A grande disputa geopolítica do século XXI: mobilidade, meio ambiente e inteligência artificial – Parte 7: Europa industrial e a nova crise global

Por Gustavo Galvão*, para o Duplo Expresso

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Recuperação?

Mesmo se a economia mundial continuar crescente no ritmo acelerado em que esteve nos últimos anos, nossas apostas ainda podem ter problemas a longo prazo. O primeiro risco é uma segunda onda da crise de 2008 e a grande guerra comercial.

A crise do euro permitiu que a Alemanha impusesse seu modelo de desenvolvimento baseado em exportações ao resto da Europa. Dessa forma, o continente dependerá do crescimento das exportações para não voltar à recessão. Mas as suas exportações terão muita dificuldade em continuar crescendo, pois estão muito concentradas nos setores em que a China está apostando para manter o crescimento histórico de suas exportações, em particular a metal-mecânica.

De forma bem simplificada, as exportações europeias são muito dependentes da maquinaria e da automobilística alemã. O gráfico abaixo mostra a participação de cada setor nas exportações europeias.

 

 

As exportações italianas e espanholas de produtos de consumo já sofreram muito com o avanço chinês. Os chineses também já estão substituindo muito da importação de maquinário e já exportam em grandes volumes, como podemos ver no gráfico baixo.

 

Independentemente de uma possível recuperação mundial, as exportações europeias devem crescer pouco em decorrência do avanço chinês. Os europeus são imbatíveis apenas em produtos de luxo e em certos nichos tecnológicos. Mas na grande maioria dos produtos, os chineses serão mais competitivos.

O Japão está em uma situação semelhante à Europa, suas exportações de eletroeletrônicos já foram abatidas há tempos pela China e Leste Asiático. E em breve suas exportações de maquinaria e automóveis também sofrerão. O gráfico abaixo mostra a participação das exportações japonesas por setor.

 

 

Se a Europa e o Japão continuarem a apostar nas exportações para manterem seu crescimento, ficarão dependentes das iniciativas governamentais dos EUA e China. Ademais, mesmo em uma situação de recuperação das nações líderes, terão o crescimento de suas exportações limitadas pelo avanço da indústria chinesa, especialmente na metal-mecânica.

O risco da segundo onda da crise de 2008 ainda existe. O PIB dos países é constituído de consumo, investimentos, gastos do governo e superávit comercial. O superávit de um é o déficit do outro. Apesar do crescimento a indústria mundial está com super excesso de capacidade, portanto, o investimento industrial não deve ser tão importante. O investimento residencial no mundo tem dependido principalmente da China e EUA. Nos EUA não há mais déficit habitacional. Na China ele é cada vez menor.

Sem aumento dos gastos públicos a economia, o crescimento pode cair perigosamente. Especialmente se houver uma recomposição das taxas de juros globais que, hoje baixíssimas, tem sustentado uma mega bolha especulativa, que um dia vai estourar.

*Gustavo Galvão é economista pela UFMG, doutor em economia pela UFRJ, funcionário do BNDES, assessor parlamentar e comentarista de economia do Duplo Expresso.

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