Memorial da América Latina e Lula

O Duplo Expresso tem uma equipe dedicada de voluntários que procura fazer da informação uma das expressões do ativismo político.
Este é o texto de um dos nossos colaboradores, Carlo Krebs. Antes apenas nos bastidores do programa, agora nos dá um pouco de conhecimento sobre “arquitetura, design e empatia”.

 

Por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

Design deriva do latim designare, que tem dois significados:

– No sentido de algo artesanal ou manual, é marcar, traçar, dar nota (anotar);

– No sentido intelectual ou mental, é planejar, imaginar, conceber.

Se tenho sede, busco uma fonte de água e dou forma as minhas mãos de algo que possa sustentar o líquido. Eu designo que minhas mãos juntas possam ser o que na materialidade posterior definiu-se por taça, cálice, copo. Para saciar a sede (ou o prazer) designaram-se, desenharam-se objetos capazes de conter algo líquido e trazê-lo à boca.

Em arquitetura, o design atende as necessidades de abrigar – seja para moradia, para trabalho, para diversão, etc. Lembro que design é a resposta da necessidade, embora tentem nos convencer que ele seja o formato como isto é feito. O design está desde o jeito como decidimos abrir e fechar gavetas, na disposição das peças da casa, no jeito de vencer uma determinada altura, como andamos entre prédios, como percorrem-se as ruas, como e para quê temos que seguir do ponto A ao B. Arquitetura é apenas um tipo de materialidade do desejo, do designar, do design.

Monumento vem do verbo latino monere, que significa fazer recordar, instruir. Monumento então é uma representação da memória.

O Memorial da América Latina é um Centro Cultural inaugurado em março de 1989 na Barra Funda, cidade de São Paulo. Apesar do carácter coletivo e multidisciplinar da obra, destacam-se Oscar Niemeyer (autor do projeto) e Darcy Ribeiro (responsável pelo projeto cultural). Inúmeras críticas foram apresentadas ao complexo de prédios, ou ao local, ou a falta de conexão entre eles, ou ao custo da obra. Mas isso não nos interessa aqui, neste momento.
Enquanto arquitetura, a primeira impressão que eu tive sobre o espaço criado (no exato momento que começava meu curso na UFRGS) era a aridez do concreto. Quem iria circular naquele mar de concreto? Como querer andar sob o sol ali? Cadê a sombra, o descanso, o afago?

1.


Mão de Oscar Niemeyer (frente) e o Salão do Atos Tiradentes (ao fundo) no Memorial da América Latina – São Paulo, SP (2006) | Foto por Gabrielt4e, sob licença Creative Commons

Criada por Oscar Niemeyer e inaugurada junto com o Memorial da América Latina, a obra “Mão” representa a mão do povo trabalhador de todo o continente latino americano. Segundo ele, o monumento é a integração dele – arquiteto – com o sentido político do Memorial. Algo mais importante que a arquitetura do lugar.
Nas palavras do arquiteto, em 1989:

“Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz.”

Independente e feliz como o clic capturado pelo fotógrafo Ricardo Stuckert quando Lula foi recepcionado por manifestantes que estavam em Curitiba para apoiá-lo no dia que prestou depoimento ao togado Sérgio Moro.


Luiz Inacio Lula da Silva durante Ato jornada pela democracia em Curitiba (2017) | Foto por Ricardo Stuckert – Fotos Públicas, sob licença Creative Commons

Lula passara mais de cinco horas dizendo o óbvio, o lógico, o ululante: “Eu não solicitei, não recebi, não paguei nenhum triplex. Não tenho!” Depois, discursou no Ato Jornada pela Democracia.

Ali eu entendi o que significaria o espaço aberto, o amplo e o vazio: ele é apenas um copo à espera d’água.

2.

Em São Paulo, aquela mão no Memorial é preciso ser vista de frente, espalmada, por inteiro, um monumento colocado no espaço aberto e árido para identificar a mensagem.
A mão erguida de Lula na foto de Ricardo Stuckert a gente vê por trás, incompleta parcialmente, apresentada contra um fundo repleto de pessoas – e basta isso para identificar o mensageiro.

3.

O Monumento “Mão” surgiu como coroamento e elemento de conexão entre os prédios, e a intenção do por que eles estarem ali. Anatomicamente falando, é uma mão esquerda, apresentada não com o sentido de ser única, mas de unidade. Ela que verte o sangue derramado na conquista deste continente, nas lutas pelo reconhecimento cultural e pela soberania política, social e econômica de todos.

Esta mão espalmada convida os povos amigos a uma união necessária para que TODOS desenvolvam-se na direção do futuro.
Aqui não cabe nenhuma análise sobre os prédios – belos e falhos –, mas sim sobre o não-edificado, o que está aberto. Niemeyer talvez não tenha concebido a Praça do Sol como recriação da Plaza de Armas da tradição hispânica, mas sim proposto um lugar mais interativo: aquele onde o popular ocupa, transforma e usa.

Lula discursava em Curitiba como resposta ao massacre imposto a ele por quem detém a palavra no país, quem domina a narrativa, quem escreve a história com a voz de chumbo.

“Se um dia eu tiver cometido um erro, não quero ser julgado apenas pela Justiça. Eu quero antes ser julgado pelo povo brasileiro que me deu condições.”…”Eu não quero ser julgado por interpretações; eu quero ser julgado por provas!”

Lula agradecia a solidariedade dos brasileiros que se deslocaram dos mais diversos rincões para estar ali, naquele momento, acreditando que a verdade é uma só. E que seria possível acreditar nela.

A foto registrada tem um poder sintético fantástico. Ela representa uma crença na esperança daquele braço erguido, ao invés da pós-verdade do discurso repetido à exaustão sobre o combate à corrupção.

4.
Não há mais Niemeyer! Ele morreu com mais de 100 anos, ainda trabalhando e pensando em um país melhor. Há os que gostem do que ele fez, há os que não. Mas os que sabem de sua existência, não negam sua imensa capacidade criativa e sua ideia de pensar um país integrado, e com um “locus” no mundo.

Ainda há Lula! Ele está bem mais vivo do que se pode supor. Mas não é mais apenas a figura política que assombra os golpistas no país. Ele não é nem líder sindical, nem candidato derrotado, nem presidente, nem ex, nem nada. Nem o falso, nem o próprio. Ele não é mais um discurso inflamado, um programa político ou uma plataforma ideológica.
Lula não é mais “alguém”. Ele virou síntese. A ideia de que ainda temos fome e tesão para encarar a realidade e transformar o país. Re-fundar o Brasil.

Lula não é mais o mensageiro. Tornou-se o fato, a própria mensagem. Lula agora é o design enquanto necessidade.

Sim, este texto tem lado!
O lado da verdade.
A verdade chega primeiro.
E alcança mais longe.

 

– – – – –

*Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil tem tudo para dar certo.

 

 

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.