A saída da crise ao alcance da mão, Parte 3: Coincidência ou curto circuito divino nos jornais?

Por Hélio Silveira¹, Gustavo Galvão² e Rogério Lessa³, para o Duplo Expresso

É só escrever sobre um determinado aspecto do mundo neoliberal que “coincidências” aparecem, ou seria sincronicidade?

Em “A saída da crise ao alcance da mão, Parte 1: Ciclo político, democracia e bilionários”, salientamos os comentários de Kalecki sobre as razões da grande importância que os Tubarões do mercado, também chamados bilionários, dão ao “estado de confiança empresarial”. Sincronicamente, logo depois que publicamos, o PIG, a grande imprensa, publica um artigo demonstrando essa teoria.

Voltemos ao nosso artigo citado:

“a) Reprovam a atuação do Estado no estímulo ao emprego: Empresários não querem a concorrência da atuação de um Estado Forte (eles querem um Estado Servil aos seus interesses). Eles querem manipular condução política das condições econômicas, para tanto eles vendem a imagem que a Economia depende do “estado de confiança empresarial”. Esse “estado de confiança empresarial” poderia, segundo a “catequese” deles, “ser abalada” se o governo interferir na economia. Se eles se sentirem muito “abalados” por um governo proativo, não investiriam e haveria redução do emprego e da Renda Nacional. Tudo mistificação mal intencionada. Na verdade, eles temem que a intervenção do governo, que só pode ser feita por meio do déficit público em situações de baixo crescimento, mantenha Economia e o emprego sob controle do governo democrático e, portanto, tornando esse independente dos empresários, mas só do voto. Ou seja, a possibilidade do governo fazer déficit, faz os Grandes Tubarões perderem o controle da política para a maioria dos eleitores. Daí a verdadeira razão da insistência ao equilíbrio das contas públicas das “finanças saudáveis” (sem déficit): amarrar as mãos de um governo eleito democraticamente, pois sem poder fazer déficit, não há como tirar uma economia da recessão. Os Grandes Tubarões dão primazia à manutenção do poder político a obter maiores lucros, mesmo sabendo que os gastos públicos aumentam suas vendas e seus próprios lucros.”

Locaute ou Confiança?

Sim, ele afirma que empresários ameaçam constantemente perderem a “confiança” e se retirar da atividade de investimento (chamamos isso, sem eufemismo, de locaute de investimento) e com isso derrubar o nível de atividade, o emprego e a arrecadação de impostos.

Eles fazem isso, por exemplo, quando o governo busca manter por muito tempo o estado de Pleno Emprego. Podemos dizer que os governos do PT chegaram praticamente a essa situação. E podemos dizer que a partir do segundo semestre de 2014 os megaempresários iniciaram a coordenação de um locaute de investimentos, também chamada de greve de investimentos. Claro que na imprensa eles chamam isso de “crise de confiança”…

Animal spirit é verdadeiro negócio dos jornais de negócio

Keynes, por sua vez, muito mais discreto, ou conciliador, do que Kalecki, denominava esse estado empresarial de “animal spirit”. Para Keynes, o “espírito animal dos empresários” é o que determinava o investimento. Delfim, um mercadista conciliador também prefere essa expressão em seus artigos na Carta Capital. Pode assim posar ao mesmo tempo de keynesiano progressista sem fechar as portas para os velhos amigos da Avenida Paulista. Nós achamos que talvez seja mais razoável para entender o mundo real da política empresarial ver um certo duplo sentido nessa velha expressão.

Concurso de Beleza

Keynes também gostava de usar uma outra expressão para dizer que os empresários não gostam de investir quando os outros não estão investindo. Para ele o investimento no mercado é como um “concurso de beleza” onde não ganha quem achar qual é a mais bela, mas quem será escolhida como a mais bela. Nesse caso, você não vota em quem acha a mais bela, mas quem você acha que as pessoas vão achar que a maioria das pessoas acha mais bela.

Fake News que vira profecia

Os grande Tubarões, através dos jornais de negócios, manipulam assim qual é o melhor momento para investir de cada empresário dizendo que que “o estado da confiança empresarial” está alto ou baixo. Os empresários leem o jornal avidamente para saber como está o “estado de confiança” ou o “espírito animal” dos outros empresários para saber se é o momento para investir. Investir quando todos estão recolhidos esperando, geralmente leva a perdas, porque se o mercado não crescer, o investimento será um fracasso.

No Brasil, com esses juros altíssimos, basta um aviso no jornal para todos pararem de investir. Por isso os grandes Tubarões manipulam os jornais, os pequenos empresários, as sardinhas, caem sempre. E nem poderiam fazer diferente, quem quer remar contra a maré paga um preço muito alto.

Se um bilionário suborna os jornalistas econômicos para dizer que o estado de confiança empresarial cresceu muito, ele cresce mesmo. Se suborna para dizer que caiu ele cai mesmo.

Ou seja, começa como Fake News, notícia falsa, regiamente remunerada, e acaba virando True News, notícia verdadeira, pois os empresários seguem a opinião dos jornais. Keynes chamava isso de “profecia auto-realizável”.

O Estado estraga prazeres de Mamon

O poder de intervenção econômica do Estado por meio da sua capacidade de produzir déficit público para gerar emprego, estraga esse jogo de manipulação, porque os gastos públicos podem fazer o emprego crescer mesmo quando os investimentos empresariais estão caindo. Ora, ora, se fizer isso a macumba dos jornalistas econômicos para fazer a economia crescer ou subir em doses de Fake News não funcionará.

Com o Estado, o interventor no mercado, a profecia não será cumprida! Que grande sacrilégio contra Mamon, o Deus do Mercado! Nenhum deus gosta que suas profecias sejam desmoralizadas. Por isso que os bilionários que manipulam as cordas do jornalismo econômico ficam loucos de raiva contra aqueles que advogam a intervenção do mercado na economia.

Os bilionários precisam de crise, euforia, bolha, estouro da bolha e recessão em um ciclo permanente para manterem seu poder político sobre as eleições e os eleitos, derrubando aqueles que preferem atender ao povo a obedece-los. Ah, e eles também usam todo esse ciclo econômico que criam para comprar a “preço de banana” empresas, ações, títulos, terras e imóveis na recessão para vender a preço de ouro quando o mercado está eufórico. Comprar na baixa e vender na alta… Esse é o mantra de Mamon para os manipuladores das marionetes, para quem acredita no teatro do jornalismo econômico é exatamente o contrário.

O Estado democrático ao tentar manter o emprego sempre alto, incorrendo em déficit se necessário, estraga essa brincadeira perversa.

Como diria Randall Wray: “Os histéricos do déficit são radicalmente equivocados.”

Demonstrando a teoria

Voltemos assim à matéria que inspirou nosso artigo.
Coincidentemente, o Valor Econômico, em 29-6-2018 apresenta o artigo “O abalo na confiança” onde sob o ponto de vista liberal, fala do “estado de confiança” confirmando o que Kalecki afirmava como a ameaça:

Um choque negativo na confiança por sua vez afetaria decisões de consumo e/ou investimentos, levando à desaceleração ou queda do nível de atividade.

O autor analisa no gráfico o estado de confiança em 4 situações, dizendo que é um padrão a confiança cair diante de uma incerteza e depois da situação normalizar segue o padrão anterior. Cita: as manifestações de 2013; as manifestações contra a presidente Dilma em 2015; a conversa Temer/Joesley, em 2017, e a recente greve dos caminhoneiros. Quanto ao último fato afirma que a incerteza continua e o que pode limitar a confiança nos próximos meses é a incerteza política/eleitoral e econômica externa.

Lula pira Mamon

Na verdade, lemos as entrelinhas de outra forma: Lula não cai nas pesquisas, portanto, “o mercado” deve penalizar o povo.

Se Lula não estivesse subindo nas pesquisas, o jornalismo econômico estaria batendo o bumbo de dias vindouros exuberantes com a futura aprovação da Reforma na Previdência.

Mas no caso, acreditamos que essa profecia jamais se realizaria. Com os juros absurdos que já existem no Brasil e com a PEC do congelamento dos gastos em vigor, o padrão estadunidense de crescimento, crise, recessão e crescimento não funcionará no Brasil. Mesmo porque até para manipular o mercado, precisa de uma forcinha do Estado. Imagina a crise de 2008, sem a ajuda providencial do Estado…

Evidentemente a conclusão é óbvia que confirma nossos artigos: após o golpe e o arrocho fiscal permanente mantido pelos economistas neoliberais no governo Temer, a economia permanecerá recessiva e os empresários expertos ganhando com títulos públicos regiamente remunerados aguardando sem riscos e confortavelmente Mamon decidir quando tudo o que for brasileiro já estiver sido vendido na bacia das almas para aí dar sinal verde para seus sacerdotes nos jornais de negócios dizerem a crise finalmente acabou…

Assim: “99%, uní-vos!” Antes que não haja mais nada para ser preservado…

1 Economista aposentado do BNDES

2 Economista do BNDES, doutor em economia pela UFRJ

3 Jornalista Econômico da AEPET – Associação de Engenheiros da Petrobras

 

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