Pepe Escobar: “VazaJato” se transforma no Russiagate 2.0

“Como tenho discutido com alguns de meus principais interlocutores brasileiros, como o antropólogo craque Piero Leirner, que sabe em detalhes como os militares pensam, e o advogado internacionalista baseado na Suíça e consultor da ONU, Romulus Maya, o Deep State americano assume a posição de articulador da ascensão direta das Forças Armadas brasileiras ao poder, assim como os seus fiadores. Assim sendo, caso essas não sigam o roteiro ao pé da letra – ou seja, relações comerciais limitadas com a China; e isolamento da Rússia – o Deep State pode trazer o pêndulo de volta a qualquer momento”.

Pepe Escobar: “VazaJato” se transforma no Russiagate 2.0

A mídia e militares do Brasil ridicularizam bombas do Intercept como uma “conspiração russa”

Por Pepe Escobar, de Paris

(original em inglês – “PEPE ESCOBAR: Brazilgate is Turning into Russiagate 2.0” – publicado no Consortium News; tradução para o português de Rafael Bruza Wacked, para o site Independente)

Foi um vazamento, não um hack. Sim: a VazaJato, lançada por uma série de bombas revolucionárias publicadas pela The Intercept, pode estar se transformando em uma Russiagate tropical.

O “Russiagate” trata sobre a interferência de Moscou nas eleições estadunidenses de 2016, que supostamente levaram Donald Trump à Presidência dos EUA.

O “Garganta Profunda” do Intercept – uma fonte anônima – finalmente revelou em detalhes o que qualquer um com cérebro no Brasil já sabia: o mecanismo judicial / legal da investigação unilateral da Operação Lava Jato era de fato uma enorme farsa e crime raquete empenhada em realizar quatro objetivos.

  1. Criar condições para o Impeachment de Dilma Rousseff e a subsequente ascensão de seu vice-presidente, fantoche manipulado por elites, Michel Temer
  2. Justificar a prisão do ex-presidente Lula em 2018 – justamente quando ele estava pronto para vencer a mais recente eleição presidencial.
  3. Facilitar a ascensão da extrema-direita brasileira, com Steve Bannon ativando jair Bolsonaro (a quem ele chama de “Capitão”); e
  4. Instalar o ex-juiz federal Sérgio Moro como ministro da Justiça, com esteroides capazes de promulgar uma espécie de Lei de Segurança Nacional – que pesa na espionagem e pega leve nas liberdades civis.

Moro, lado a lado com o procurador da República, Deltan Dallagnol, que liderava a força-tarefa de 13 pessoas do Ministério Público Federal, são as estrelas vigilantes da maracutaia no Direito brasileiro. Nos últimos quatro anos, a híperconcentrada Grande Mídia brasileira, debatendo-se em um pântano de notícias falsas, glorificou esses dois como heróis nacionais do Capitão Marvel. Húbris, “tudo que passa da medida; descomedimento”, finalmente alcançou o pântano.

Os Bons Companheiros brasileiros

O Intercept prometeu liberar todos os arquivos que possui do assunto; bate-papos, áudio, vídeos e fotos, um tesouro supostamente maior que o do caso Snowden. O que foi publicado até agora revela Moro/Dallagnol, como um duo estratégico em sincronia, com Moro como capo di tutti i capi, juiz, júri e executor em um só – repleto de fabricações de provas em série. Isto é, em si só, suficiente para anular todos os casos da Operação lava Jato em que ele esteve envolvido – inclusive a acusação de Lula e a sucessiva convicção baseada em “evidências”, que ele nunca defenderia em um tribunal sério.

Em conjunto com uma riqueza de detalhes sangrentos, o princípio da série Twin Peaks – as corujas não são o que parecem – é totalmente aplicável à VazaJato.

Isso porque a gênese da Operação Lava Jato não é outra senão o Governo dos Estados Unidos. E não apenas o Departamento de Justiça – como Lula vem insistindo há anos, em todas suas entrevistas. Este departamento é o menor dos casos.

Wikilieaks já havia revelado isso desde o início, quando a NSA começou a espionar a gigante de energia, petrobras, e até mesmo o celular de Dilma Rousseff.

Em paralelo, inúmeras nações e indivíduos aprenderam como a auto-atribuída extraterritorialidade do Departamento de Justiça lhes permite ir a qualquer pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar.

Isso nunca foi uma “luta contra a corrupção”. Pelo contrário, aqui trata-se da “justiça” americana interferindo em todas as esferas políticas e econômicas. O caso mais gritante e recente é o da Huawei.

No entanto, o “comportamento maligno” (invocando palavras do Pentágono) dos mafiosos Moro e Dallagnol atingiu um novo e perverso nível de destruição da economia de uma poderosa e emergente nação, membro dos BRICS e líder reconhecido no hemisfério sul global.

A Operação Lava Jato devastou a cadeia de produção de energia no Brasil, que produz a venda – abaixo dos preços de mercado – de abundantes reservas de petróleo do pré-sal, a maior descoberta de petróleo do século XXI.

A Operação Lava Jato destruiu os campeões nacionais de engenharia e construção civil, além da aeronáutica (como na Boing comprando a Embraer). E as operações fatalmente comprometeram importantes projetos de segurança nacional, como a construção de submarinos nucleares, essenciais para proteção da “Amazônia Azul”.

Para o Conselho das Américas – que Bolsonaro visitou em 2017 -, bem como ao Conselho de Relações Exteriores – para não mencionar os “investidores estrangeiros” – ter o garoto neoliberal de Chicago, Paulo Guedes, instalado como ministro da Fazendo, era um sonho erótico e molhado.

Guedes prometeu em público que colocaria virtualmente todo Brasil a venda. Até agora, a tarefa foi um fracasso absoluto.

Como o cachorro abana o rabo

Os mafiosos Moro/Dallagnol eram apenas “um peão em no jogo deles”, para citar Bob Dylan – um jogo alheio a ambos.

Lula ressaltou repetidamente que a questão chave – para o Brasil e o hemisfério sul – éa soberania. Sob Bolsonaro, o Brasil foi reduzido ao status de uma neocolônia de banana – com muitas bananas. Leonardo Attuch, editor do portal Brasil 247, disse que “o plano era destruir Lula, mas a nação que acabou destruída”.

Tal como a coisa está, os BRICS – uma palavra muito suja no Governo Federal dos EUA – perderam o seu “B”. Por mais que possam valorizar a relação do Brasil com Pequim e Moscou, o que está sendo entregue até o momento é a parceria estratégia “RC” (russa-chinesa), embora Putin e Xi estejam fazendo seu melhor para reviver a “RIC”, tentando mostrar à índia de Narendra Modi que a integração eurasiana é o caminho a percorrer, sem desempenhar um papel de apoio na difusa estratégia indo-pacífica de Washington.

E isso nos leva ao coração do assunto, a VazaJato: como o Brasil é o cobiçado prêmio na narrativa estratégica mestra, de que tudo o que acontece no tabuleiro geopolítico no futuro previsível envolve o confronto sem barreiras entre os EUA, Rússia e China.

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Na era Obama, o Departamento de Estado dos Estados Unidos já havia identificado que, para aleijar os BRICS de dentro, o nó estratégico “fraco” seria o Brasil. E sim, mais uma vez é o petróleo, estúpido.

As reservas de petróleo do pré-sal podem valer até US$ 30 trilhões. A questão não é apenas que o Governo dos Estados Unidos quer somente um pedaço da ação; o ponto é como controlar a maior parte das faixas petrolíferas do Brasil, que está ligado a poderosos interesses do agronegócio. Para o Departamento de Estado, o controle do fluxo de petróleo do Brasil para o agronegócio significa contenção/alavancagem contra a China.

Os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina, juntos, produzem 82% da soja do mundo – e contando. A China implora por soja. Isso não virá da Rússia ou do Irã, que, por outro lado, podem abastecê-la com petróleo e gás natural suficientes (veja, por exemplo, o artigo “Poder da Sibéria” I e II). O Irã, afinal, é um dos pilares da integração eurasiana. A Rússia pode eventualmente se tornar uma potência de exportação de soja, mas isso pode demorar até dez anos.

Os militares brasileiros sabem que as relações estreitas com a China – seu principal parceiro comercial, à frente dos EUA – são essenciais, independentemente do que Steve Bannon possa reclamar. Mas a Rússia é uma história completamente diferente. Em sua recente visita a Pequim, onde se reuniu com Xi Jinping, o vice-presidente, Hamilton Mourão, parecia que estava lendo um comunicado de imprensa do Pentágono ao dizer à mídia brasileira que a Rússia é um “ator maligno” implantando uma “guerra híbrida em todo o mundo”.

Então o Departamento de Estado dos EUA pode estar cumprindo pelo menos parte do objetivo final: usar o Brasil em sua estratégia de Divide et Impera de dividir a parceria estratégica entre Rússia e China.

A história fica mais picante. A Operação Lava Jato, recondicionada como VazaJato, também poderia ser decodificada como um jogo de sombras massivo; um cão abanando o rabo, composto de dois americanos ativos.

Moro era um ativo certificado pelo FBI, CIA, Departamento de Justiça e Departamento de Estado. Seu uber-chefe seria, em última análise, Robert Mueller (desta maneira, Russiagate). No entanto, para o team Trump, ele seria facilmente dispensável – mesmo que seja o Capitão da Justiça, trabalhando sob o ativo real, que é o menino do Bannon, Bolsonaro. Se Moro cair, será garantido a ele o indispensável paraquedas dourado – completo, com residência nos Estados Unidos e palestras em universidades americanas.

Já Greenwald, do The Intercept, é exaltado por todas as vertentes da esquerda como uma espécie de Simon Bolívar, americano/brasileiro, com esteroides – com e, em alguns casos, sem ironia. Mas existe um enorme problema. O Intercept é de propriedade do hardcore praticante de guerra da informação, Pierre Omidyar.

De quem é a Guerra Híbrida?

A questão crucial, a seguir, é o que as forças armadas brasileiras estão realmente fazendo neste pântanho épico – e quão profundas elas estão subordinadas à Divide et Impera de Washington.

Essa história gira em torno do todo-poderoso Gabinete de Segurança Institucional, conhecido no Brasil pela sigla GSI. Todos os adeptos do GSI são do Consenso de Washington. Depois de anos “comunistas” de Lula e Dilma, esses caras agora estão consolidando um Departamento de Estado brasileiro, que supervisiona o controle político de espectro total, assim como nos EUA.

O GSI já controla todos os aparatos de inteligência, assim como a Política Externa e de Defesa, via decretos furtivamente publicados no começo de junho, apenas alguns dias antes das bombas do Intercept. Até o Capitão Marvel, Sérgio Moro, está sujeito ao GSI; eles precisam aprovar, por exemplo, tudo o que Moro discute com o Departamento de Justiça americano e com o Departamento de Estado dos EUA.

“Como tenho discutido com alguns de meus principais interlocutores brasileiros, como o antropólogo craque Piero Leirner, que sabe em detalhes como os militares pensam, e o advogado internacionalista baseado na Suíça e consultor da ONU, Romulus Maya, o Deep State americano assume a posição de articulador da ascensão direta das Forças Armadas brasileiras ao poder, assim como os seus fiadores. Assim sendo, caso essas não sigam o roteiro ao pé da letra – ou seja, relações comerciais limitadas com a China; e isolamento da Rússia – o Deep State pode trazer o pêndulo de volta a qualquer momento”.

Afinal, o único papel prático que o governo dos Estados Unidos teria para as forças armadas brasileiras – na verdade, para todos os militares latino-americanos – é como tropas de choque na “guerra contra as drogas”.

Não há arma fumegante – ainda. Mas o cenário da LavaJato como parte de algo extremamente sofisticado, com domínio total de operações psicológicas, num estágio avançado da Guerra Híbrida, deve ser seriamente considerado.

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Por exemplo, a extrema-direita, bem como poderosos setores militares e o império da Globo, de repente começaram a rodar essa bomba do Intercept como uma “conspiração russa”.

Quando alguém acompanha o principal site militar formador de opinião – que tem muitas coisas praticamente copiadas e coladas diretamente da Escola de Guerra Naval dos EUA – é fácil se surpreender de como eles fervorosamente acreditam em uma Guerra Híbrida russa-chinesa contra o Brasil, onde o cabeça de ponte é provido de elementos “antinacionais”, como a esquerda como um todo, bolivarianos, venezuelanos, FARC, Hezbollah, LGBT, povos indíveias, chame como quiser.

Depois da VazaJato, uma blitzkrieg de notícias falsas combinadas culpou o aplicativo Telegram “russos do mal”) por hackearem os telefones de Moro e Dallagnol. O Telegram oficialmente desmascarou isso em pouco tempo.

Eis então que a ex-presidente Dilma Rousseff e atual presidente do partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, fizeram uma visita “secreta” a Mostou apenas cinco dias antes da VazaJato.

Eu confirmei a visita é Duma, bem como o fato de que, para o Kremilin, o Brasil, pelo menos por enquanto, não é uma prioridade. A integração eurasiana que é. Isso, por si só, desmascara o que a extrema-direita do Brasil mostra distorcidamente: Dilma pede ajuda de Putin, que então libera seus hackers malvados.

A LavaJato, segunda temporada da Operação Lava Jato – pode estar seguindo o padrão netflix e HBO. Lembre-se que a terceira temporada do True Detective foi um sucesso absoluto. Precisamos de rastreadores dignos de Mahershala Ali para detectar fragmentos de evidências sugerindo que as forças armadas brasileiras – com total apoio do departamento de Estado dos EUA – poderiam estar instrumentalizando uma mistura de LavaJato e a Guerra Híbrida Russa para criminalizar a esquerda definitivamente e orquestrar um golpe silencioso que os livre do clã-Bolsonaro e seu QI coletivo de sub-zoologia. Eles querem o controle total – sem intermediários bobos. Estarão comendo mais bananas do que podem mastigar?

Pepe Escobar é um veterano jornalista brasileiro, correspondente geral do Asia Times, de Hong Kong. Seu último livro é 2030. Siga-o no Facebook.

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Sobre o tema, ver também o artigo a seguir, que deu origem a essa linha de análise relacionando a “VazaJato” ao tenso contexto geopolítico atual:

Exclusivo: militares usarão #VazaJato, Greenwald e “russos” para dar golpe?

 

 

 

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