Godzilla e o Sonho Danchi da Moradia

Por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

“Planeta: Terra. Cidade: Tokyo. Como em todas as metrópoles deste planeta, Tokyo se acha hoje em desvantagem em sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas venham a se tornar letais para toda e qualquer forma de vida. Quem poderá intervir? Spectreman!”

Narração em off na abertura de todos os episódios do seriado de tv japonês Spectreman, de Daiji Kazumine e Tomio Sagisu, P-Production para a Fuji Television (1971 a 1972).

* * *

Tem várias coisas pelas quais passamos na infância que nos indicam uma direção a seguir na vida profissional. Eu nunca fui ao Japão, e só conheço Tokyo pelas inúmeras reportagens especiais da televisão brasileira. Sempre que precisam afirmar ou contradizer algo na sociedade brasileira, a primeira referência que apresentam vem lá da Terra do Sol Nascente. Mas uma das coisas que mais me impressionava quando criança era essa incrível capacidade de reconstrução que os japoneses mostravam naqueles seriados de ficção científica…

Essas séries do gênero “tokusatsu” apresentavam monstros terríveis a cada episódio de uma quase eterna mesma história repetida inúmeras vezes. Foi assim com as séries “Ultra” (Ultra Q, Ultraman, Ultraman, Ultraman Jack, Ultraman Ace) ou com o Spectreman – que a melhor coisa que tinha era a música-tema de abertura: “The First Day of Forever” (The Mystic Moods Orchestra), criada para a versão de entrada no mercado estadunidense, e que foi a mesma apresentada no Brasil.

Imagem 1: “Ultraman” © TBS (1966-1967) | Imagem 2: “Ultra Seven” © TBS (1967-1968) | Imagem 3: “The Return of Ultraman” © TBS (1971-1972) | Imagem 4: “Spectreman” © P-Productions (1971-1972) | Imagem 5: “Ultraman Ace” © TBS (1972-1973).

Mas a principal referência em termos de criação e destruição ainda seria o GodzillaDE1, talvez o primeiro grande personagem mítico japonês a ganhar fama no Ocidente. O terrível monstro pré-histórico que emergia da Baía de Tokyo pela primeira vez em 1954 foi criado por Inoshiro Honda para a Toho Studios. Talvez em uma tentativa de criar algo similar ao King Kong (1933), e o Gojira – mistura de gorila e kujira (baleia, em japonês) tenha sido a escolha.

No filme, Gojira era retratado como uma gigantesca e assustadora criatura mutante que fora exposta à radiação atômica. Aí estaria a explicação para seu tamanho descomunal e seus estranhos poderes. Sem dúvida, foi uma maneira bem ardilosa de explorar o medo de muitos japoneses a um novo ataque nuclear, como os ocorridos a menos de uma década em Hiroshima e Nagasaki.

Imagem esq: “Godzilla – King of the Monsters” (Godzilla – Rei dos Monstros), 2º filme da franquia e a primeira versão hollywwodiana, de Terry Morse e Ishiro Honda (1956) | Imagem dir: “Shin Godzilla” (Godzilla Ressurgido), 31º filme da franquia, de Hideaki Anno e Shinji Higuchi (2106). Clique nos títulos para assistir ao trailer oficial de cada um dos filmes.

Godzilla, inicialmente um vilão quase invencível, voltou a tela dezenas de vezes, com formas, tamanhos e “personalidades” muito distintas. Parece incrível que ele possa ser quase um camaleão-gigante…

Esse é o espírito daquele país destruído e arrasado do final dos anos 40 que emergia na segunda metade do século XX com uma população urbana crescendo rapidamente. O Japão pós II Grande Guerra apresentava uma velocidade de crescimento econômico invejável. Fenômeno que se repetiria com a industrialização dos Tigres Asiáticos a partir dos anos 60 até sua consolidação nos anos 90 – Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan.

O déficit habitacional japonês em 1948 apontava 4,2 milhões de unidades. O Governo japonês estimulou a criação de organizações, instituições e leis para uma nova política habitacional, onde destaca-se o estabelecimento da “Companhia Hipotecária”, em 1950, e da Japan Housing Corporation (Nihon Jūtaku Kōdan), em 1955. Depois, passou a ser a Urban Development Corp. – UDC até o ano de 2004, quando foi semiprivatizada e passou a chamar-se Urban Regeneration Organization (Toshi Saisei Kikan’), mas com uma denominação em inglês diferente: Urban Renaissance Agency. O foco dessas empresas públicas era aumentar a quantidade de construções de moradias, então um crédito barato era oferecido às empresas de construção residencial regionais, às empresas de construção locais e também empréstimos hipotecários às empresas de renovação urbana.

Com isso, o Índice de Densidade Familiar por unidade habitacional caiu de 16,1 em 1948 para 1,6 em 1958 através do programa. Segundo os dados do “Portal Site of Official Statistics of Japan” (Portal dos Dados Estatísticos Oficiais do Japão), a planilha com a relação entre Moradias por Tipo de Ocupante apontava que em 1948 havia 13.907.024 un (para uma população de 80.002.000 hab), enquanto 1958 atingia 17.934.000 un (para uma população de 91.767.000 hab).

Dessa forma surgiram os complexos habitacionais conhecidos por Danchi (pronuncia-se “Dan-ti”). Significa a reunião das palavras grupo (dan) e local (chi). Termo em japonês que denomina áreas ou regiões que são projetadas em uma cidade com objetivo específico – residencial, industrial ou comercial.

O sonho da moradia era algo quase inatingível para a maioria dos japoneses oriundos das áreas rurais, e esses complexos habitacionais trouxeram-lhes algumas comodidades da vida moderna: vasos sanitários, pias de aço inoxidável e quartos separados por… paredes, ao invés daqueles painéis de madeira e papel de arroz – shoji (pronuncia-se “xô-zi”). As construções foram espalhadas por todo o país, mas geralmente em áreas periféricas e semiurbanas, junto das plantações de arroz próximas das grandes metrópoles.

A demanda por uma destas moradias era imensa. Segundo o jornal Mainichi Shimbun, em um sorteio em 1957, as chances de alguém entrar no novo Hikarigaoka Danchi (Kashiwa, na cidade de Chiba) era de 25.000 para 1. Isso persiste até hoje, e ser sorteado equivaleria a receber a bagatela de U$1 milhão.

A grande quantidade de complexos no país fez com que hoje eles sejam vistos como característicos da paisagem urbana japonesa. Segundo dados da UDC no início dos anos 2000, dois milhões de pessoas viviam nas 740.000 unidades de aluguel estatal, 260.000 delas apenas na cidade de Tokyo.

O impacto sociológico destes complexos no pós-guerra foi enorme, pois serviu como a esponja na absorção da população rural do país que veio para as cidades quando da reconstrução do país e de seu rápido processo industrial. A propaganda em 1958 era de que os Danchi eram a resposta urbana à nova geração de pessoas da classe média – os “danchi-zoku” (as “tribos de habitação pública’).

Os complexos habitacionais Danchi, com o padrão 2DLK – dois dormitórios, sala e cozinha, provocaram uma ruptura com as habitações que abrigavam até três gerações sob o mesmo teto. E as famílias menores acabaram por ampliar a introversão dos moradores, com pouco contato entre os vizinhos. Nos anos 70, há um incremento no número de suicídios entre moradores, em especial no Takashimadaira Danchi, ni departamento de Itabashi, em Tokyo.

Imagem Esq: “Edifício residencial de arranha-céus no local de aterro sanitário de Kanazawa (Propriedade de Namiki) – Kanazawa-ku, em Yokohama”, 10 Abril de 1978 | Imagem dir: “Complexo da Montanha Sousheke – Asahi-ku, em Yokohama”, 13 de setembro de 1970. Ambas imagens por CC General Affairs Bureau Shigoto Reform Office Administration / Information Management Division (2012). Clique na imagem para acessar outras deste acervo.

A imagem que se tem destes complexos hoje – quase de cortiços verticais – é completamente diferente da proposta de “representação do progresso” que eles significavam nos anos 60. Observem que eles vieram, com a robustez própria do concreto, substituir e ampliar os prédios de madeira destruídos durante a II Grande Guerra.

Na política habitacional do Japão, a habitação é voltada a diferentes grupos-alvo, mas o foco dos programas tem sido o fornecimento de moradia para grupos vulneráveis (idosos, famílias femininas e pessoas com deficiência e pacientes), bem como grupos de baixa renda. No sistema de triagem, a população de baixa renda está separada de outras comunidades e, além de implantá-las em moradias públicas e de interesse social, a demanda por moradias independentes está respondendo a um crescimento estável na renda familiar.

Três fatores chaves podem ser apontados como responsáveis pelo desenvolvimento urbano no Japão:

  1. Formulação de um “Master Plan” (Plano Mestre) que incluía o transporte urbano;
  2. Promulgação de leis e regulamentos relacionados ao desenvolvimento urbano;
  3. Implementação conjunta do desenvolvimento urbano e desenvolvimento transporte público.

Para o desenvolvimento urbano em si, tem-se leis e regulamentos aplicados por empresas públicas, as quais foram:

  • Lei de Compra Obrigatória de Terras (1951)
  • Lei de Reajustamento da Terra (1954)
  • Ato de Urbanismo (Planejamento Urbano) (1968)
  • Lei de Renovação Urbana (1969)

Quanto a promulgação de companhias públicas, tem-se:

  • Japan Housing Corporation (1955)
  • Corporação Pública Metropolitana de Vias Expressas (Auto-Estradas) (1959)
  • Corporação de Desenvolvimento Territorial (1975)

Os problemas urbanos, ambientais e as restrições energéticas enfrentadas pelo Japão diante de outros países emergentes do Sudeste Asiático foram enfrentados através do emprego de inovação tecnológica (investimento pesado em tecnologia da informação) combinada com as experiências tecnológicas. Isto encaminhou o país ao desenvolvimento sustentável e crescimento econômico até meados dos anos 90.

As imagens abaixo são ilustrativas de um livro feito através da plataforma colaborativa Kickstarter de fotos lançado este mês por Cody Ellingham. Ele retratou 40 complexos Danchi no Japão para mostrar “o sonho e a decadência da moderna arquitetura de habitação pública japonesa”. Quem quiser saber mais sobre este livro, poderá ler no CityLab.

Imagem esq: “Takashima Daira Danchi (exterior)” | Imagem dir: “Takashima Daira Danchi (interior)”. Ambas imagens por © Cody Ellingham (2018)

 

Imagem esq: “Toshima Gochome Danchi do Outro Lado do Rio Sumida” | Imagem dir: “Kawaramachi Danchi”. Ambas imagens por © Cody Ellingham (2018)

A proposta brasileira surgida durante o segundo governo petista em 2009 – o programa Minha Casa, Minha Vida – talvez tenha sido muito mais um serviço para especulação imobiliária do que algo próximo a uma política habitacional. Diferente do modelo japonês, onde o Estado controlava a oferta de crédito e o gerenciamento do processo construtivo, o Brasil preocupou-se em disponibilizar um agente financiador que visava apenas o atendimento da questão quantitativa: importavam o número de unidades disponibilizadas ao mercado, e não o como isso seria empregado como indutor do desenvolvimento urbano.

Observem que isso talvez represente um impacto ainda mais negativo nos próximos anos. O país perdeu a oportunidade de propor uma política urbana de requalificação espacial de suas maiores cidades – que cresceram muito mais rapidamente que a capacidade de ordenar este crescimento – e, quando o Estado teve recursos próprios disponíveis para atuar, delegou a tarefa às grandes construtoras e incorporadoras. A visão exploratória do mercado acabou por impulsionar o processo especulativo em cima da demanda reprimida da nova parcela da população levada a consumir, e a relegá-las a áreas muito mais próximas do conceito de “gueto” do que propriamente de “cidade”.

Periferização do Minha Casa, Minha Vida – em Biaguaçu – Florianópolis-SC por © Felipe Cemin Finger (2016)

Será que o Cristo Redentor ainda assistirá emergir o Godzilla tupiniquim das profundezas do Pré-sal capaz de desmontar isso? Ou será que dependeremos novamente do monstro espetacular recluso nas entranhas de Curitiba? E teremos força e persistência para refazer algo diferente, desta vez dando voz e ação aos interesses da coletivos e aos movimentos sociais? Será?

* * *

DE1 – Aqui há o vídeo para a música “Godzilla”, do álbum Spectres Blue Öyster Cult (1977).

 

*Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.

 

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