Alô! Alô! Terezinha: Eu vim para confundir e não para explicar

“Vocês querem bacalhau?”

Por Niobe Cunha para o Duplo Expresso

Sabe aquela fase dos porquês das crianças? Elas querem saber tudo, tentar entender o que está acontecendo, como funcionam as coisas. Pois é assim que temos sido tratados. Como crianças curiosas, olhar ansioso pra vida, a correr atrás de respostas dos adultos, que seriam detentores das tais respostas, nossos oráculos salvadores.

Na minha primeira aula de jornalismo, ouvi, sem muito entusiasmo, apenas cumprindo roteiro programático do curso, que jornalismo trabalha com informações. Confesso que me senti frustrada. Achei que ia ouvir uma definição de Nietzsche ou Schopenhauer, pra arrebatar e poder sair repetindo orgulhosa pros amigos, e o cara me vem com essa: jornalismo trabalha com informação, informação, informação. A diaba da frase grudou em mim pela má impressão de consenso, falta de criatividade, poça rasa que a gente pisa e nem chega a molhar o pé. Pobreza de conteúdo.

Fui salva da mediocridade que me senti mergulhada nesse primeiro encontro, ao lembrar do grande comunicador Chacrinha, Abelardo Barbosa, radialista da década de 1950, que, junto com o movimento tropicalista, invadiu as telas de TV com uma estética anárquica, revolucionária, despudorada, brasileiríssima. Para desgosto da nossa elite. “Alôôô, tenção!”, “Vocês querem bacalhau?”, “Tereziiiiinhaaaa! Uúúú!”. Uma zorra completa invadia a sala das famílias, que a essa altura já bebia hipnotizada o caldo amargo da ditadura militar, como se fosse garapa. Trazendo ídolos populares – como Odair José, autor de Pare de Tomar a Pílula –, lançando e divulgando furacões – como Raul Seixas e Caetano –, o Velho Guerreiro, como foi carinhosamente batizado por Gilberto Gil, aos poucos e com a sabedoria dos loucos, adentrava todas as camadas sociais, levando “de tudo” ao programa: socialites, hippies, contestadores, ídolos das empregadas domésticas, empresários, playboys. Além de muitas luzes piscando, o programa contava ainda com chacretes rebolativas, que, lançando olhares diretos à câmera, convidavam os meninos ao sonho erótico.

Um pandemônio institucionalizado, desarrumando a sala da tradicional família brasileira no fim dos 60 e começo dos 70. Pois a melhor definição de jornalismo, comunicação, veio desse ser bizarro que fingia enfiar o dedo no nariz e depois esfregava na câmera, gritando bordões desconexos: “Eu não vim pra explicar. Eu vim pra confundir”. Pow! É isso! Comunicação não é apenas aquilo que se fala, se escreve, se lê. Comunicação, vista dentro do contexto social e político, tem que ser entendida também por aquilo que se cala, que não se diz, que se omite. A brincadeira é enxergar o que não foi dito nem mostrado.

Estamos vivendo um turbilhão de acontecimentos que, se analisados por qualquer pessoa isenta, espantaria o observador, tamanha a quantidade de perguntas que ficam sem respostas, ao menos oficiais: o que foi a teoria de domínio do fato pra condenar Dirceu, quando o próprio autor contestou sua aplicação no caso? O que foi feito com a “descoberta” do filho de marqueteiro tucano, que lançou campanhas em redes sociais sobre um dos filhos do Lula ser supostamente o dono da Faculdade de Agronomia Luiz de Queiroz? Juiz grampeia ilegalmente e vaza conversa telefônica de presidenta, leva pito do superior e tá tudo certo? Marielle, tiros em caravanas, em acampamentos, o ex-catador de latas Rafael Braga, preso e condenado a 11 anos por portar dois frascos plásticos fechados de produtos de limpeza nas manifestações de 2013, notas frias de reforma de tríplex usadas como documentos em processo de condenação de Lula… A lista é interminável. Reina um profundo e eloquente silêncio que muito nos diz sobre o que estamos vivendo.

Os telejornais dedicam seus caros minutos em horário nobre a sessões ininteligíveis do Supremo, bem na hora do jantar, sob patrocínio de qualquer porcaria, e todo mundo continua na mesma. Sem entender patavinas e mastigando pão velho como se fosse a melhor das iguarias. Tudo muito “civilizado”: vossa excelência é uma mistura blablablá. As redes se inundam de protestos e hashtags indignadas, que alimentam o tal senhor algoritmo que, ao fim e ao cabo, só serve pra vender outro sabonete e fuçar a vida das pessoas, pra oferecer um golpe sob medida.

“Quem não se comunica se trumbica”, ensinaria o Velho Guerreiro. Tenho um amigo músico que vive dizendo que pausa também é música. É preciso entender o barulho desses silêncios, dessa falta de respostas objetivas e claras, que seria de papel da imprensa. Isso comunica os interesses no diversionismo, na divulgação de fofocas em que a primeira dama golpista se atira de roupa e tudo em um lago, pra salvar o cachorrinho, e pede a demissão da funcionária que não a acompanhou na aventura aquática extra-palaciana.

De novo, o vidente Chacrinha nos ensina: “Roda, roda, roda e avisa! Um minuto pros comerciaaaais…” O país nas cordas, Lula preso, o processo eleitoral sob suspeita, o mundo apresentando bufões ególatras brincando de apertar botões explosivos, mas amanhã saberemos quem matou a mocinha da novela. Isso diz muito de nós. Resta saber o que NÓS faremos com tantas perguntas entaladas e esquecidas nos arquivos, misturadas propositalmente com luzes piscantes, ídolos da MPB, gritaria e bacalhau voando em cima da plateia (e olha que pelo preço do bacalhau…).

Queremos Lula Livre!

Essa é a resposta que tem que invadir as ruas, cédulas de real, HCs cidadãos, trompetes que anunciam a vontade do povo. Eleição sem Lula é golpe. Não queremos nenhum outro candidato. Lula é nosso alfabeto todo. Estão nitidamente desesperados, tendo que lidar com prazos e agendas que só desmascaram as ruínas em que transformaram nosso país. Se a não comunicação é comunicação, façamos da nossa vontade o inverso da vontade deles, que investem pesado na dispersão da nossa força. Em respeito a todas a perguntas que até hoje ficaram sem respostas, oficiais, pelo menos. Porque a resposta extraoficial sabemos:

“E o Lula, vai pro trono ou não vai?”

Vaaaaaaaiiiiii!!!!”

 
 

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