Decisão da ONU (Parte II) – A necessária reação popular e os incontáveis motivos

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Como vimos na Parte I deste artigo, as instituições não estão funcionando normalmente. Sob o Regime Temer, o Brasil e os brasileiros agora são – aos olhos do mundo – uma ditadura. A declaração da ONU de que há uma  perseguição política a Lula desnudou toda uma farsa que, maquiada de “normalidade”, instaurou e mantém um sofisticado estado de exceção no nosso país. Da direita, nada que fosse contrário a este cenário poderíamos esperar, mas e da esquerda? Voltemos ao debate.

Quando um especialista da ONU afirma que a “liminar a favor de Lula tem caráter obrigatório e imediato”, mas o que mais desperta a atenção no debate à esquerda é “o silêncio da Globo” ou a palavra de um pau-mandado da mesma Globo (Carlos Alberto Sardenberg), algo está errado. Preocupa que de posse desta “arma” com grande poder como é esta LIMINAR da ONU, o foco de muitas pessoas tenha sido o “silêncio da Globo” ou o ladrar de um dos seus vira-latas.

Como vimos anteriormente, a decisão da ONU é a comprovação internacional de que o Brasil vive sob uma ditadura, que temos um ex-presidente da república – com mais de 40% de preferência nas pesquisas – que foi condenado e preso num processo forjado e sem provas, por um juiz parcial e que, pior ainda!, teve os seus direitos e garantias fundamentais violentados. Por tudo isso, temos que tratar o assunto como uma vitória POLÍTICA na luta contra o golpe e em defesa de Lula e da democracia. 

Claro que os golpistas irão ignorar e diminuir a importância dessa LIMINAR da ONU em favor do ex-presidente Lula. Tudo que possa colocar em risco a estabilidade do Regime Temer, eles irão ignorar, descumprir e rejeitar! Quando é que a Globo foi a favor da democracia? Quando é que a Globo defendeu algum valor nobre relacionado aos direitos humanos? Qual a surpresa agora? Vamos ignorar que a própria existência da Globo é uma ameaça à democracia? Até quando a esquerda será “uma concessão da Globo”?

”Tratados servem para ser rasgados”, como diziam os nazistas, segundo Celso Amorim.  Assim como no nazismo, na nossa ditadura da toga não poderia ser diferente, a constituição não é respeitada, direitos e garantias fundamentais são suprimidos e tratados internacionais são DESRESPEITADOS.

Hoje, somos uma colônia dos EUA, são eles que estão no comando do nosso país. Ora, um país que tem um Supremo Tribunal Federal sem voto, legislando, rasgando cláusula Pétrea, eliminando conquistas civilizatórias como a da presunção de inocência, colocando 14000 mil pessoas nas superlotadas masmorras medievais, para impedir Lula de ser candidato, DESRESPEITAR um tratado internacional não é nada!

Políticos autointitulados “de esquerda” não têm o direito de ignorar o fato de que o STF irá DESRESPEITAR! DESCUMPRIR E VIOLAR uma LIMINAR da ONU. DESRESPEITAR um acordo internacional tem consequências, até para um pasto dos EUA, como é o Brasil sob o atual regime.

Deixemos mais este ônus na conta deles, que um dia serão responsabilizados e julgados pelos crimes que cometeram. Precisamos construir no inconsciente coletivo um sentimento de repulsa aos abusos praticados por esta ditadura. Somente assim poderemos revogar todos os atos do Regime Temer e abrir possibilidades para que cada um dos responsáveis pela vandalismo institucionalizado seja julgado com bases legais.

Cabe a nós, e não a eles, saber usar esta arma política, pois com o descumprimento desta LIMINAR o Brasil figurará no mundo na condição de “Pária”, segundo o embaixador Celso Amorim. A quem interessa esta redução do nosso país? Qual a razão da expressão “Soberania Nacional” ter sido usada para justificar o irresponsável descumprimento de um acordo com a ONU?

A cada dia de descumprimento, estaremos a acordar num país menor. O mundo, se tinha desconhecimento ou dúvidas, hoje tem a certeza de que somos uma republiqueta submetida a um regime de exceção de um governo ilegítimo, sequestrados por uma mídia corrupta e um judiciário golpista que descumpre e viola tratados internacionais.

Aos olhos do mundo, o Brasil é hoje um pasto dos EUA. Com o descumprimento desta Liminar da ONU, o Brasil será visto do tamanho que ele está! Uma ditadura, que viola direitos e garantias fundamentais de cidadãos e que mantém presos políticos.

O que temos que nos perguntar agora, é: qual será a nossa atitude diante deste caos institucional e o aprofundamento do estado de exceção que nos encontramos? Vamos fingir que nada está acontecendo ou que as “instituições estão funcionando normalmente”? Seremos cúmplices do golpe lançando um plano B numa eleição fake? Ou partiremos para o enfrentamento ao golpe? Qual é o papel da esquerda nisso?

Basta termos o mínimo compromisso com a democracia e o resgate do nosso estado democrático de direito, para encontrarmos meios de lutar para derrubar o Regime Temer. Lula é hoje – ainda mais depois dessa liminar não cumprida da ONU – um líder internacional de resistência democrática. Lula é a única arma que nós temos para lutar contra o estado de exceção e a dominação do capital financeiro internacional! É preciso repetir à exaustão e em plenos pulmões que “ELEIÇÃO SEM LULA É FRAUDE!”.

Nunca é demais lembrar como a Islândia promoveu recentemente uma verdadeira revolução democrática e anticapitalista e praticamente ninguém fala sobre o assunto. Para combater o atual Regime Temer, em vigor no Brasil, é preciso também usar da mesma sofisticação dos islandeses.

Recordemos: “um Povo que corre com a direita do poder sitiando pacificamente o palácio presidencial, uma “esquerda” liberal de substituição igualmente dispensada de “responsabilidades” porque se propunha pôr em prática a mesma política que a direita, um referendo imposto pelo Povo para determinar se se devia reembolsar ou não os bancos capitalistas que, pela sua irresponsabilidade, mergulharam o país na crise, uma vitória de 93% que impôs o não reembolso dos bancos, uma nacionalização dos bancos e, cereja em cima do bolo deste processo a vários títulos “revolucionário”: a eleição de uma assembleia constituinte a 27 de Novembro de 2010, incumbida de redigir as novas leis fundamentais que traduzirão doravante a cólera popular contra o capitalismo e as aspirações do Povo por outra sociedade.” (Fonte: Página “Também de Esquerda”)

Resumindo tudo o que aconteceu na Islândia e deve nos servir de referência neste momento em que a ditadura está oficializada no Brasil:

  • Afastamento de todo o governo.
  • Nacionalização do sistema bancário.
  • Referendo popular para as decisões sobre a economia.
  • Banqueiros e executivos responsáveis por levar o país à falência foram presos.
  • Uma nova Constituição foi escrita pelos cidadãos (num estádio de futebol).

Precisamos resgatar a democracia. Precisamos resgatar as soberanias nacional e popular. A esquerda brasileira tem o povo ao seu lado. Quem nega o poder do povo o faz por medo, covardia ou conveniência própria. Não há como excluir o povo desta importante luta pela democracia. Líderes não nascem do marketing eleitoral e não são substituídos por imposição de partidos.

Os fatos estão aí: Lula é um preso político e o Regime Temer é rejeitado por praticamente 100% do povo. Esta é a hora de refundarmos o nosso país. Não é preciso usar as armas, basta ousarmos e fazermos pacificamente o que tem sido retardado há séculos. O papel da esquerda brasileira não pode ser resumido ao de “pacificador das massas”.

Depois da decisão da ONU, legitimar esta eleição e abandonar Lula na cadeia, fora das urnas, é um ato de traição a Lula e ao povo. Temos esquerda?

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.