Se depender de traição, Nobel da Paz irá para… Temer!

Por Wellington Calasans & Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

 

O Viés Político

Agora não há mais dúvidas sobre a motivação do golpe no Brasil, quando todos já perceberam que esta violência contra o nosso país e o nosso povo decorre de uma, meticulosamente planejada, guerra híbrida, onde os piratas do petróleo mundial corromperam brasileiros que praticam seguidos crimes lesa-pátria para facilitar o roubo. Agora faz-se necessário o debate em torno do Prêmio Nobel da Paz.

Qual a razão de gastar tanta energia com isto, totalmente fora do nosso controle? Qual a razão disso exatamente no momento em que Lula é julgado por um juiz que, ao rigor da Lei, não poderia julgá-lo? Qual a razão disso quando Lula está em processo de condenação por um crime forjado por este mesmo juiz e que está preso sob o crivo de um poder judiciário envolvido até o pescoço com a invasão estrangeira no Brasil?

É preciso ter coragem para dizer que o Nobel da Paz é uma farsa. Se algum valor tivesse, teria sido atribuído a Lula ainda presidente, quando tirou milhões da linha da pobreza. No lugar disso foi Barack Obama o “vencedor”. Um presidente que fez guerra todos os dias em que governou os EUA, durante ininterruptos oito anos.

Chega de complexo de inferioridade! Lula é maior do que este “prêmio”. Como a história de Lula todos nós conhecemos e a recente memória de um Brasil digno nos remete aos seus anos à frente da Presidência da República, façamos uma pequena retrospectiva sobre este “prêmio” para que fique claro que se trata apenas de mais um caso de marketing que deu certo.

Há quem considere que o maior erro do Prêmio Nobel da Paz tenha sido a ausência da indicação de Mahatma Ghandi que, assim como Lula, faz desse “Prêmio” algo menor. Além de Obama, temos que recordar outros casos que chocam pela total incoerência nos critérios de escolha. Por exemplo, é necessário recordar que Nelson Mandela dividiu o Nobel da Paz, em 1993, com o então presidente sul-africano, Frederik Willem De Klerk, “pelos esforços na reconciliação após décadas de apartheid”. Mandela ficou preso durante vinte e sete anos e De Klerk livre para comandar o regime segregacionista combatido por Mandela. Precisa desenhar?

Imagem: Nelson Mandela e Frederik Willem De Klerk compartilham o Nobel da Paz em Oslo (NOR) por © Nobel Prize Archives (1993)  |  Nas laterais, série de selos lançados pelo correio sul-africano homenageando os vencedores do Nobel (1996)

Trazendo para os anos recentes, temos o caso do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que em 2016 recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Segundo a Academia Norueguesa, ele foi merecedor do “Prêmio” por causa do “acordo de paz que acabou com a guerra civil no país”. Este mesmo Nobel, como no caso de De Klerk e Mandela, não foi dividido com Rodrigo Londoño (Timochenko), visto pelo ocidente como um criminoso convicto. Meses depois, o povo colombiano jogava água no chopp da Academia Norueguesa ao dizer “não” ao acordo de paz que premiou antecipadamente Juan Manuel, mas sem antes combinar com os colombianos.

São muitos os exemplos de que o Nobel da Paz é, e sempre foi, um “prêmio” usado para legitimar os interesses ocidentais. Tentar agora a dispersão da luta por Lula, implorando migalhas de uma Noruega que foi o primeiro país a roubar o nosso Pré-Sal, significa ignorar a importância da pressão nas ruas, greves e outros protestos, em terreno brasileiro, pelos brasileiros e para os brasileiros. Focar em algo distante e que não depende do nosso povo é perder a grande oportunidade de debater a política que nos atinge diretamente.

A julgar pelos exemplos citados, Temer será o próximo vencedor. 

O brasileiro precisa entrar para a história como um povo que cansou de ser enganado e explorado. O recado que devemos dar ao mundo sobre o reconhecimento dos méritos de Lula não pode ser terceirizado para um “prêmio” de qualidade tão duvidosa. Abandone o medo de lutar! Abandone o complexo de vira-lata e tenha orgulho de repetir em alto e bom som: “Lula é maior do que o Nobel da Paz”.

Para que você conheça melhor este “Prêmio”, fizemos uma pequena pesquisa sobre ele. Os autores deste texto residem na Suécia, país de nascimento de Alfred Nobel, sendo que a residência de Wellington Calasans está distante apenas 800 metros da antiga fábrica de dinamite do “pacífico sueco”.

 

* * *

A Questão Histórica

Alfred Nobel (1833-1896) nasceu em Estocolmo, na Suécia, em 21 de outubro de 1833. Sua família era descendente de Olof Rudbeck, o personagem mais conhecido da Suécia no século XVII, época do país como a grande potência no Norte da Europa. Olof Rudbeck escreveu o primeiro tratado tratado escrito na língua sueca, com quase 3.000 páginas. Intitulado Atland eller Manheim – vulgarmente conhecido como Atlantica –, ele pretendeu provar, recorrendo à linguística e à arqueologia, que a Suécia fora a mítica Atlântida de Platão: o berço da civilização humana, e que Adão e Eva teriam falado a língua sueca, a qual originaria o latim e o hebraico.

Imagem 1: “Retrato de Olof Rudbeck” por Martin Mijtens, domínio público (1696) | Imagem 2: ilustração da obra “Atlantica”, onde o autor é mostrado rodeado pelas principais figuras da cultura clássica europeia – Hesíodo, Platão, Aristóteles, Apolodoro, Tácito, Odisseu, Ptolomeu, Plutarco e Orfeu” (1689) | Imagem 3: “Stora Hornsbergs em 1772” por Hieronymus von der Burg CC Stockholm City Archive (clique na imagem para ampliar o mapa)

O pai (Immanuel Nobel) era um engenheiro e inventor. Construiu pontes e prédios em Stockholm. A mãe (Andriette Ahlsell) vinha de família rica, o que permtiu que o marido enfrentasse as agruras com falências na sua atividade da construção civil.

Alfred Nobel era um dos oito filhos do casal (apenas quatro chegaram na idade adulta). Era fluente em 5 línguas já aos 17 anos. Tornou-se químico, inventor, engenheiro, empresário, homem de negócios, autor e pacifista. Das suas 355 patentes registradas, a dinamite foi a mais significativas.

Em 3/set/1864, uma grande explosão na fábrica em Heleneborg deixou seis pessoas mortas. Entre elas seu irmão, Emil Nobel, com apenas 21 anos. No jornal Aftonbladet do dia 7/set/1864, Alfred Nobel explica que o irmão fez uma tentativa em grande escala, mas sem um termômetro para ler a temperatura crescente do composto. Inerte em 60ºC, a combinação tornava-se inflamável ao atingir 180ºC. Isso acarretou a explosão da fábrica.

Assim, ele compra uma nova área para sua fábrica no ano seguinte. Seu laboratório deixa a área urbana de Stockholm e segue para uma área com abundância de água e cercada por penhascos rochosos, agora em Vinterviket. Hoje em dia, este lugar reúne um conjunto remodelado com restaurante, café e centro de eventos (clique na imagem para ver mais).

Imagem 1: “A Fábrica de Dinamite vista do Vale” por © SSM_1910 | Imagem 2: “Trabalhadores do Lado de Fora da Fábrica de Dinamite por © Nitro Nobels (circa 1900) | Imagem 3: “Restaurante Winterviken em Vinterviken” por © Guldmyntet Hägersten (2017)

A vida dedicada às ciências, negócios e causas pacifistas impediu que constituísse uma família. Mas Nobel teve três grandes amores na vida. O primeiro, uma russa de nome Alexandra (que recusou sua proposta de casamento). O segundo, em Paris, foi a vienense Bertha Kinsky, que respondeu a um anúncio de classificados pedindo por “uma mulher madura, com conhecimento em línguas estrangeiras, e que pudesse desempenhar encargos de secretária e governanta”. Depois de um breve período, ela surprendentemente deixa Nobel e casa-se com uma velha paixão, tornando-se a baronesa Bertha Sophie Felicita von Suttner. O terceiro, uma florista austríaca – Sofie Hess – 23 anos mais jovem que ele, com quem manteve um romance por correspondência por longos 18 anos.

Coincidentemente, Bertha von Suttner foi laureada com o Nobel da Paz em 1905, por “suas sinceras atividades pacifistas, como escritora e presidenta honorária do Gabinete Internacional Permanente pela Paz”.

Imagem 1: Retrato de Bertha von Suttner por © Nobel Foundation (sem data) | Imagem 2: Retrato de Alfred Nobel por Emil Österman © The Nobel Foundation (circa 1883 ) | Imagem 3: Capa do livro “A Nobel Affair – The Correspondence between Alfred Nobel and Sofie Hess”, de Erika Rummel (2017) | Imagem 4: Retrato atribuído à Sofie Hess por © Ira Gromakovskaya para a april-knows.ru (sem data)

Quando Alfred Nobel morreu, a Suécia e a Noruega estavam unificadas desde 14/jan/1814. O Parlamento Bicameral Sueco (Primeira Câmara – Första kammaren, e a Segunda Câmara – Andra kammaren) era responsável pela política internacional, estando o Stortinget (Parlamento Norueguês) apenas encarregado da política interna norueguesa. Alfred Nobel decidiu, assim, que fosse a Noruega a decidir o laureado pelo Nobel da Paz, de forma a prevenir a influência de poderes políticos internacionais no processo de atribuição do Nobel. Essa união foi desfeita de forma pacífica em 13/ago/1905. A Suécia estabeleceu um sistema realmente parlamentar em 1917 – com o Riksdagen. Em 1970, por emanda constitucional, o sistema passou a ser unicameral.

 

Prêmio Nobel

Desde 1901, o Prêmio Nobel homenageia homens e mulheres de todos os cantos do mundo por realizações notáveis em física, química, fisiologia ou medicina, literatura e pelo trabalho em prol da paz. As bases para o prêmio foram estabelecidas em 1895, quando Alfred Nobel escreveu seu último testamento, deixando grande parte de sua riqueza para o estabelecimento da láurea que leva seu nome. Neste testamento, ele deixou o equivalente a U$265mi como fundo para os prêmios.

Marcas usando a imagem de Alfred Nobel

 

Decepções nos laureados com o Nobel da Paz

1. Henry Kissinger | USA e Le Duc Tho [Lê Duc Tó] (que recusou o prêmio), em 1973. Receberam a láurea por “conseguir um cessar-fogo na guerra do Vietnã”. Mas…

Antes disso, o secretário de Estado Kissinger (administração Nixon) havia intensificado os bombardeios na Indochina, Laos e Cambodja, e descobriu-se que neste mesmo ano ele exercera forte influência no golpe militar que derrubou Salvador Allende no Chile. Já o político do Vietnã do Norte, Le Duc Tho comandou a operação militar em seu país e continuou com o terror mesmo após a saída dos EUA do conflito, invadindo Saigon – capital do Vietnã do Sul, em 1975. A queda de Saigon (atual Ho-Chi-Minh) seria o ponto final da Guerra do Vietnã.

2. Yasser Arafat | PSE, Shimon Peres e Yitzhak Rabin | ISR, em 1994. Receberam a láurea pelos Acordos de Oslo  entre o governo de Israel e o presidente da Organização de Libertação da Palestina, mediados pelo presidente dos USA – Bill Clinton. Comprometiam-se a unir esforços para (a) o término dos conflitos, (b) abertura das negociações sobre os territórios ocupados, (c) retirada de Israel do sul do Líbano e (d) a questão do status de Jerusalém. Mas…

Arafat era acusado de promover atos terroristas contra Israel, Jordânia e Líbano. O Primeiro-ministro israelense Rabin foi assassinado por outro israelense no ano seguinte, e Peres quase perdeu sua láurea em 2002 porque, como ministro das relações Exteriores de Israel, foi responsável por um massacre em Gaza, resultando na morte de 14 pessoas (sendo nove crianças) quando do asassinato do líder do Hamas.

3. Barack Obama | USA, em 2009. Recebeu a láurea por “esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos, levando a diplomacia ao centro das atencões novamente.” Mas…

O presidente estadunidense herdara conflitos de seu antecessor, pouco fizera para modificar o status deles, e manteve-se em guerra durante todos os dias de seus dois mandatos.

4. Juan Manuel Santos | COL, em 2016. Recebeu a láurea por “por seus esforços resolutos para acabar com a guerra civil de mais de 50 anos do país”. Mas…

Por que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia não dividiram o prêmio, se estavam no outro lado da mesma mesa de negociações? As contestações ampliaram-se com a rejeição do Acordo de Paz de Cartagena pela maioria da população colombiana no plebiscito de 2016.

Imagem 1: Henry Kissinger por © The American Academy of Achievement (1973)  |  Imagem 2: Yasser Arafat + Shimon Peres + Yitzhak Rabin por CC Saar Yaacov para Assessoria de Imprensa do Governo de Israel (1994)  |  Imagem 3: Barack Obama por CC U.S. Navy (2009)  |  Imagem 4: Juan Manuel Santos por © Reporteros Associados (2016)

 

Os esquecidos/substituídos do Nobel da Paz

Em 1957, o militar brasileiro Marechal Cândido Rondon foi indicado ao prêmio Nobel da Paz pelo Explorers Club, de New York (USA). Coincidentemente, quem recebeu a láurea daquela vez foi o canadense Lester Bowles Pearson, presidente da 7ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Ele comandou os esforços pela pacificação na Crise de Suez criando… uma Força de Emergência das Nações Unidas. Um exército, só que sem bandeira. Ele foi um dos responsáveis pela articulação que criou a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 1949. Para Rondon, restou a imortalidade efêmera na cédula de 1000 Cruzeiros em 1990.

Mahatma Gandhi foi nomeado cinco vezes para receber o prêmio, mas nunca recebeu. Em 1989, ao premiar Tenzin Gyatso (14º Dalai Lama), o presidente do Comitê do Prêmio pagou um tributo a Gandhi.

Em 1974, a britânica Jocelyn Bell Burnell sequer compartilhou o Prêmio Nobel de Física pela primeira observação de pulsares de rádio, apesar de somente ela ter feito este tipo de observação. Ela apresentou suas observações ao seu orientador da tese de Doutorado, Antony Hewish. Pasmem: ele é que recebeu o Prêmio. A comunidade astronômica condenou esta láurea injusta e passou a chamá-la como o prêmio “No-Bell”.

Imagem 1: Marechal Cândido Rondon por © Instituto Moreira Sales (sem data)  |  Imagem 2: Lester Bowles Pearson por © Canadian Liberal Party (1965)  |  Imagem 3: Mahatma Gandhi (sem autor ou data)  |  Imagem 4: Dalai Lama Tenzin Gyatso por CC Christopher Michel (2012)  |  Imagem 5: Jocelyn Bell Burnell por © Daily Herald Archives/SSPL/Getty Images (1967)

 

Os Krebs

Existem outros dois casos que renderam um 1/2 + 1/2 Nobel a dois “tios” em enésimo-décimo-nono grau na família…

Imagem 1: Hans Adolf Krebs por © Nobel Prize Archives (1953) | Imagem 2: Edwin Gehard Krebs por © Nobel Prize Archives (1992)

O primeiro foi médico e bioquímico alemão Hans Adolf Krebs, que compartilhou o Prêmio Nobel de Fisiologia (ou Medicina) de 1953 com Fritz Lipmann. Ele “descobriu e descreveu como ocorrem as reações químicas metabólicas que produzem energia nas células”. O que alguns conheceram por Ciclo de Krebs nos livros de Biologia da escola.

O segundo, o bioquímico estadunidense Edwin Gerhard Krebs, que compartilhou o mesmo prêmio em 1992 com Edmond H. Fischer. Eles descreveram “como a fosforilação ativa e desativa proteínas, regulando alguns processos celulares”. Acho que, mesmo depois de mais de 25 anos, ainda não exista um nome muito popular para isso.

Naturalmente, nestes dois casos não houve controvérsia alguma…

 

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