A construção da revolta – Não há pacificado que seja sempre pacífico

Por Wellington Calasans, Para o Duplo Expresso

Ainda que de forma pouco organizada, muito mais caracterizada pelas necessidades individuais, há um ambiente de revolução que tem sido criado no inconsciente da camada da sociedade que já sofre com a atual política de concentração total da riqueza e que em nenhum momento inclui o bem-estar social como um papel a ser protagonizado pelo Estado.

A flagrante ausência de uma política voltada para preencher os interesses do nosso País e dos seus cidadãos faz deste atual regime em curso um combustível para uma reação popular ao arbítrio praticado diariamente por quadros que assaltaram o poder.

Sob o insustentável argumento “as instituições estão funcionando normalmente”, a tentativa de rotular de “pacífica” uma massa de desempregados e abandonados é apenas uma das estratégias da pacificação que lhes tentam impor. Enquanto isso, a massa de miseráveis e desempregados cresce todos os dias e não há comida na mesa. Os resultados são terrivelmente imprevisíveis.

Todos já ouviram falar que “não há vácuo na política”. Esta máxima, popularizada de tal maneira que o autor é desconhecido, deve ser vista como algo que reforça o caráter dinâmico que compõe a própria política. A esquerda brasileira está burocratizada e evita a todo custo “testar” a resposta do povo a um chamado mais “endurecido” para impor limites ao arbítrio vigente.

Esta postura somente colabora para o êxito do plano de “normalização” do arbítrio praticado pelo judiciário, mídia e políticos de direita contra o espectro à esquerda da política deve ser visto como mais um ataque ao Brasil e os brasileiros, pois tenta impor aos perseguidos e golpeados uma rendição cândida, sem o direito à indignação.

Exemplos abundam em todo o mundo, em diferentes países, onde o povo revoltado é conduzido ao papel de agente de grandes revoluções. Os recentes acontecimentos na Islândia são os que mais impressionam. Sobretudo porque os resultados positivos foram imediatos.

Há um visível crescimento da revolta entre os brasileiros que seguem, em maioria absoluta, nas intermináveis filas de desempregados. Ignorar a fome e a miséria de milhões é o erro de todos os regimes que tentaram se impor através da opressão e do uso indiscriminado da força contra aqueles que são vistos como “inimigos”.

Juízes, políticos, jornalistas, cidadãos diversos começam a despertar de uma letargia construída nos alicerces da mentira e distorção da verdade. A Globo, dona da comunicação social do Brasil, não consegue mais esconder que a democracia está morta. “Vivemos hoje um estado de exceção” é o que mais tem sido dito em todos os lugares, por todas as pessoas.

Quando uma ditadura tão bem elaborada, com diferentes atores e técnicas, é desnudada, a opressão é o único caminho que resta para que ela seja mantida. No endurecimento nascem as barbáries que isolam os opressores e ampliam, por medo ou solidariedade, os oprimidos.

A tentativa de criminalizar correntes políticas está fadada ao fracasso. É muito pouco provável que o povo espere os pessimistas seis anos, recentemente vaticinados por José Dirceu em uma entrevista ao PIG. A prisão de Lula, a fome e o desemprego são razões para ações nada razoáveis daqueles que são vítimas dos seguidos abusos.

Foi um golpe articulado pela elite do capital financeiro e interesses internacionais do 1% mais rico que se impõem agora, sem freios, sobre os interesses vitais dos 99% da população. A economia “compra” a política e ameaça desmontar, por meio de suas próprias instituições, o Estado Democrático de Direito.

O Estado Mínimo é um modelo que só dará certo se houver o holocausto dos milhões de excluídos. Há um erro no cálculo dos inimigos da democracia: eles não levam em consideração o caráter instintivo de reação dos seres humanos. É aqui que há também o preenchimento do vácuo de liderança à esquerda, pois um dia o pacificado cansa de ser pacífico.

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.