Quijote no país dos Bruzundangas

No país dos Bruzundangas.

Por Quijote.

Acabo de retornar de um plantão em uma UPA do município do Rio de Janeiro, fui cobrir um colega que está como suspeita de CV-19 e precisa do salário (iniciaremos por aqui? O trabalho médico é cada vez mais precarizado aqui na cidade partida… em pedaços).

Na unidade em questão, faltam materiais básicos, EPIs, profissionais. Naquele “microcosmos”, a quantidade de pessoas com sinais e sintomas suspeitas para o CV-19 é cada vez maior. Oito leitos da sala amarela ocupados, dois da sala vermelha também ocupados.

Algo diferente, não!!! Já funcionávamos no caos. Pioramos depois de 2016, mas a realidade era pouco diferente antes nos governos petistas. Expandimos o SUS, embora a precariedade e o jeitinho fora marca desde sempre no sistema público de saúde.

Trabalho em um hospital universitário do Rio de Janeiro, como médico residente. Sou plantonista em duas unidades de urgência e emergência também do SUS no mesmo município. Algo em torno de 80 h de trabalho.

O hospital em que sou residente, da mesma universidade do editor chefe do DE, Romulus, hoje é referência para CV-19, com praticamente várias enfermarias ocupadas por pacientes em estado grave. Pacientes de todas as idades.

Todas as cirurgias eletivas de pacientes que aguardam, 3, 4 anos para conseguir por exemplo uma prótese de joelho, ou uma intervenção cardíaca, nem remarcadas foram (e não há como). Isso, para quem já viveu por 3 anos o contexto da atenção primária no Município provoca ainda mais dor e ansiedade.

Milhões de cariocas dependem do SUS; o aumento da ansiedade e o medo apenas refletem uma situação que já era caótica.

Atendi uma síndrome coronariana, um AVC, uma cetoacidose diabética, uma bradicardia, vários pacientes com suspeita de CV-19 e o que posso proporcionar a essas pessoas num plantão de UPA?

Apenas pedaços, pequenas intervenções que ajudam momentaneamente a aliviar o sofrimento daquelas pessoas.

Hoje moro num bairro da zona norte da zona sul, uma brincadeira dos moradores do Catete, alguns claro. Sou paulistano e sonhava com as ruas que cresci lendo nas obras de Machado, Ruben Fonseca, João do Rio, Lima Barreto.

Meu pai, um espanhol de Pamplona, minha mãe uma paulistana da gema. Ambos operários, meu pai metalúrgico. Antes da medicina, já fiz de tudo um pouco. Fiz até uma graduação em geografia e um mestrado.

Filho de trabalhadores, branco e loiro, entrei na faculdade de medicina aos 29 anos. Minha entrada se deu no contexto das mudanças do segundo mandato de Lula, e a universidade mudou mesmo. O acesso aos cursos mais concorridos alterou-se.

Queria e mantenho-me como trabalhador do SUS.

Terminei o curso de medicina, em 2016, peguei o ano do golpe. Sabia que anos difíceis viriam e que a luta para manter o já combalido SUS seria enorme (mas como lutar, como lutamos, optamos pela via parlamentar, erramos e continuamos insistindo no erro).

Trabalhei na favela do Jacarezinho, Rocinha, Del Castilho, Marechal Hermes, Méier,  Paquetá e fiz a residência de Medicina de Família e Comunidade na Morro do Santo Amaro, no bairro do Catete.

Presenciei o desmonte da atenção primária no Rio, o desgoverno do pastor, do pé grande e agora do tiro na cabecinha.

Mas perdemos o debate nas zonas periféricas da cidade, nós esquerda. Um esquerda, ou como diria o Rubão e o Quintas, a “new left” ganha na zona sul, na praça São Salvador – onde morei e adoro escutar um chorinho aos domingos (teremos outros?).

Mas a praça também é o território dos bolsonaristas, aliás, os mesmos que votaram em Lula e Dilma e ajudaram a elegeram o bozó.

Voltando, esquecendo um pouco das digressões, tão apreciadas por nosso querido RM, rs.

Já tínhamos um cenário de guerra na saúde pública. O desmonte do SUS (houve um monte?), o subfinanciamento, as precárias políticas sociais foram arrasadas pelos anos pós golpe. A Pandemia é o choque da realidade.

Subnotificação de casos é a tona, acredito que os números sejam 10, 20 vezes maiores. Quadros de descompensação de doenças de base motivadas pela infecção do CV-19 também dispararam; as internações aumentaram e muito.

Relatos dos amigos de hospitais de referência na cidade dão conta das dificuldades. Faltam respiradores, máscaras, e principalmente profissionais capacitados para tal trabalho.

O Rio mandou embora um grande contigente de profissionais de saúde nos últimos anos, simplesmente porque a prefeitura não pagava seus salários e destruía a capacitação dos programas de residência médica.

Senhor Merdetta, aiai.

Fico por aqui.

Na Bruzundanga ainda existe muita gente que faz a vida florescer. Agradeço a todos os colegas que estão nas clínicas de saúde da família e nos postos de saúde dando a vida para acompanhar os sintomáticos respiratórios e dar seguimento no tratamento e acompanhamento das outras pessoas que mais necessitam.

Meu filho, P., nasceu faz 42 dias. Até hoje , apenas por 8 dias tive um contato maior com ele; a saudade da família é grande.

Segue o “isolamento”, e eu que vou de transporte público e de bicicleta para lá e para cá.

Vejo o povo pobre e trabalhador, entregando comida para a classe média da zona sul e da barra, erguendo os apartamentos de 1 milhão, ou trabalhando na saúde precarizada, e na limpeza.

O que é mais louco é que conheço tanta gente que vive estudando o SUS e lacrando com o SUS e em quarentena (acho justo que todos participassem dela).

Home Office, pedidos para a farmácia entregar a dipirona, o mercado, a comida orgânica.

No país dos bruzundangas, a quarentena é para poucos.

Quijote

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ver também:

Na Linha de Frente: Rio de Janeiro

A Saúde na Luta: Rio de Janeiro

Na linha de frente (3)

Diários da Pandemia: na linha de frente (2)

Diários da Pandemia: na linha de frente

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