5 filmes para curtir Arquitetura

Por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

Proponho uma pausa na correria política que atravessa nossas vidas. Um respiro. Uma “cinematicação”! Gosto muito de filmes e salas de cinema. Sinto uma saudade quase nostálgica do tempo que os cartazes eram reproduzidos em tamanho maior na frente dos prédios por alguém que ía até lá e reproduzia à mão a arte original. Época em que as salas de exibição tinham fachada e elas davam para rua, havia filas na rua, e sentia-se cheiro de pipoca na rua. Gosto tanto do tema que o projeto de conclusão da minha graduação em Arquitetura há vinte anos foi um complexo de salas de cinema – o Multiplex Cinerama. Penso nos filmes como a Arquitetura em movimento, mas com enquadramento na proporção de uma tela. E que tal se vocês também começassem a gostar um pouco mais de Arquitetura assistindo uns filmes?

 

1. “Аэлита” (1924), Yakov Protazanov, 113 min, RUS  |  Aelita, a Rainha de Marte

Poster do Filme Аэлита por CC Israel Davidovich Bograd (1927)

Sinopse: Filme baseado no romance homônimo de Aleksei Tolstoi (parente distante do conhecido Liev Tolstoi) de um ano antes. Trata-se de um filme de ficção científica ainda na era do cinema mudo, apresentado originalmente com músicas de Scriabin, Stravinsky e Glazunov. Após uma guerra civil devastadora, a União Soviética de 1921 está em ruínas e com pessoas famintas vagando nas ruas. Uma mensagem misteriosa vinda do espaço é captada em todo o mundo. Ela vem do Planeta Vermelho, onde o governo aristocrático e despótico de lá tem como regente Tuskub. A Rainha Aelita  observa os terráqueos através de um telescópio, em especial o herói Los (e o fracasso de seu casamento). Los torna-se obcecado pelas mensagens e constrói uma espaçonave para viajar até Marte com outros dois tripulantes – Gusev e Kravtsov. Lá encontra-se com Aelita, mas Teksub prende os terráqueos. Na prisão, Gusev instiga os escravos a revoltarem-se, e são liderados por Aelita para derrubar o governo ditatorial. Mas o que ela queria é ter a oportunidade de estabelecer o próprio regime. Mesmo com um final moralista, o roteiro reserva surpresas. A crítica ao modelo de estado do filme fez com ele fosse marginalizado até o desmantelamento da União Soviética, nos anos 90.

Por que assistir?  Porque a maior parte do filme faz uso de elementos construtivistas para exibir a civilização marciana, obra dos pintores e cenografistas Isaac Rabinovich e Viktor Simov, e os figurinos da artista de vanguarda Aleksandra Ekster. A Arquitetura Construtivista foi a principal propaganda de um estado social comunista soviético naquela década posterior à revolução de 1917 representando uma idealização do estado com base nos avanços tecnológicos. No filme, no entanto, ela é a representação de um estado totalitário e opressor… A influência deste filme é posteriormente percebida em Metropolis (1928) e nos treze episódios de Flash Gordon (1936).

 

2. “Playtime” (1967), Jacques Tati, 119 min FRA  |  Tempo de Diversão

Poster do Filme Playtime por © Retrocards (1967)

Sinopse: Quase dez anos após Jacques Tati satirizar o modernismo através de uma casa-personagem no fantástico “Mon Oncle” (Meu Tio), ele usa quase uma cidade inteira desta vez. Na comédia, o personagem Monsieur Hulot chega ao aeroporto de Paris junto com um grupo de turistas estadunidenses, onde está sua contraparte no filme – Bárbara. Com o pretexto de uma entrevista de trabalho na cidade, Hulot e o filme seguem por seis diferentes cenários: o Aeroporto, o prédio de escritórios, ma feira comercial, o apartamento, o restaurante e o carrossel de carros. O protagonista é a síntese do desconforto do excluído, aquele que não sabe como comportar-se só ou em grupo, nas horas de trabalho ou de diversão. Infelizmente, o filme não conseguiu ser popular o suficiente para retornar o investimento financeiro do diretor em sua realização, levando-o a falência por uma dívida atualizada acima de U$ 11 mi de dólares.

Por que assistir? Assim como nos filmes de Charles Chaplin, Jacques Tati faz uso de complexas e muito bem estruturadas coreografias nas cenas. O grande protagonista deste filme não é o personagem Hulot, mas sim a Arquitetura Modernista, que apresenta este modernismo como promessa de um mundo melhor para as pessoas e para o lugar que elas habitam. Mas o que se revela é uma “mecani-cidade”, onde a engrenagem humana parece não encontrar lugar. Ainda assim, o cuidado com o cenário de concreto e vidro servem como paradoxo da rigidez e formalidade de uma arquitetura modular em relação à imprevisibilidade do comportamento humano.

 

3. Koyaanisqatsi(1982), Godfrey Reggio, 86 min, USA  |  Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Controle 

Poster alternativo para Koyaanisqatsi sem autoria expressa (2017)

Sinopse: Na língua “hopi”, falada pela nação indígena nativa da América do Norte – Hopis, descendentes dos astecas (família uto-asteca) –, a palavra “koyaanisqatsi” significa “vida maluca”, ou “vida desequilibrada”. Muito antes dos documentários mostrando os confins do planeta, esse filme experimental sem diálogos (apenas com a trilha sonora de Phillipe Glass) contrasta de forma provocativa o mundo natural – idealizado e quase sacro – com o mundo da sociedade tecnológica – distópico e quase profano. Filmado entre 1975 e 1981, ele vai contra a tendência da época da celebração do progresso tecnológico e expõe uma ruptura com o discurso de harmonia entre homem e máquina. Primeiro filme da trilogia “Qatsi”, completados por Powaqqatsi, em 1988, e Naqoyqatsi, em 2002.

Por que assistir? Muito antes do termo “sustentabilidade” surgir nos discursos do establishmentDE1 engajado do mundo – o Relatório Brundtland, ou “Nosso Futuro Comum” é de 1987, e a Agenda 21 surgiu após a Rio 92 – este filme mostrava a necessidade de compreendermos melhor as relações entre o ser humano e o meio ambiente. Representa o momento de transição da sociedade estadunidense moderna para a pós-moderna, coincidindo com a época da crise urbana nos Estados UnidosDE2 pós primeira grande crise do petróleo nos anos 70. Usa ferramentas que hoje são muito comuns, como o recurso do time-lapse (uma câmera fixa registrando uma cena por longo período e, depois, as imagens capturadas apresentadas de forma acelerada) para evidenciar os padrões da vida nas cidades.

 

4. “El Hombre de al Lado” (2009), Mariano Cohn e Gastón Duprat, 103 min, ARG  |  O Homem do Lado

Poster do Filme El Hombre de al Lado por © Olé Produções (2009)

Sinopse: Dizem que quando se fecha uma porta, uma janela se abre… Nesse drama argentino, o mundo convenientemente organizado do designer Leonardo é posto à prova pela audácia e intrusão de seu vizinho Victor, um simplório vendedor de carros usados que decide abrir uma janela na parede de divisa entre sua casa e a do famoso vizinho. Para ele, uma questão de “direito ao sol”; para o designer, um “crime contra a humanidade”. Como grande parte do cinema argentino desde os meados dos anos 90, um argumento simples serve de ponto de partida para uma história bem escrita e contada, relacionando pessoas, lugares, e suas relações completamente assimétricas. Do lado de cá da janela, está Leonardo, o personagem que oferece uma aparência do que não é. Do lado de lá, “botando a cabeça para fora”, está Victor, alguém que não precisa preocupar-se com seus atos porque nada tem a esconder. O que vemos quando nos observam? Qual a sensação provocada por este olhar?

Por que assistir? A Casa Curutchet é uma residência projetada por Le Corbusier (que aceitou fazer o projeto, mas não viajou ao país) para ser um híbrido de residência unifamiliar e consultório médico de Pedro Domingo Curetchet. É a primeira de duas únicas obras do expoente franco-suíço nas Américas, e está localizada em La Plata (ARG). Trata-se de uma construção com quatro pavimentos com grandes panos envidraçados, e as atividades de moradia e trabalho são separadas por um pátio interno. O jovem arquiteto que executou a obra – Amancio Williams –, foi responsável por obter a permissão de que o projeto pudesse seguir o sistema de medidas de Le Corbusier (o Modulor) e não as medidas no padrão argentino. Essa casa foi restaurada entre 1986 e 1988 para as comemorações do centenário do arquiteto. Desde 1987 é um monumento nacional e abriga a sede do Consejo Superior do Colegio de Arquitectos de la Provincia de Buenos Aires – CAPBA. Em 2016 foi declarada como Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.

 

5. “Tudo é Projeto” (2017), Joana Mendes da Rocha e Patrícia Rubano, 74 min, BRA

Poster do Documentário Tudo é Projeto por © Olé Produções (2017)

Sinopse: Herdeiro vivo do movimento moderno da arquitetura brasileira e expoente do Brutalismo Paulista, o arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha foi homenageado com o Prêmio Pritzker em 2006. Este documentário apresenta um pouco da vida e da obra do arquiteto através de inúmeras entrevistas, gravado ao longo de quase uma década por sua filha. Essa também dá o ar familiar na apresentação do personagem e do trabalho que ele fez ao longo da vida, expondo-o com reverência, mas respeitando o tempo que ele precisava para concatenar respostas às questões apresentadas.

Por que assistir? Diferente do que se espera em uma apresentação sobre um arquiteto, o foco deste documentário não está na magnífica e extensa obra do autor. O que se apresenta é o processo criativo de Paulo Mendes da Rocha. Como suas obras são concebidas a partir da emoção conduzindo a razão. Ele opina sobre diversos temas pertinentes à área de atução profissional, como a urbanidade, a humanidade, o detalhe técnico, a representacão artística. Mas o ponto-chave é o entendimento da cidade (o lugar do arquiteto) como um ser vivo, com regras proprias que não seguem propriamente as leis dos homens, mas sim as vontades da natureza. Em mais de dois anos na Suécia, esse foi o único filme nacional que assisti, durante o Lund International Architecture Film Festival do ano passado. A exibição deste filme não poderia ter uma escolha de lugar mais apropriada – o Skissernas Museet (Museu de Esboços de Arte Pública).

 

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Vejam bem (!), a arte cinematográfica oferece uma possibilidade de captura combinada do espírito do tempoDE3 e do espírito do lugar. Serve amplamente para indicar uma representação da forma de ser e pensar de determinados grupos sociais. Os filmes com motivos em arquitetura podem auxiliar a perceber nossa realidade sob diferentes ângulos. Na estreita visão profissional, a cidade é uma representação da nossa organização política, com “o quê” somos estritamente vinculado ao “onde” estamos. Essa pequena série contém, em uma síntese: (1) distopia, (2) mecanicidade, (3) sustentabilidade, (4) empatia, e (5) processo.

O que podemos fazer com isso para melhorar a nossa estrutura social?

 

 

DE1 – Establishment corresponde a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado.

DE2 – A crise nas grandes metrópoles estadunidenses é representada pela degradação urbana explorada em diversos filmes. Expondo New York, tem-se desde o icônico “Desejo de Matar” (1974) com o arquiteto Paul Kersey (Charles Bronson) como um vigilante que resolve as coisas na base da bala, “Taxi Driver” (1976) ou “Warriors – Guerreiros da Noite” (1979). Expondo Los Angeles, tem-se “O Perigoso Adeus” (1973), “Assalto ao 13º Distrito” (1976).

DE3 – “O espírito do tempo” é a tradução do termo alemão Zeitgeist (pronúncia: tzáit-gáisst). O “espírito da época”, ou ainda, o “sinal dos tempos”. Uma combinação do clima intelectual e cultural de um lugar (considerando-se que ele influenciar outros locais do mundo), em um determinado período de tempo. Algo capaz de representar as características de um determinado momento de forma genérica e abrangente. Por exemplo, a Belle Epóque” européia, entre o final da Guerra Franco-Prussiana e a I Grande Guerra (1871 – 1914).

 

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Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.

 

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