Diários da Pandemia: o EaD em tempos de pandemia

O Ensino à Distância em Tempos de Pandemia

Relato de um professor da rede pública de ensino de Santa Catarina

O mês de abril inicia com o trabalho remoto. De repente a educação virou febre o assunto é a pandemia e a educação nesses tempos. A máquina não pode e não deve nunca parar.  De repente, webconferência vira critério de participação obrigatória, foram criados mecanismos de controle, no estado ganhamos e-mails institucionais que devem ser utilizados na comunicação com a sociedade, o Whatsapp tornou-se público. Todos têm acesso: pais, alunos, comunidade escolar. No município foi criado um dígito a mais para acessar e alimentar o sistema Betha professores. Uma loucura! Cobrança vindo de todos os lados.

Maio iniciou e a loucura só aumenta. São informações em cima de informações e cobrança de conteúdos dentro de determinados moldes. Onde isso vai parar? Sinceramente, não sei, preciso trabalhar…

Gestores falando e cobrando da gente 24 horas por dia, finais de semana, dias de semana, manhã, tarde e noite, sem sossego. Jesus, isso não acaba! Resultado: estamos trabalhando mais que antes, alimentando uma base que sequer dará 50% do trabalho que deveria ser aceito. Mas a educação deve atingir a todos e não podemos esquecer os que não possuem acesso…

Em tempos de pandemia no Brasil, a educação está ficando cada vez mais precária. São inúmeros os ataques aos educadores efetivos e temporários, a exemplo do congelamento de salários, da falta de estrutura das escolas e do uso da Internet pessoal seja por pacote dados ou o Wi-Fi de casa. Há uma sobrecarga enorme de cobrança aos docentes uma vez que a participação nos eventos de formação acontece de forma remota. O registro dessas atividades é feito tanto no ambiente da plataforma adotada, quanto no sistema que já era alimentado antes. A liberdade, tão questionada pela sociedade, foi dispensada. Hoje, o educador é pressionado de todos os lados: pela legislação vigente, pelos diretores e diretoras e pela sociedade, da qual o ensinar está cada vez mais distante.

Abordando a questão da estrutura, não é de hoje que as escolas públicas, sejam elas municipais ou estaduais, estão muito aquém das possibilidades de apresentar qualquer sinal digno de qualidade aos professores e alunos. Usando os aplicativos Professor on Line (SED/SC) e o sistema Betha Cloud (prefeituras), a gente percebe que os detalhes a serem inseridos estão cada vez mais específicos, atrelando o executado em sala diretamente ao planejamento de aula. Cabe aqui ressaltar que o planejamento, por definição, não tem como ser seguido fielmente devido à especificidade da turma, além de ser considerada a questão individual, ou seja, não tem como ser um processo mecânico, dada a variedade de possibilidades que, por via de regra, devem embasar tal fundamentação ou até arguição de conceito. Mas mesmo assim fazem com que os educadores percam seu tempo preenchendo essas informações que, efetivamente, apenas atrapalham o processo de ensino-aprendizagem.

O educador é um dos profissionais que mais tem a carga horária elevada, já que a mesma é atrelada ao aluno. Muitas vezes trabalha na escola e em sua casa, planejando, pesquisando, pensando em alternativas a serem ofertadas ao educando. Perder tempo nesse processo de alimentar o sistema só atrapalha.

Retomando a utilização do sistema, eles deveriam no mínimo facilitar o seu acesso; fazer chamada remota e implantar informações da aula, de nada acrescenta ao educando nesse tipo de ensino. Uma aula em média tem 45 minutos. Até organizar e fazer a chamada, vão uns 5 minutos. Entre explicação e desenvolvimento das atividades, em média 30 minutos, mais 10 minutos de correção e retomada de ideias. E lá se foi uma aula. É muito difícil registrar o que se deu em sala e a alimentação do sistema é cobrada semanalmente no estado, quinzenalmente na prefeitura e o questionamento que fica é: a que horas o educador faz isso? Muitas vezes, à noite. Isso é visivelmente notado nos finais de bimestre, quando os tais sistemas ficam sobrecarregados.

Quando exploramos a questão da Internet, é outro dilema. A maioria das escolas estaduais apresenta uma séria defasagem de sinal de internet. Assim, o educador precisa usar a sua própria Internet, seja ela pré-paga ou pós-paga, para poder acessar e inserir as informações do sistema. Os laboratórios de informática foram dizimados e os que existem atualmente, funcionam como depósito. Em 2017, no estado de Santa Catarina, a SED desativou todos os laboratórios e assim muitas escolas ficaram com equipamentos do FNDE, do pregão de 2009, largados de qualquer jeito, estragando e mofando, sucateando o patrimônio público. Já as prefeituras apresentam uma melhor condição de manuseio deste recurso devido ao tamanho da rede e do município. Existem muitos exemplos bem sucedidos em pequenas redes pelo Brasil.

Na questão da legislação educacional, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) foi desenvolvida para sanar um dos grandes desafios da educação brasileira: uma padronização dos conteúdos em nível nacional que, certamente, facilita a questão do que se é ensinado. Mas com ela também veio o aumento da cobrança ao professor, que deve planejar e registrar visando alimentar a tal base de dados. Esta última, por via de regra, deveria ser feita por outro funcionário. Existem as figuras de supervisor e técnicos pedagógicos que fiscalizam se o professor alimenta o sistema. Isso foi a porta para que o ensino privado, através do sistema S (SESI/SENAI/SESC), tomasse a frente no processo de privatização do ensino utilizando sua estrutura deficitária para ser modelo a ser implementado.

Retomando a tendência tecnicista, na qual o ensino técnico é a base com uma formação para o emprego, a maioria dos estudantes de nível médio hoje estuda no contraturno neste sistema. Assim, o aluno é ocupado durante o dia todo. Usar essa tendência, aliada a uma pandemia na qual o acesso ao sistema deve ser de forma remota, apenas fragiliza ainda mais  essa estrutura pública. O aprendizado em si não é a PRIORIDADE.

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