Desmonte da pesquisa científica ameaça o futuro do Brasil

Por Wellington Calasans, Colunista do Cafezinho

O Cientista em Bioestatística e Colunista do Cafezinho, Antônio Ponce de Leon me convidou para uma conversa com a Doutora em Epidemiologia, Cláudia de Souza Lopes.

Foi um trabalho muito produtivo sobre o desmonte da UERJ e as consequências danosas para o Brasil a partir do abandono do governo aos investimentos em educação e pesquisa científica.

Confira o trabalho neste vídeo exclusivo do Cafezinho.

Aqui a transcrição voluntária do vídeo feita pela leitora do nosso blog e ativista política, Camila Govedice.

Professora Cláudia de Souza Lopes – Sou Cláudia de Souza Lopes, eu sou professora associada do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da UERJ.

Wellington Calasans – Como avalia a situação da UERJ?

Professora Cláudia de Souza Lopes – É uma tragédia o que está acontecendo com a UERJ hoje. A gente vem numa crise sem muita luz no fim do túnel, porque a questão não é só uma questão salarial, apesar disso estar sendo colocado muito como uma questão apenas “pagamento de salário dos professores”, mas a crise da Universidade é uma crise de recursos para tudo, recurso para infraestrutura, recurso para pagamento de limpeza, para pagamento de segurança. Também isso tem impacto importante em toda a Universidade, então assim, o Hospital Universitário, essa crise, vamos dizer, de falta de recursos tem um impacto no sentido de diminuição grande leitos hospitalares, então isso tem um impacto também no ensino dos alunos, tanto de graduação quanto os alunos que são os residentes, dos próprios professores que estão atuando ali no hospital, ou seja, todas as unidades da UERJ hoje, elas são afetadas por essa crise.

Wellington Calasans – Quais as consequências das medidas atuais?

Professora Cláudia de Souza Lopes – Quer dizer, na verdade, pelas medidas que não estão sendo tomadas. Eu acho que assim, não estão sendo tomadas uma série de medidas na Universidade há muito tempo, então esse ano a gente já teve uma redução de mais de 60% da procura pelos cursos de graduação da UERJ. Além disso, já há uma previsão de que uma parte considerável dos alunos que estão fazendo as provas para a UERJ que, uma vez aprovados também para outras universidades, eles deixem de ficar na UERJ, ou seja, esse conhecimento que as pessoas tem hoje da crise da Universidade, uma crise que já vem há muito tempo, já vem se estendendo por meses tem feito com que as pessoas deixem de procurar e isso em termos de futuro para a Universidade, ela pode significar um esvaziamento muito grande, ou seja, as melhores cabeças, os melhores alunos que tradicionalmente procuravam os curso da UERJ que são cursos conhecidos em diversas áreas, considerados cursos de ponta. A UERJ é uma universidade que tem curso de Medicina, curso de Direito, já há algum tempo também a Estatística, Matemática, eu não sei de todos os cursos, mas eu sei área de Educação, tem muitas áreas, Biologia, em que a UERJ tem sido considerada uma universidade importante no cenário brasileiro e até no cenário internacional, ou seja, esse esvaziamento de alunos, dessa procura, é uma coisa que vai ter impacto nos próximos anos e a gente está esperando que isso também aconteça na pós-graduação.

Antônio Ponce de Leon – Tudo bem, Wellington? Aqui quem fala é Antônio Ponce de Leon que ja apareceu aqui uma vez ou mais de vez aqui no site do Cafezinho. Eu sou professor de Bioestatística do mesmo departamento que a minha colega aqui, Cláudia Lopes que falou agora há pouco para vocês. A minha para ela e a minha expectativa, aliás, a expectativa de todo mundo, é o que a gente pode fazer enquanto comunidade da UERJ e até sociedade do Rio de Janeiro para tentar mudar esse quadro que como ela descreveu muito bem, é uma tragédia o que está acontecendo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, então, o que a gente está vendo até agora, não houve uma reação, ou seja, a gente está vendo só a coisa ruim acontecer, mas eu acho que em algum momento a gente tem que pensar em reagir, a gente está reagindo, evidentemente a comunidade está reagindo, mas eu acho que ainda não foi suficiente para mudar o curso das coisas, então eu penso assim, o que ela pensa, o que a gente pode fazer, ainda mais do que está sendo feito para tentar mudar essa situação?

Professora Cláudia de Souza Lopes – Bem, essa é uma questão importante. Eu acho assim, que a gente tem tido um movimento dentro da Universidade de resistência, a UERJ RESISTE, eu acho que é um movimento que ele tem aparecido para fora, para comunidade, mas eu acho que assim, além disso, uma coisa que eu tenho percebido que eu considero muito importante é uma participação maior dos alunos. Eu posso falar mais dos alunos da pós-graduação que é onde eu atuo, que eu não tenho dúvida nenhuma de que esses alunos, eles têm tido uma participação muito maior do que eles tinham no passado, e uma parte dessa participação maior desses alunos, eu acho que tem a ver também com essa própria crise da Universidade, quer dizer, alunos que já estavam dentro da Universidade, que já tinham uma identidade com essa Universidade e que perceberam que seria importante eles também estarem participando juntos com os professores, quer dizer, não existia o antagonismo porque o que eu percebia muito é que na mídia muitas vezes aparecia como uma coisa antagônica, os professores estão tomando atitudes que são antagônicas em relação aos alunos, mas a gente não percebe isso tanto no dia a dia da Universidade, quer dizer, se por um lado os alunos são diretamente muito afetados pela crise, porque é claro, eles estão deixando de se formarem na Universidade, eles estão atrasando a sua formação, eles estão deixando de ter aula, isso principalmente na graduação, até mais do que na pós, por outro lado, o que a gente também tem percebido é que eles estão solidários com os professores e com a Universidade. Há pouco tempo atrás teve uma reunião importante do Colégio de Aplicação da UERJ, que é um colégio que tem uma tradição enorme, eu mesma me formei pelo Colégio de Aplicação, tem vários professores lá do Instituto que são formados pelo Colégio de Aplicação, um colégio que formou dezenas de pessoas que hoje em dia estão aí com uma formação muito boa e esses alunos foram muito afetados pela crise da Universidade, ficaram sem aula durante muito tempo e houve uma reunião importante entre a direção do Colégio, com os professores e com os pais dos alunos e eles chegaram a um acordo sobre como deveria ser conduzido em termos de: “tudo bem a gente vai parar a greve, mas vai ficar no estado de greve”. Houve uma negociação nesse sentido, então, eu vejo, em termos assim, no curto prazo, que isso seria importante a gente conseguir ter os diferentes servidores da Universidade, tanto o docente quanto o que não é docente, o funcionário da Universidade junto com os alunos, na verdade é um interesse comum, então a gente conseguir agregar esse interesse e colocar para fora. Eu acho que isso já vem sendo feito, mas eu acho que tem que ser mais. Eu acho que são diversos canais, diferentes canais de denunciarem mesmo essa crise da UERJ, mas como uma coisa que a sociedade, porque na verdade a UERJ pertence à sociedade, ela não é uma coisa para dentro, não é? Ela é um patrimônio do Rio de Janeiro, a Universidade, então acho que a sociedade tem que começar também a ter uma cobrança maior em relação a ela.

Antônio Ponce de Leon – Wellington, inclusive eu já tinha falado disso da outra vez que você me entrevistou, a questão da expansão, da extensão dessa crise, que ela pode atingir eventualmente as universidades federais. Muitos colegas meus de universidades federais estão ficando muito preocupados também porque já está havendo cortes nos orçamentos das universidades federais e também todas as universidades aí, independente se é estadual ou federal, elas são afetadas quando há cortes no fomento das pesquisas. A universidade não somente oferece o ensino, ela também ela também tem uma dimensão muito grande na pesquisa no Brasil e essa pesquisa aumentou muito nos últimos 10, 20 anos com a formação de grandes grupos de pesquisa nas universidades estaduais e federais. No momento em que há esse corte no orçamento do CNPQ, da FAPERJ, da FAPESP, claro que isso vai afetar também o ensino e a pesquisa, então a gente espera que essa crise da UERJ, ela seja superada e que a gente volte aos bons tempos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e que ela também não contagie as universidades federais e as universidades estaduais do país também, não é só a UERJ que existe como estadual, existem muitas outras estaduais inclusive a de São Paulo que são as mais conhecidas e maiores universidades estaduais do Brasil que são por exemplo, a USP e a UNICAMP. Eu não sei qual é a situação das duas hoje, mas eu sei também que não é uma situação tranquila, então, eu acho que a gente tem, como sociedade, como cidadão, a gente tem que debater isso. A gente quer o que? A gente quer que o governo continue destruindo as nossas universidades? Continue destruindo o fomento à ciência ou a gente vai reagir? A gente tem que reagir. Não tem como ficar discutindo apenas, temos que debater, claro, e muito, mas também temos que reagir de uma forma que seja eficiente. Eu vejo muita gente, sei lá, o Brasil parece que está parado também, parece que ficou meio congelado com tantas coisas ruins acontecendo, a gente ficou todo mundo, está todo mundo parado, olhando para ver o que está acontecendo e pouca ação, eu acho que a gente precisa de mais ação.

Professora Cláudia de Souza Lopes – Eu também gostaria de comentar que o Brasil nesses anos, nessa última década, ele teve um aumento na sua produção acadêmica também, no número de artigos publicados em diversas áreas, então a gente atingiu um patamar que a gente nunca tinha atingido antes, quer dizer, uma produção científica que não é só uma produção para dentro do país, mas que ela foi também reconhecida internacionalmente, em diversas áreas, com publicações importantes, então assim, apesar da gente, vir de uma situação até precária em termos de fomento, esses anos em que houve aumento do fomento, houve uma resposta muito grande por parte desses pesquisadores, eu brinco sempre que eu falo: “o brasileiro, ele consegue, às vezes com pouco”. Se as pessoas vissem, com a infraestrutura que a gente tem, que não é muita, a gente dependendo muito de recursos que são do CNPQ, ou da FAPERJ, ou da FAPESP, enfim, das nossa agências de fomento, a quantidade de coisa que a gente tem feito. Então quando você sai do país que você vê realmente assim que o fomento é muito maior do que o nosso fomento e que a gente conseguiu fazer com o fomento que a gente tinha, quer dizer, e mesmo esse fomento que eu acho que aumentou muito realmente, por exemplo em relação à FAPERJ, a FAPERJ houve um aumento enorme em termos de bolsas concedidas, fomento direto para o professor, uma coisa que a gente não tinha no passado e isso fez uma diferença muito grande. Então, assim, é uma pena, realmente, eu volto para situação da tragédia, eu acho que isso é um retrocesso tão grande o que gente está vivendo que não sei em quanto tempo que a gente vai conseguir retomar todo um processo que depende, a gente depende de fomento para poder fazer pesquisa, ninguém faz pesquisa sem dinheiro, então acho que é isso, o Ponce estava falando que a gente tem que realmente lutar por isso, correr atrás, conversar com a sociedade, mostrar o quanto é importante que o país mantenha esse crescimento que ja vem acontecendo.

Antônio Ponce de Leon – Enfim, só para encerrar dizendo que, de fato, nós, como pesquisadores e acadêmicos brasileiros, estamos participando o tempo todo, ainda, apesar de toda a crise, estamos nos esforçando para trazer, fazer a ciência no Brasil importar, no mundo também. Queria agradecer à Cláudia, pela presença dela nesse bate-papo informal e dizer para todo mundo que nós da UERJ estamos na luta e esperamos sair dessa situação muito ruim e estamos também totalmente solidários ao que vier a acontecer nas universidades, outras, que não a UERJ.

Professora Cláudia de Souza Lopes – Bem, eu queria também agradecer ao convite para essa entrevista. É a primeira vez também que estou participando aqui do Cafezinho e lembrando, quer dizer, essa colaboração, a gente veio para cá, aqui para Estocolmo exatamente por conta de um programa de colaboração entre o governo brasileiro via CAPES com a agência de fomento daqui que é a STINT, ou seja, há um interesse hoje também da comunidade internacional em fazer colaboração com o Brasil e eu acho que isso mostra a importância da nossa ciência, então eu espero que esse bate-papo aqui, de alguma forma, ele ajude as pessoas a entenderem um pouco o que está acontecendo com as universidades e possa ampliar o debate sobre a universidade pública brasileira.

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.