As diferenças entre Ciro e Haddad

Por Luiz Moreira

As diferenças entre Ciro Gomes e Fernando Haddad podem ser sintetizadas em suas opiniões sobre a criminalização da política promovida por alguns dos membros do Judiciário.

Ciro sempre condenou a criminalização da política, referindo-se à necessidade de respeito à divisão dos poderes como retorno às respectivas atribuições, como retorno às “caixinhas”.

Bem, já Haddad não se limitou a elogiar Joaquim Barbosa, mas reiterou que ele, caso eleito, seria seu conselheiro. Ora, o que tornou Joaquim Barbosa célebre foi sua atuação contra quadros dirigentes de seu partido, inaugurando a narrativa segundo a qual seria o PT “organização criminosa”.

Quanto à Sérgio Moro: embora a defesa de Lula tenha obtido liminar do Comitê da ONU, asseverando arbitrariedades no processo contra o ex Presidente, denotando parcialidade de Moro, ora futuro ministro de Bolsonaro, Haddad viu nessa atuação de Moro algo benéfico para o Brasil e a condenação de Lula não como algo estruturalmente viciada, mas apenas como erro judiciário, passível de revisão nas instâncias superiores.

É dizer: a condenação de Lula, por Moro, é apenas algo que deve ser corrigido pelo próprio Judiciário, vez que os demais feitos da Lava Jato são percebidos, por Haddad, como positivos, como “bons para o Brasil”.

Duas questões sintetizam, para Ciro, as arbitrariedades perpetradas por Moro na Lava Jato: (1) Ciro repeliria à bala tanto as arbitrárias conduções coercitivas quanto as prisões processuais e (2) atribui a Moro a alcunha de “politiqueiro”, cujo prêmio por sua atuação na Lava Jato foi premiada com ministério no governo Bolsonaro.

Essas as diferenças são estruturais, exprimem as estaturas e concepções de mundo de Ciro e de Haddad.

E se você me perguntar sobre o excesso praticado por Ciro ante Leonardo Boff?

Direi: trata-se de equívoco, de algo inadequado ante as qualidades inquestionáveis de Leonardo Boff.

Entretanto, há enorme diferença entre os elogios e cortejos de Haddad a Joaquim e a Moro e a ofensa dirigida por Ciro a Leonardo.

É que Ciro pode se desculpar, retratar-se, com a justificativa de que reagiu ao que julgou ser tratamento injusto à sua opção política. No caso de Ciro e Leonardo se trata de “doxa”, de opinião, que pode ser ajustada, pois opiniões sofrem gradações, a mais e a menos.

Ciro então pode dizer: “excedi-me! Não merecia a crítica que Boff me dirigiu e cobrei dele tratamento similar ao que sempre deferiu a Lula. Esse sentimento de injustiça gerou em mim indignação. Entretanto, me desculpo, pois minha reação foi inversamente proporcional ao apreço que tenho por ele.”

No caso dos elogios e dos afagos, de Haddad, a Joaquim Barbosa e a Sérgio Moro: trata-se de concepção segundo a qual os defeitos e os equívocos da política se confundem com crimes. Portanto, Haddad se perfila entre os que entendem que somente o direito penal pode purificar a política de suas falhas. Mais: que, sendo o fazer política espúrio, faz-se sua limpeza justifica arbitrariedades e ilegalidades praticadas pelo sistema de justiça.

Em Ciro, a crítica a Boff pode ser ajustada, por se tratar de simples excesso; já os elogios de Haddad a Joaquim e a Moro são conceituais e revelam sua concepção de política.

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