Decisão da ONU (Parte I) – A direita sempre foi golpista. E a esquerda?

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

O que algumas pessoas ainda têm dificuldade de entender é que a decisão da ONU e os sinais de desrespeito do Estado aos acordos cumpridos atestam que o Brasil vive hoje sob uma DITADURA! Um REGIME EXCEÇÃO! Embora, ainda, não tenhamos o fator psicológico de tanques nas ruas, toque de recolher, homens fardados com fuzis nas mãos, o certo é que vivemos sob o Regime Temer.

Com exceção do Rio de Janeiro, com a intervenção militar nas favelas – que tem o apoio da mídia e da classe média – o povo pobre já vive e de alguma maneira tenta naturalizar o estado de exceção em suas vidas. O certo é que esta direita que agora fala em “Soberania Nacional” para manter a subserviência aos EUA e ao mercado financeiro é a mesma de sempre. A direita brasileira sempre trabalhou para isso. E a esquerda? Qual o seu papel diante desta realidade?

A sofisticação deste golpe em curso está no fato de ter sido possível até sexta-feira (17) instaurar e manter o Regime Temer com ares de normalidade. A repetição do mantra “as instituições estão funcionando normalmente” era uma prática à direita e à esquerda, por via da mídia hegemônica – uma concessão estatal a serviço dos interesses internacionais – ou na “Globosfera”, segmentos apresentados como “de esquerda” para “pacificar” o militante ávido por atos que ponham um ponto final neste cenário circense de normalidade.

Além da imprensa, os EUA e o mercado financeiro internacional instrumentalizaram e cooptaram praticamente todo o judiciário, parte das Forças Armadas, quadros dos sindicatos e alguns representantes políticos em todos os partidos. Não há hoje no Brasil uma única instituição ou organização representativa que não esteja contaminada por células podres.

“Teoria da conspiração”, dirão os conspiradores. O certo é que para um roubo de dezenas de trilhões de dólares, seria necessária uma engrenagem funcionando, sem que o povo percebesse que era roubado. Daí a certeza de que muitos se venderam e traem a própria pátria, o próprio povo.

Ainda assim, é uma estratégia fácil de ser identificada, pois está cada vez mais explícito que temos um sistema judiciário autoritário e fascista na sua grande maioria. E o judiciário sempre ficou do lado das ditaduras. Assim como a Globo e outros órgãos de imprensa, bem como o espectro à direita na política e parte da classe média.

E a esquerda? Como entender a sua postura diante de tudo o que está ocorrendo no Brasil? Como abrir mão do seu único capital (o povo) e incorporar esta disposição de abandonar um preso político que – nas urnas – derrubaria o Regime Temer? Por que tentar herdar em vida o seu espólio? O que vem a ser o “Plano B”? É um plano da esquerda ou dos invasores?

No caso desta LIMINAR da ONU em favor de Lula, temos o fato político mais importante da nossa história recente. Estamos diante de uma decisão que diz reconhecer a existência de violação ao art. 25 do Pacto de Direitos Civis da ONU e a ocorrência de danos irreparáveis ao ex-presidente Lula na tentativa de impedi-lo de concorrer nas eleições presidenciais ou de negar-lhe acesso irrestrito à imprensa ou a membros de sua coligação política durante a campanha. O descumprimento disso vai ser “entubado” pela esquerda?

Motivos para lutar com as armas da ONU

Por meio do Decreto nº 6.949/2009 o Brasil incorporou ao ordenamento jurídico pátrio o Protocolo Facultativo que reconhece a jurisdição do Comitê de Direitos Humanos da ONU e a obrigatoriedade de suas decisões. De acordo com essa LIMINAR, Lula pode ser candidato, até que todos os recursos tenham sido julgados. Lula tem direito a fazer campanha e de se manifestar publicamente.

Vamos aqui fazer um esclarecimento: graças ao monopólio da comunicação social, muitas pessoas, inclusive blogs progressistas  foram induzidas ao erro de acreditar num embuste da imprensa hegemônica (inclusive a BBC que se diz séria) que chamou de RECOMENDAÇÃO, a LIMINAR emitida pela ONU.

Com as recentes explicações de juristas e do advogado de Lula, Cristiano Zanin, ficou claro que não é uma recomendação, mas sim uma LIMINAR! Quem primeiro usou a palavra recomendação, numa clara manobra para confundir a opinião pública, foi o Itamaraty – chefiado por um corrupto das antigas, Aloysio Nunes: “As conclusões do Comitê têm caráter de recomendação e não possuem efeito juridicamente vinculante.” Um embuste! FNF – Fake News Federal!

Estamos diante de uma declaração falsa do Estado e de uma falsa argumentação de uma imprensa que lucra com a atual baderna instaurada no poder. Tudo para o descumprimento de algo muito importante para o resgate democrático brasileiro. Ignorar que lutar contra isso é o único caminho digno a ser seguido será uma declaração de conivência.

Se, depois de tudo isso, este ou aquele não considerar que a “Eleição sem Lula é fraude”, o que é ser “de esquerda”? Como falar sobre “Plano B” ou eleições quando temos diante de nós esta violência contra as leis e contra um líder de 72 anos de idade que representa o desejo do povo brasileiro na política e nas urnas? Quem vai lutar pela soberania popular?

Não há instituições “funcionando normalmente” e a direita sempre foi isso aí. O momento é de decidirmos se somos “de esquerda” ou se apenas somos uma concessão da Globo. Mais do que o futuro de Lula e da esquerda brasileira, a decisão da ONU passou como um furacão e arrancou a lona. A LIMINAR da ONU descobriu todo o circo e tem sido decisiva para decidirmos sobre o futuro do nosso país e do nosso povo. Não há mais lona para que o espetáculo circense esteja restrito aos grupos de interesse. Todos estão expostos. Todos! Qual o papel da esquerda neste circo?

Continuação na parte II

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.