A grande disputa geopolítica do século XXI: mobilidade, meio ambiente e inteligência artificial – Parte 8: Guerra ambiental e crise: China, Ocidente e Brasil

Por Gustavo Galvão*, para o Duplo Expresso

Trump está brincando?

Disputas geopolíticas, desemprego, baixos salários e estagnação fazem com que os governos optem pela adoção de políticas protecionistas.

Se isso acontecer, haverá uma segunda onda de crise, porque poucos países podem substituir rapidamente suas importações e o protecionismo implicará em aumento de preços e redução global da produção. Em termos globais, o protecionismo pode ajudar muito pouco na recuperação, porque o que um país ganha em superávit comercial é o que o outro perde.

As únicas formas do mundo se manter em crescimento são aumentando ainda mais o déficit público ou uma revolução tecnológica radical que deprecie imediatamente boa parte da capacidade produtiva no planeta.

Essa revolução tecnológica está aí com as mudanças no padrão de mobilidade. Mas ao menos até o fim da década, o investimento nisso ainda será muito pequeno. Portanto, no curto prazo, a alternativa é mesmo o déficit público para se evitar uma crise financeira ou uma guerra comercial.

Apesar da tentação protecionista, o mais provável é que os países desenvolvidos não caiam em uma cadeia de ação e reação que levem um quadro global de protecionismo, como nos anos 30.

O protecionismo ambiental para dinamizar a adoção das novas tecnologias

Se não fosse o acidente Trump, provavelmente a resposta protecionista europeia, americana e japonesa contra a China não seria tão direta.

Umas das saídas pensadas eram novos acordos de metas de emissão de carbono com possibilidade de retaliação comercial contra dumping ambiental e suporte a novas tecnologias, como o carro elétrico e energia elétrica de baixo carbono, que para a China seria o calcanhar de Aquiles em razão da massiva utilização de usinas a carvão.

No médio prazo, o risco está na reação protecionista à futura expansão das exportações chinesas em maquinário e automóveis. Hoje os chineses importam tanto quanto exportam em maquinário e automóveis. Mas eles estão rapidamente avançando nesses setores. Em breve inundarão o mundo com esses produtos, em especial com seus automóveis. E os indianos tentarão acompanhá-los. O gráfico abaixo, com dados de 2007, mostra os setores de maior potencial de expansão do market-share chinês.

 

 

O mundo se organizou desde pelo menos a segunda revolução industrial da seguinte forma: Centro exportando nas Indústrias Centrais e Periferia exportando nos outros setores da economia. Se a China dominar as exportações mundiais das Indústrias Centrais, passará inevitavelmente ao Núcleo do Poder Global!

Mas como sua população corresponde a quase um quinto da população mundial, afundaria os preços e salários médios das Indústrias Centrais. Isso causaria uma alteração da estrutura Centro-Periferia com significativa perda de poder dos atuais países centrais.

A reação europeia, americana e japonesa será um protecionismo de seus mercados internos de automóveis e máquinas, pois esses setores são a base da sua indústria metal-mecânica e sustentáculo de suas exportações. Perdê-los significaria empobrecimento. Já aceitaram perder a indústria têxtil, calçados, brinquedos, móveis, eletrônica de consumo, e até parte dos serviços básicos de mão de obra para software. Mas sem a metal-mecânica não poderão manter a prosperidade.

Entretanto, protecionismo radical levaria a reações em cadeia, recuo na cooperação internacional, desvalorizações cambiais, falências de empresas exportadoras e nova quebra das bolsas de valores.

De uma forma ou de outra, a menos que haja uma grande mudança econômica e política, as chances de continuidade com crescimento acelerado, até início da próxima década, para a economia mundial parecem ser pequenas. Portanto, em quaisquer dos cenários, é muito provável que a demanda externa e o preço das commodities ainda voltem a cair significativamente, o que seria terrível para o Brasil, cuja economia já está na lona.

Nesse caso, as apostas brasileiras em commodities e mesmo na metal-mecânica tradicional ficarão comprometidas. Mas será que não há chances de continuidade da economia mundial para mais uma década?

*Gustavo Galvão é economista pela UFMG, doutor em economia pela UFRJ, funcionário do BNDES, assessor parlamentar e comentarista de economia do Duplo Expresso.

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