Beija-flor apagando incêndio

Por Luiz Otávio Mantovaneli.

Nós, do Beija-flor apagando incêndio, acabamos de realizar a quarta distribuição de café da manhã para pessoas em situação de rua, sempre aos domingos, no Largo do Machado, Rio de Janeiro.

Desde o início, nosso grupo, que se constituiu através da internet, se ressente da falta de informações disponíveis a respeito das demais ações existentes que visam o mesmo público.

Então, este texto é também uma mensagem na garrafa lançada no cyber oceano apelando para a possibilidade da construção de uma rede colaborativa on-line para que as diferentes ações possam tomar conhecimento uma das outras, trocar experiências e talvez até mesmo os parcos recursos levantados por cada uma delas.

Outro ponto interessante é que esta rede também pode sinalizar para outras pessoas que queiram montar as suas próprias ações lugares e horários que estejam desassistidos para café da manhã, almoço ou janta, em toda extensão da cidade e poder melhor eleger um horário e local para tentar tapar um buraco na rede.

Ao longo deste curto espaço de tempo, viemos nos dando conta de que a rede também serviria para que mesmo as pessoas que não queiram ou não possam, respeitados seu motivos, participar diretamente de tais ações, soubessem ao menos de suas existências e pudessem referir potenciais assistidos para um ou mais dos movimentos mapeados.

também, é claro, outros usos para esta rede dos quais sequer conseguimos vislumbrar a partir de agora.

Infelizmente, nenhum de nós do Beija-flor tem competência para sequer pensar em como construir tal rede. A mensagem na garrafa está lançada.

Isto feito, também ficará visível que este esforço voluntário já vem sendo feito há muito tempo e é muito maior e mais duro do que pode alcançar a nossa experiência de pura observação do dia a dia das ruas da cidade e do país.

Também ficará visível que estamos perante um fenômeno político, na medida em que este é um esforço de muitos (póli) em favor de muitos (póli) onde todos fazem parte de um conjunto muito (póli) maior, a saber a cidade (pólis).

Este esforço não pode, e não está, entregue apenas à vontade boa de um trabalho voluntário. É preciso que o Estado assuma cada vez mais as a situação, seja na assistência direta aos desassistidos, seja dialogando com as diferentes ações já existentes e que venham a existir, pois uma coisa não exclui a outra e esta é a essência da Parceria Público Privada.

E é aí que a coisa empaca, quer porque a administração direta é insuficiente e/ou ineficaz, quer porque cada um de nós não se dedica a fiscalizar e a cobrar ação eficaz por parte de quem de direito.

Enfim, a rede mapeadora das ações voluntárias dispersas também pode ajudar a mostrar outra coisa importante: a sociedade está investindo, ainda que espontânea e desorganizadamente, no povo.

É preciso virar a chave contábil que condicionou a visão das pessoas, fazendo-as crer que esta despesa é um gasto.

É preciso fazer com que elas entendam que isso é investimento e que uma sociedade que investe no povo é uma sociedade que investe nela mesma.

Adoraria poder sair destas metáforas contábeis, mas temo que o discurso perca força de convencimento. Então vou persegui-la até o ponto em que ela vai apresentar suas falhas.

Para avançar, é preciso retroceder para entendermos como tudo isso teve sua origem.

Três frases que circulam nas nossas conversas do dia a dia são bastante frequentes e são também, o que quer dizer que não são as únicas, formadoras desta percepção da despesa como gasto em vez de como investimento.

São elas:

  1. As pessoas se associam umas às outras visando interesse próprio.
  2. Não existe isso que chamamos de sociedade, o que existe são os indivíduos.
  3. Não existe dinheiro público, o que existe é o dinheiro do contribuinte.

A primeira frase, “As pessoas se associam umas às outras visando interesse próprio”, é a mais antiga de todas, remontando à Grécia Antiga, quando os próprios gregos se espantaram e questionaram o experimento social que estavam fazendo, a Cidade Estado, bem como o formato de gestão este experimento, a Democracia, e funciona como um postulado, de onde

as outras duas, bem mais recentes, decorrem como se fossem corolários.

À primeira vista, não há nada de errado com esta frase e ela nos parece “natural”. Por isso mesmo, ela ressurgiu com força na Inglaterra pós revolução industrial e começou a formar um certo modo de ser que até hoje orienta as sociedades industriais e pós industriais do Ocidente.

Ela foi tomada como um ponto fixo e seguro, como o ponto de Arquimedes, a partir do qual é possível alavancar o mundo.

Acontece que somos levados a acreditar que a coisa fica por aí e nos esquecemos de que ela pode desencadear outras consequências.

Ao longo do tempo, as sucessivas trocas entre os indivíduos pode torna-los mais e mais próximos e daí pode também surgir um dos mais poderosos afetos humanos, a amizade.

Enquanto os gregos estiveram bem cientes desta possibilidade, chegando a considerar a amizade como um cimento social, e, por conseguinte, um fenômeno público, nossa cultura optou por focar exclusivamente no interesse próprio, banindo a amizade da vida pública e relegando-a ao âmbito privado.

Em outras palavras, a limitação do verdadeiro alcance da frase nos nivelou por baixo. Isto não virá sem consequências, certamente imprevistas.

A segunda frase, “Não existe isso que chamamos de sociedade, o que existe são os indivíduos”, é uma consequência importante da retirada, não da amizade, mas antes da própria possibilidade da amizade da esfera pública, o que levou à emergência de um novo valor e de uma nova virtude cívica.

A competitividade passou a ser cada vez mais requisitada, a ponto de ser construída e estimulada entre nós, conformando uma subjetividade que se acredita ser virtuosa para a sociedade.

É importante dizer que não viso aqui a escolha de uma ou outra, mas antes mostrar que ao privilegiar uma, nossa cultura desequilibrou a balança, com gravíssimas consequências para o nosso psiquismo, mas não há espaço agora para tratar disto.

Neste quadro, a terceira frase, “Não existe dinheiro público, o que existe é o dinheiro do contribuinte”, aparece praticamente como uma conclusão devastadora e justificadora da retirada do Estado na tarefa de investir no próprio povo e aquele indivíduo isolado da sociedade que sequer existe passa a ser também uma empresa e empresário de si mesmo.

Abreviando, o indivíduo que é uma empresa e empresário de si mesmo é um CNPJ ambulante.

Acontece que esta frase, antes de ser uma conclusão devastadora, também é uma conclusão errada, uma falácia. Vejamos.

Em primeiro lugar, o contribuinte, que é o CNPJ ambulante, não tem a liberdade de não contribuir, preso que está ao contrato social que nos liga à sociedade cuja existência foi negada. Ao contrário, se o fizer, perde a sua liberdade, vai em cana.

Mas a coisa não fica só nisso. Visto nesta perspectiva, o CNPJ ambulante deverá então, já que o dinheiro não é público, receber serviços do Estado na justa proporção do quanto ele contribuiu e quem contribuiu muito recebe muito, quem contribuiu pouco recebe pouco e quem não contribuiu não recebe nada.

Em outras palavras, cada um recebe do Estado dividendos proporcionais à sua contribuição. Mas não é isto o que acontece e nem é isso o que queremos.

Além do mais, a analogia entre o contribuinte e o acionista também põe dois choques em evidência: o acionista tem liberdade para decidir aonde vai aplicar o seu dinheiro, coisa que o contribuinte não tem e, também, o acionista executa livremente um ato de risco, enquanto o contribuinte executa compulsoriamente um ato de fé.

A metáfora contábil se esgarçou e revelou seu absurdo.

Os tempos covid e pós covid exigem e exigirão muito mais colaboração do que competição. Para estarmos preparados para quando o pós-covid chegar, é preciso começar a pensar agora.

É preciso resgatar a amizade para a esfera pública.

É um afeto forte e essencial para trazer alguma liga numa sociedade que cresceu a ponto de abarcar muitos pontos de vista contrários e até mesmo contraditórios em seu seio, o que gera tensões.

Até aí, tudo bem, pois se há algo que não mudou na democracia desde os gregos para cá, é o fato de a democracia ser um jogo eternamente tenso, é um jogo que visa o todo e não as partes, as quais sempre acabarão insatisfeitas em sua plenitude.

Felizmente, a amizade resistiu, porque sempre existiu nas relações humanas, desde antes mesmo dos gregos, desde sempre. Só tem sido sistematicamente recalcada.

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ver também:

Lave as Mãos: Pia do Bem

Enraizados no Morro Agudo (RJ)

Movimento Unificado dos Camelôs (RJ)

MST: Terra Prometida

KM 32: na profundidade da Periferia

Frente CDD: Cidade de Deus (RJ)

Pandemia e periferia

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