ONGalização da política: última tendência da moda

Por Niobe Cunha, para o Duplo Expresso

O mundo do consumo está sempre nos oferecendo novos produtos que substituam os velhos, e claro, a divulgação sempre ressalta as vantagens. “É bom e barato”, “Facilita sua vida”, “Agora você também pode ter…..”. Antigamente os slogans de cigarro apresentavam um mundo mágico de bem aventuranças que certamente estariam ao alcance de quem consumisse aquela dose de nicotina: o homem que sabe o que quer, ao sucesso, o dinheiro não compra felicidade-manda buscar, blablabla. E o cigarro matando pessoas. Não tem aqui uma campanha antitabagista mas um paralelo sobre como somos induzidos a consumir sem questionar as ditas melhorias oferecidas pela tecnologia e indústria.

É indiscutível que o progresso traz, dentro do seu significado, uma série benefícios, de aperfeiçoamentos, de movimento necessário à saudável oxigenação da vida. Mas o progresso não significa o descarte das bases originais. A palavra releitura as vezes perde um pouco o sentido porque reler pode trazer nova luz ou significar que o sentido primeiro não foi absorvido. Depois desse “nariz de cera”, embromação pra contextualizar meu texto de estreia, me explico: foi criada uma tese moderna, endossada por descontentes, de que política é uma coisa ruim, das profundas, praticada por seres das trevas que inevitavelmente nos espreitam para praticarem o mal. Pra completar, jogam nas vitrines de consumo fácil, em baciadas, slogans de rápida digestão e saboroso paladar: “político é tudo igual”, “por isso não me interesso por política”. Essa é a liquidação pegue agora e pague depois, em que muitos embarcaram e hoje não sabem o que fazer com esse pacote logo ali adiante.

A criminalização da política é coisa antiga, manipulação tosca que geralmente encontra pessoas que não percorreram uma história de engajamento na sua própria realidade e agora, diante desse mundo de ofertas diárias de escândalos em flashes, horário nobre e bancas de jornais, aborvem a tal tendência como uma redenção ao pecado de algum dia terem acreditado em algum projeto. Todo mundo já deve ter ouvido um dia que alguém “se sentiu traído por tal político, ou tal partido”. A palavra traição é usada de forma passional, capaz de divórcios litigiosos: “nunca mais acredito….”. Sei que me estendi, mas já que vim até aqui…..É isso que chamo de “ongalização da política”, ou seja essa moda mal ajambrada e infantil de se abster da política ou dos partidos políticos em nome de uma suposta higienização moral. Como se o fato de me decepcionar me deixasse imune e sem responsabilidade diante dos acontecimentos. Aliás moral e ética (vide Espinosa) tem significados diferentes e propositalmente vem sendo misturados nesses cabides da promoção pegue um e leve dois.

Política sem partido (aiaiai) era o que pregava o nazismo, criminalização de políticos (uiuiui) é o que prega o fascismo ditatorial. Enquanto nos dispusermos, estaremos caminhando rumo ao entendimento. Pode-se identificar com essa ou aquela tendência, discutir, discordar, enxergar os erros nos seus candidatos e critica-los mas não se pode abrir mão da política. Movimentos que atraem cada vez mais jovens a desacreditar na política visam apenas impor um “ídolo” vendido como apolítico, ou novo político, fórmulas que cobram a faturo com juros de cartão de crédito. Jogam com a política como sabão em pó: eu lavo mais branco, tiro manchas e rendo muito mais. No fundo é tudo uma questão de marketing porque sabemos que sujeira quem limpa é nosso braço esfregando bravamente no tanque. Paulo Freire, um grande mestre, dizia que nunca conseguiríamos interromper o ciclo da opressão enquanto o objeto de luta do oprimido fosse tomar o lugar do opressor. Ou seja, ou nos identificamos com nosso papel em qualquer que seja a luta e nos posicionamos como agentes, em processo de aprendizado ou seremos eternos joguetes na prateleira da liquidação geral: é pacabá freguesia! Pamonhas, pamonhas, pamonhas.

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.