Economia gira quando há consumo

Por Vladimir Micheletti[i]

Enviado pelo Coletivo Vila Vudu

Eu estava preparando uma mensagem-convite (“Convite para trabalho em conjunto – Reforma do Judiciário”, começando pelo cartório). Tive de parar. O artigo do prof. Delfim Netto na Carta Capital desta semana – “A Sociedade perfeita e a possível“[ii] – me obrigou a parar tudo, para escrever o que aqui vai.

Adquiri e estou lendo o livro Animal Econômico: os principais textos publicados na Folha de S. Paulo pelo mais influente economista brasileiro, 2018, de Delfim Netto[iii]

.

O livro traz o artigo publicado em 27/03/1991, com o título –  Simmel e o Brasil – que contém, além da apresentação de Georg Simmel (até hoje é pouco conhecido) o seguinte parágrafo:


”Há pouco mais de quarenta anos, os privilegiados estudantes da turma de 1949 da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da USP (pouco mais de uma dúzia) esperavam ansiosamente o seminário de sociologia promovido aos sábados de manhã pelo extraordinário professor Heraldo Barbuy… Visto à distância, aquele seminário nos parece hoje uma espécie de antídoto contra a ênfase profissional que nos preparava, quase imperceptivelmente, para o exercício da intervenção econômica. Eram pequenas doses de uma vacina que deveria imunizar-nos contra o exercício da engenharia social…” (p. 89)[iv].

Infelizmente, o caro prof. Delfim não foi eficazmente imunizado. No final do artigo, ele acrescenta:

“Nota: o livro de Simmel é de 1907. Existe uma tradução inglesa, The Philosophy of Money“[v].

Ora! Se nesses “75 anos depois dos seus 17″[vi] até hoje, o professor Delfim tivesse lido o livro Soziologie: Untersuchungen über Die Formen Der Vergesellschaftung [Sociologia: Investigação sobre Formas de Sociação][vii] de Simmel, teria notado que a primeira questão do primeiro capítulo desse livro, de 1908, é anterior, no plano lógico, à pergunta de Delfim, em 2018. Simmel pergunta, logo no primeiro capítulo: “como é possível a sociedade?” Pergunta, pois, pela possibilidade de qualquer sociedade e de todas as sociedades, sem procurar perfeições nem pré-delimitar possibilidades.

Mas – o mais importante! – Simmel responde, sim a própria pergunta. Sua resposta é a ‘imunização’ em que Delfim Netto também pensou. E, ao responder a questão, Simmel explica, em termos analógicos, que só se consegue fritar um punhado de carne moída e temperada sem que se espalhe por toda a frigideira e de modo que se mantenha como almôndega, porque naquele caso se agregam farinha e ovo para manter coesa a carne moída, na frigideira.

Já o prof. Delfim Netto, depois de se declarar socialista (ainda que ‘fabiano’) na juventude, pergunta, para se autorresponder e já se autorrespondendo:


”Mas, então, por que ela [a sociedade harmônica] ainda não se tornou uma realidade? Talvez porque em toda literatura em que se propõe tal sociedade não há uma solução prática para a seguinte questão: como nela se coordenam os desejos e as preferências de milhões de consumidores livres, com a ação de milhares de agentes públicos que operarão os bens de produção para satisfazê-los? Em outras palavras, como os burocratas honestos que controlarão a produção de sapatos saberão quais produtos (tamanho, modelo, cor, etc.) estão nos planos de milhões de consumidores, para produzi-los?”

O prof. Delfim comete logo dois erros crassos aí nesse parágrafo.

O primeiro, que desconsidera a propalada “demanda efetiva” (Keynes) e só considera “consumidores livres”. Mas… livres de quê? Livres de quem? A ninguém se permite esquecer que “consumidor” pressupõe o consumo. Importante não é satisfazer desejos por tamanhos, modelos, cor, etc. da comida. Importante é satisfazer a absoluta necessidade de comida, sobretudo quando falte comida aos famintos e descalços no caso do chamado “consumidor” que não tem dinheiro para consumir nenhuma comida e nenhum sapato.

Daí a importância de se considerar a “demanda efetiva” (Keynes): todos nós (10 pessoas, por exemplo) demandamos pães para o café da manhã, mas muitos de nós (6 pessoas) não têm dinheiro para comprar o pão. Logo, a “demanda efetiva” é de 4 pessoas, não de 10 ditos “consumidores”, mas que nada consomem.

Até alguns anos atrás, essa diferença entre consumidores não era percebida nos países desenvolvidos ou centrais, e a explicação de Keynes era deixada de lado, porque só explicaria a situação dos anos 30 do século passado – a Grande Depressão ou Crise de 1929 que resultou na criação do Estado do Bem-Estar (welfare state).

Na nossa parte do mundo e na nossa situação (periférica), os estudantes de Economia eram forçados a engolir a teoria neoclássica (dominante desde então) e a fazer cursos fora do horário normal – como este que o prof. Delfim fez e que de tão pouco lhe serviu – seja em termos institucionais seja para ‘imunizá-lo’.

O segundo erro é que o prof. Delfim manteve no controle da sociedade, como se fossem uma fatalidade da natureza, os burocratas. Numa sociedade que superará a capitalista atual, o controle será “social” – controle social –, não o velho controle de e por burocratas. Ouso reproduzir aqui o parágrafo final de meu trabalho:

“Se se toma a crise financeira de 2008, descobre-se não só a falácia da chamada proposta de ‘desregulação’, mas a rica e profunda proposta de debate quase completamente perdida, porque deixada de lado ao longo desse tempo e que se refere ao livro de Maurice Dobb –Teorias do valor e distribuição desde Adam Smith: ideologia e teoria econômica[viii].

Dado que a ciência nos permite (e instiga) a mergulhar fundo e para trás, para resgatar a porta aberta do futuro, é preciso saber que nada se alcançará se não incorporarmos o pensamento de Karl Marx e o pensamento de Georg Simmel.

Ambos contribuíram para construir a porta aberta do futuro; o primeiro, no mundo das mercadorias (mundo material); o segundo, no mundo da, digamos, afetividade.

Não podemos perder o ônibus teórico e histórico que passa, porque esse coletivo (como dizemos cá no Brasil, para “transporte coletivo”) certamente nos tira do mundo da mercadoria, para o mundo da, digamos, afetividade, onde se pode aspirar a encontrar a família feliz de Tolstoy[ix] como agência reguladora do mundo imaterial com fortes potencialidades para consolidar o controle social sobre o mundo da mercadoria e sobre o mundo da, digamos, afetividade.”

Nos dias atuais, a elite burra e idiotizada pela mídia (Globo) só falta reclamar pela volta dos “terceiro-mundistas”, pela “teoria da dependência” do [Ruy Mauro] Marini, porque o Lula/Dilma/PT fez ver até a quem nunca quis ver que existe uma parcela enorme da população que tem de ser incluída nos propósitos econômicos.

Portanto, de nada adianta falar em consumidores, em mercados, se se desconsidera essa enorme parcela da população.

É bobagem insistir em que haveria algo a aprender ‘da crise’. Deve-se aprender, isso sim, de Marx, Simmel, Marini, Lula, Dilma, PT e tantos outros. Aprende-se seja do que for, exceto ‘da crise’. Parte significativa da classe trabalhadora não consegue reproduzir-se (efeito da superexploração).

Interessantíssimo, aí, é que essa superexploração só era vista, até recentemente, nos países subdesenvolvidos ou atrasados. O momento atual, contudo, está tornando visível essa superexploração também nas sociedades desenvolvidas ou centrais (EUA e parte da Europa, digo, União Europeia). Daí o desespero (e destempero) do Trump, enlouquecido para fazer a roda da história girar para trás. Não conseguirá. É impossível.

Essa elite burra merece uns tabefes na cara, – e os tabefes virão nas próximas eleições.

Quanto ao prof. Delfim, encerra assim o artigo de Carta Capital dessa semana:

“não tenhamos ilusões. Essa sociedade não será construída nem pela judicialização da política, nem pela politização da justiça, nem pela confusão de poderes delas emergentes que hoje nos afligem. Só o exercício pleno da Política num regime democrático poderá gestá-la”[x].

Quer dizer: o prof. Delfim não foi imunizado naqueles idos de 1949, nem depois, mas continua a pensar coerentemente. Grande Delfim Netto!

Lula livre já!

A luta continua! À Revolução Permanente!

Abraços.
Vladimir D. Micheletti

NOTAS
[i] Vladimir D. Micheletti é professor na Universidade Federal de Alagoas/Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, UFAL/Feac, Brasil. Esse artigo foi distribuído como msg de e-mail, para vários destinatários, dia 11/7/2018. Aqui, versão editada e revista autor [NdR].

[ii] DELFIM NETTO, Antônio. “A sociedade perfeita e a possível”, São Paulo: Carta Capital, 11/7/2018, p. 21.

[iii] DELFIM NETTO, Antônio. Animal Econômico: os principais textos publicados na Folha de S.Paulo pelo mais influente economista brasileiro, São Paulo, Editora Três Estrelas, 2018.Divulgado na página da editora.

[iv] DELFIM NETTO, Antônio. “Simmel e o Brasil”, 27/03/1991, Folha de S.Paulo, in _____ Animal Econômico: os principais textos publicados na Folha de S.Paulo pelo mais influente economista brasileiro, São Paulo, Editora Três Estrelas, 2018.

[v] Idem, ibidem.

[vi] DELFIM NETTO, Carta Capital, loc.cit.

[vii] Para os interessados: encontramos de Simmel [1858-1918] em português: Questões Fundamentais da Sociologia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006; A Filosofia do Amor; e duas coletâneas dos seus ensaios: uma organizada por Jessé Souza e Berthold Öelze (Simmel e a Modernidade) e outra, por Evaristo de Moraes Filho (Simmel: Sociologia). No blog Farofa Filosófica encontram-se alguns ensaios, dentre os quais “O Dinheiro na Cultura Moderna” [1896]. Até o momento, não há tradução ao português das suas obras fundamentais Philosophie des Geldes (esp. Filosofia del Dinero) [1900]; e Soziologie: Untersuchungen über Die Formen Der Vergesellschaftung [Sociologia: Investigação sobre Formas de Sociação] [1908], embora a primeira possa ser adquirida em inglês. Demais livros, incluindo aqueles nos quais Simmel analisa as obras de Rembrandt, Rodin, Kant, Goethe, Schopenhauer e Nietzsche, são ainda mais difíceis de encontrar por aqui, mesmo na língua inglesa. Tampouco há tradução ao português das excelentes coletâneas dos seus textos já publicados em inglês e espanhol, os livros On individuality and social forms: selected writings, organizado por Donald N. Levine, e Essays on Religion, editado por Horst Jirgen Helle, além de outros. Em espanhol: SIMMEL, G. 2002. Sobre la Individualidad y las formas sociales. Escritos Escogidos. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes; e SIMMEL, G. 2002 [1917]. Cuestiones Fundamentales de Sociología. Barcelona: Gedisa.” [NdR, com informações de “Resenhas: Georg Simmel”, Clark Mangabeira.]

[viii] Ver, principalmente, Teoria do Valor e Distribuição desde Adam Smith: Ideologia e Teoria Econômica [1973], trad. Álvaro de Figueiredo, Lisboa: Editorial Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1977.

[ix] “As famílias felizes são todas iguais; mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, o narrador, na abertura do romance Anna Karenina [1877] de Leon Tolstoi [1828-1910] [NdR].

[x] DELFIM NETTO, Carta Capital, loc.cit.

 

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