A quem interessa a ignorância política do militante “de esquerda”?

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Um observador distante tem uma visão privilegiada quando comparado aos demais que, de forma consciente ou não, são influenciados pela rotina. Contrapondo-se a esse viés “de esquerda” que tenta normalizar o arbítrio da justiça, numa redução inaceitável da soberania popular, este Duplo Expresso tem sido – mais uma vez – alvo de ataques furiosos. Desde parlamentares, passando por blogs ou jornalistas que alugam a caneta e culminando com “militantes vermelhos” (não disse que são de esquerda), a confusão entre disputa eleitoral e resgate da política é visível.

Por ignorância ou má-fé, o certo é que aquilo que deveria ser a luta do “campo progressista” é hoje uma caricatura desprovida de fundamentos básicos e que destitui “a esquerda” de seu caráter social e histórico. O primeiro deles é a certeza de que não existe esquerda capitalista. O que se apresenta hoje como “de esquerda” no Brasil é uma concessão da Globo que não luta por justiça social. É uma “esquerda” que se esconde atrás de pautas identitárias e pratica contra os focos discordantes os mesmos métodos que condena no MBL, por exemplo.

Ao ignorar que um novo território está a ser desenhado no cenário político brasileiro (com sérios reflexos no cenário geopolítico) o discurso crítico passou a ser visto como algo totalmente distante do campo de visão dos militantes, sobretudo entre os mais jovens, que confundem Estado com governo, governo com partido e democracia com eleição.

Os debates permitidos à esquerda são reveladores das condições das novas políticas em curso, pois quando é visível que o avanço internacional sobre o Brasil desmonta o Estado, os atuais representantes da política, com raras exceções, abraçam uma agenda totalmente desconectada dos verdadeiros anseios do povo brasileiro.

O nível de conhecimento e/ou grau de compromisso dos políticos com as soberanias nacional e popular é desolador. Na grande maioria, o contingente de políticos leigos ou levianos é refletido na assustadora incapacidade do militante desenvolver um raciocínio próprio. Com isso, acaba por mergulhar na piscina vazia dos lindos debates com temas nórdicos, enquanto o Brasil segue sem freio rumo à realidade do Congo.

Sobre as eleições, é também assustador que nesse período – que as forças neoliberais minguam nas pesquisas de opinião pública – o espectro que se apresenta aos eleitores como “de esquerda” ignore os verdadeiros problemas – decorrentes do roubo das nossas riquezas e desmonte do estado social – e tente conquistar votos com um discurso que pode ser denominado de “versão ‘direita vermelha’ do neoliberalismo”.

Entre os militantes desta falsa esquerda temos verdadeiros “pelotões fascistas” que inviabilizam o debate sobre a falta de opção à esquerda nas urnas e tentam impossibilitar as críticas aos discursos hegemônicos que até recentemente eram exclusivos da Globo, mas que agora foram incorporados por políticos e muitos blogs que formam uma espécie de “PIG Vermelho”.

Mesmo inserido no campo aceito como “de esquerda”, não há hoje propostas claras e que possam ser vistas como o contraponto crítico dos discursos neoliberais predominantes historicamente na direita. Pior, os discursos apresentados são uma continuidade dos enunciados do discurso neoliberal de uma direita derrotada por quatro eleições seguidas e que, após assaltar o poder, sofre com os maiores índices de reprovação da história política do nosso país.

(…) a qualidade e a quantidade da inserção dos indivíduos no mundo estão na dependência do nível de consciência por ele atingido: “a crença na construção de um outro mundo ou de um novo mundo, purificado dos erros do presente”. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, p. 202)

Nos países da América Latina aquilo que entendemos como “de esquerda” é inseparável das lutas dos movimentos sociais e das diferentes franjas populares. Há uma atenção redobrada principalmente para evitar os eventuais desvios entre os discursos e as práticas, pois estes somente estarão coerentes se contemplarem os ideais de soberania das nações e liberdade dos seus povos. Negar isso e abraçar a agenda neoliberal é matar uma história de resistência e condenar à ignorância os novos militantes que queimam energia com bandeiras que sequer resolvem os próprios problemas.

O certo é que a visão da sociedade com o que é ser “de esquerda” deve ser comparada à “treva” a ser desvelada e iluminada. É preciso que seja resgatado – ainda que com a necessária modernização – a identidade do cidadão/eleitor consciente e crítico, pois – a despeito dos 13 anos que o “campo progressista” esteve no poder no Brasil – a maioria dessas pessoas foi destituída da capacidade de conhecer a própria realidade.

O que nos cabe agora, como ponto de partida, é tentar descobrir a quem interessa a ignorância política do militante de esquerda. Buscar esta resposta é um caminho pavimentado para a cura de todos os males dessa doença “neoliberal vermelha” que apenas joga um ketchup nos coxinhas com crise de identidade.

 

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.