Lula é o Negro do Brasil

Por João de Athayde, para o Duplo Expresso

“É negro revoltado? É negro atrevido? Então chicote nele, e no pelourinho!” Também coloque os outros negros e pobres trabalhadores e a populaça em geral em torno, para assistir a punição exemplar a quem ousar querer afrontar o sistema que os oprime e os mantêm na ignorância.

Eu lembro a vocês que o pelourinho é um marco que se coloca no centro de uma praça pública. Vejam o famoso Largo do Pelourinho em Salvador: o tronco ficava ali no meio dos casarões ricos e do comércio, para que a classe dominante assistisse do alto, não só o castigo, mas também e sobretudo o espetáculo do povo assistindo ao castigo. Essas punições em praça pública não eram mera “malvadeza” ou “vingança pessoal de um senhor dono de escravos”, eram penas decretadas por tribunais, por juízes, escritas nos autos e “baseadas no direito da lei”.

E o povão lá em baixo, vendo as chibatadas, tremendo e temendo ser o próximo – então é melhor ficar quieto – e ao mesmo tempo ir se acostumando a tomar gosto em ver o sangue jorrar, porque esse é o circo gratuito que te oferecem, o fantástico que te é imposto. Esse povo-espectador vai aprendendo a ser sádico, na verdade sado-masoquista, porque ele também é vítima da opressão dessa mão pesada e pode levar pancada de várias formas e a qualquer momento; mas no entanto se acostuma, normaliza, é levado a crer que é essa a ordem natural das coisas.

 

“Castigo Público no Campo de Santana”, Rio de Janeiro, Johann Moritz Rugendas

O espetáculo do sofrimento exemplar do rebelde castigado contribui para uma educação perversa dos afetos, que faz com que no fundo a pessoa passe a gostar, desde pequeno, de ver o sofrimento do seu colega, do seu amigo, do seu companheiro de trabalho ou de lutas. Uma perversidade moral que se transforma numa espécie de patologia psicológica: “o outro, que é vira-lata como eu, merece mesmo é apanhar – seja no chicote ou apanhar da vida, trabalhando muito e tendo parcos proveitos e poucos direitos”. Essa neurose pessoal ou familiar, se difundindo e se multiplicando por milhares de indivíduos vai dar forma à sociedade. Uma sociedade doente de um vira-latismo sado-masoquista. E assim pacificado, a maioria do povo vai ficando apático, só assistindo o seu igual apanhar no tronco.

Esse ângulo de visão do alto dos casarões dos ricos, assistindo o “massacre do indivíduo” ali no pelourinho, e o povo “bem pacificado” lá embaixo, é o que é hoje transmitido pela grande mídia, pelos fake tanks da mídia. É “massacre do indivíduo” por que não é só pena individual, nesse contexto o supliciado é o coletivo.

Agora é via satélite e internet, mas no fundo o sistema é só uma adaptação dos tempos do pelourinho na praça. O que temos é: uma estrutura opressora social agindo e moldando mentalidades individuais, que por sua vez vão reforçar grandes estruturas de exploração, de exclusão e de opressão, num ciclo :

Estrutura → Indivíduo [você]→ Retro-alimentação de uma estrutura
Um ciclo que é uma corrente.
Quebre essa corrente : liberte-se libertando o outro.

 

Assista a seguir o recorte da fala de João de Athayde no programa Duplo Expresso do dia 27 de abril de 2018.

Edição do colaborador voluntário Fábio Queiroz.

 

 

João de Athayde é antropólogo, carioca residente na França (Aix en Provence). Ligado ao IMAF (Institut des Mondes Africains/ Instituto dos Mundos Africanos). Universidade de Aix-Marselha, França. Realiza doutorado sobre as heranças culturais ligadas ao tráfico de escravos no contexto do Atlântico Negro, em especial sobre identidade, religião e festa popular entre os Agudàs, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a África e o Nordeste Brasileiro.

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