Arriscar a vida pela imunidade

Tradução do artigo original de Sarah Zhang*, pela equipe do D.E.

Quando a febre amarela varreu Nova Orleans no século XIX, a imunidade se tornou tão preciosa que as pessoas estavam dispostas a gestos extremos para se defender.

Assim, quando um jovem de nome Isaac H. Charles chegou à Nova Orleans devastada pela febre amarela em 1847, ele não tentou evitar a doença mortal, como seria de esperar, já que a doença matava na época a metade dos infectados. Ao contrário, ele acolheu com satisfação a febre amarela e, o mais importante, a imunidade que teria por toda a vida, caso sobrevivesse a ela.  Por sorte, foi o que aconteceu. “É com grande prazer”, escreveu ao primo, “que posso dizer com toda a certeza que eu e meu irmão Dick estamos aclimatados.”

Para pessoas como Charles, a “aclimatação”, na linguagem da época, não era exatamente uma escolha. Era o assim chamado “batismo de cidadania”, a chave para entrar na sociedade de Nova Orleans. Sem imunidade à febre amarela, os recém-chegados tinham dificuldade em encontrar um lugar para viver, um trabalho, um empréstimo bancário e uma mulher. Os empregadores eram relutantes em treinar um trabalhador que podia sucumbir à epidemia. Os pais hesitavam em deixar suas filhas casarem com maridos que talvez morressem logo. A doença é causada por um vírus difundido pela picada de um mosquito, e causa calafrios, dores, vômito e por vezes icterícia, daí o nome de febre amarela. As pessoas do século XIX em Nova Orleans não compreendiam perfeitamente a biologia da doença, é claro, mas haviam notado que seus companheiros do lugar pareciam se tornar imunes após o primeiro contágio. Assim até o presidente do Comitê de Saúde de Nova Orleans havia proclamado num discurso: “ A ACLIMATAÇÃO COMPENSA O RISCO!”

Quando a febre amarela devastou Nova Orleans, dois séculos antes da atual pandemia, tornou a imunidade uma espécie de privilégio –  tão valioso que valia a pena correr o risco de morrer para alcançá-la.

A epidemia exacerbou também as formas de desigualdade que existiam. Os novos imigrantes da cidade enfrentavam temerariamente os riscos de ‘aclimatação’ à febre amarela, desejosos que estavam de encontrar um emprego (os ricos, nesse meio tempo haviam esvaziado a cidade durante o verão da febre amarela).  Os escravos que se aclimatavam passaram a valer 25% a mais: o sofrimento deles se transformava em benefício econômico para seus proprietários. A historiadora Kathryn Olivarius da Universidade de Stanford -que estuda a febre amarela no sul do país antes da guerra-, afirma “As doenças revelam quem pertence à sociedade e quem não”.

Nestes dias, Olivarius me disse “estou me sentido como se escrevesse sobre a febre amarela de dia e me preocupasse com o coronavírus à noite”. As duas doenças não são perfeitamente  análogas. Mas num mundo transtornado, em que a pandemia que já matou mais de 137 000 pessoas [N.T.: 330.000 dado atualizado em 24/05/2020], a imunidade pode voltar a ser uma linha divisória. O Ministério da Saúde do Reino Unido propõe “certificados de imunidade” – pulseiras talvez – para identificar pessoas recuperadas da covid-19 que podem voltar à vida normal. A Alemanha propõe a emissão de “passaportes de imunidade” para que os imunizados voltem ao trabalho. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, afirmou na semana passada, que os Estados Unidos também estão considerando ideias semelhantes.

Ainda não está claro como esses esquemas funcionariam – até porque não está claro nem sequer quanto tempo dura a imunidade ao coronavírus. E, como escreve meu colega Ed Young, os testes imunológicos não oferecem acurácia perfeita, o que poderia dar a alguns uma falsa sensação de segurança. O vírus, e a doença que causa, são ambos tão novos para a humanidade, que os cientistas ainda estão tentando encontrar respostas às perguntas mais básicas sobre eles.

Mas, problemas técnicos da biologia à parte, um sistema que possa rastrear a imunidade requer uma nova logística maciça de rastreamento. “É tão complicado pensar nessas coisas quanto geri-las”,  afirma Jeffrey Kahan, bioeticista da Universidade Johns Hopkins. Por exemplo, diz ele, a liberdade de circulação ou de emprego condicionada à imunidade pode muito bem levar as pessoas a falsificar certificados de imunidade.

Se o governo chegar a permitir que apenas os imunizados retomem determinados empregos, ou caso os empregadores prefiram contratar pessoas imunizadas, isso poderia se transformar num incentivo perverso para que as pessoas se infectem deliberadamente com a covid-19, particularmente  os jovens e outras pessoas saudáveis que podem concluir que o trabalho compensa o risco. Afinal de contas, o desemprego atingiu números de recorde durante a pandemia, e muitas das pessoas que perderam o emprego são as que menos podem arcar com a falta de trabalho. Talvez vejam a imunidade como um modo de se livrar do desemprego, apesar de todos os perigos.

Diz a historiadora: “Pessoas que já estão em posição econômica e social precárias acabam precisando fazer escolhas que nunca deveriam precisar fazer,”. E isso, infelizmente, é familiar para ela, como historiadora da febre amarela. Charles foi um dos poucos afortunados que se recuperaram da doença em Nova Orleans; a febre amarela causou a morte de 75 a 90% dos imigrantes como ele.

A pandemia recente, diz a historiadora, faz com ela sinta mais visceralmente o que as pessoas do século XIX devem ter sentido quando uma doença invisível atingiu seus entes queridos. A incerteza, a proximidade da morte, a obsessão em certificar a própria saúde em cartas intermináveis  – esse se tornou também o nosso estilo de vida no século XXI.

*Sarah Zhang é neurobióloga e escritora. Seu artigo foi originalmente publicado na The Atlantic, revista estadunidense de cultura, política e tecnologia. A ilustração do artigo (criada por Bettmann/Getty) mostra pessoas fugindo a pé da epidemia de febre amarela.

Ouça o artigo:

 

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