação ou em habitações precárias, sem água, sem luz não se aprende. Há uma complexidade estrutural para a construção de um processo de aprendizagem e politização, no Brasil, sem igual. Um país de dimensão continental, com diferentes biomas, ecossistemas, diferentes culturas e estados com governos de diferentes alianças partidárias. E, só na Bahia, existem 417 municípios. Um contexto em que construir processos de aprendizagem exige tempo, preparo e, obviamente, enfrentar o monopólio midiático da Globo, enfrentamento que não foi feito, é verdade. Mas, qual o cenário favorável tínhamos que facilitava tamanho enfrentamento? A Globo é uma das maiores, se não a maior, inimiga interna do Brasil. O Mensalão de 2005 que o diga… Outro grande problema é que seria necessário politizar não apenas os educando, mas, acima de tudo, os educadores. Nossos currículos não têm um teor nacionalista, vêm focando há um bom tempo nas questões das diversidades, pluralidades, diferenças e alteridades, mas sem um enfoque no estudo em profundidade da história do país, dos pensadores brasileiros, dos personagens históricos que lutaram por nossa nação contra a invasão colonialista, imperialista.

Se Lula fez concessões ao mercado e conseguiu implementar, inicialmente, políticas públicas necessárias para ir, posteriormente, iniciando uma política externa altiva e ativa como fez no segundo mandato e que o tornou reconhecido internacionalmente, e estava disposto a voltar para fazer um governo mais à esquerda, a princípio em 2014 (como relata no livro “A Verdade Vencerá) e agora já com uma universidade mais diversa, uma população mais inserida e o Brasil mais respeitado mundo a fora, isso lhe foi negado. Porque, era o que estava previsto que o nosso ex-presidente faria, hoje reconhecido internacionalmente um preso político nas masmorras de Curitiba cujos direitos civis e políticos lhe foram violentamente ceifados por uma Justiça imoral, corrompida e de braços dados com o golpe, financiado e articulado pelo mercado financeiro internacional.

Pois bem. O que, tampouco, acreditávamos – nós que hoje defendemos Lula e entendemos que o processo eleitoral de 2018 é uma grande farsa que visa legitimar o golpe de estado e exterminar a esperança do povo brasileiro: Lula – é que a própria esquerda brasileira JAMAIS aceitou um nordestino, torneiro mecânico, analfabeto na cadeira da presidência da república. E foram essas as minhas maiores tristeza e decepção. Perceber que a esquerda, assim como a direita, sofreu profundos incômodos em ter de ceder lugar aos pobres nas universidades, nos aeroportos, nos espaços públicos. Lembremos que a esquerda aqui sempre gostou do ofício de cumprir o papel do Estado, a “salvadora dos pobres”, a que “fala em nome dos pobres e desassistidos e que por quais luta”. Nos anos 90, no Brasil, existia um festival de ONGs financiadas por capital estrangeiro para assistir a crianças e adolescentes em estado de risco, a mulheres vítimas de abusos, a portadores do vírus HIV, a órfãos, idosos… Logo no início dos governos do PT, na presidência e nos estados, vimos muitas das ONGs assistencialistas, algumas com acusações de lavagem de dinheiro inclusive, fecharem as portas cujos funcionários tiveram que buscar outros caminhos profissionais. Muitos optaram por ingressar em pós-graduações e hoje são professores universitários, outros foram atuar em secretarias de governos, órgãos do estado; alguns começaram a viver de projetos aprovados em editais financiados pelo governo petista. Quem eram, em certa medida, esses funcionários? Militantes da esquerda brasileira, eleitores de esquerda no Brasil.

Hoje, constato, portanto, que a classe média, de direita e de esquerda, a burguesia intelectual, partilham do mesmo sentimento de vira-lata que o da elite. Não suportam a ideia de um povo protagonista da própria vida, que sabe muito bem reconhecer os direitos que lhes são negados. Um povo sábio que, quando perguntado em quem vai votar até hoje, responde “Em Lula” e dar risada ou responde “Eu quero mesmo é Lula Lá”. Não suportam que a filha da empregada seja a professora na escola particular onde estuda o filho. Um presidente que vem da seca nordestina, da pobreza, do povo e é pelo povo conclamado causa pavor nessa esquerda, que é também nascida em uma sociedade escravocrata, fruto de uma cultura escravagista.

A miséria, no Brasil, é rentável para todos, menos para o pobre brasileiro. E é por isso que Lula poderá morrer ou ter o fim de um pobre, analfabeto, nordestino migrante (a face de si mesmo) por quem muito fez e, por isso, hoje é vítima de absurdos jurídicos, explícitos e aceitos até mesmo por membros do PT e esquerda brasileira. “Volte para onde nunca deveria ter saído!” – parece-me a frase subliminar, quando vejo nas redes sociais “Lula está preso, mas meu voto está livre” e quando penso nas razões de súbito e fácil descarte de nosso maior líder político.

Lula é vítima de preconceito racista e classista e, talvez, padecendo de uma suposta enfermidade, “deprimido” quem sabe, poderá morrer sem que tenhamos lutado por ele como deveríamos. Porque, no Brasil, nos foi negado o direito do desejo, o desejo de pertencer à terra em que nascemos e em que, ao respirarmos pela primeira vez, choramos. Mas, é só atravessando a primeira dor da pertença, que podemos alcançar juntos a liberdade.

*Anita Iracema é Mestra em educação stricto sensu

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