Rebelião no Chile hoje. Brasil e América Latina amanhã. Papel da esquerda
Rebelião no Chile hoje. Brasil e América Latina amanhã. Papel da esquerda
Por Alejandro Acosta
A rebelião popular em Chile entrou no quinto mês de duração e em novo ascenso após o verão. O impulso inicial veio a partir de um grupo muito reduzido, bem organizado, composto principalmente por estudantes secundaristas, que encamparam a luta contra o aumento das tarifas do Metrô (30 pesos ouR$0,015) com as palavras de ordem “Evadir, no pagar, outra forma de luchar” (pula catraca) e “Não são os 30 centavos, mas os 30 anos”. Imediatamente o pinochetismo começou uma violenta repressão contra os menores. O exemplo audaz e inovador contagiou o restante da população que se somou contra esse aumento e as cobranças abusivas: pelo fim das AFP (fundos de pensão), pela educação e saúde gratuitas, por serviços públicos de qualidade; contra o sistema todo.
Os setores mais ativos têm sido os estudantes e os movimentos sociais, como os pobladores (movimento popular), as feministas, os povos originários, os aposentados, os direitos humanos, alguns setores dos sindicalistas, principalmente os portuários, pesqueiros, professores e garis.
À frente da rebelião não há havido um grande líder nem um forte partido político revolucionário, mas o movimento não tem sido espontâneo, no termo clássico da palavra. Várias iniciativas políticas e organizativas têm sido impulsionadas a partir dos pequenos agrupamentos revolucionários, mas elas têm encarnado e sido desenvolvidas pelo movimento de massas. O fato de não haver bandeiras de partidos políticos não significa que não haja organização.
Existe o mito de que grandes movimentos precisam de um grande líder ou de um partido com milhares de militantes disciplinados. Na realidade, os grandes líderes se montam em cima dos movimentos; alguns exemplos seriam o movimento negro nos Estados Unidos, quase todas as revoluções, como as revoluções russas de 1905 e fevereiro de 1917, a Revolução Cubana; as 35 revoluções e revoltas que tem acontecido no Brasil.
A propaganda
Hoje, as pessoas se autoconvocam por meio de vários mecanismos, principalmente as redes sociais; no início, havia enorme esforço para convocar as manifestações pelas redes.
A propaganda tem sido muito inovadora por meio das redes sociais, com comunicação massiva, com consignas simples, com muito humor, em cima de demandas muito sentidas.
As próprias ações prática têm se transformado em componentes da propaganda e da agitação: catraca livre, bicicletadas, atos nos shopping centers, atos nos bairros populares e outras. Algumas ações se tornaram fenômenos mundiais como a ação das feministas das Tesis com “o estuprador é Piñera e o estado” (ver na Internet “Un violador en tu caminho”), que têm evoluído do identitarismo a ações de confrontação cada vez mais frontal contra o pinochetismo.
A autodefesa das massas: Primeira Linha
Primeira Linha, como autodefesa das massas, tem garantido a capacidade de manifestação da população contra a brutalidade da repressão do pinochetismo.
No Festival Viñadel Mar, vários artistas nacionais e internacionais expressaram abertamente solidariedade com a rebelião chilena, com a Primeira Linha e contra Piñera e opinochetismo.
A Primeira Linha tem enfrentado com bastante efetividade a repressão pinochetista que já deixou 40 mortos oficiais, 3766 feridos, mais de 445 feridas oculares, 2.122 feridas por disparos, 2.197 casos de violência sexual e 520 de torturas, além de 3.000 presos politicos. Para reprimir as manifestações tem sido todos os elementos repressivos disponíveis, como água com elementos químicos, sequestros de lideranças, supostos suicídios, fascistas nas ruas, provocações dos serviços de inteligência, uso alta tecnologia como reconhecimento facial etc.
Foram as demandas legítimas contra o pinochetismo que mobilizaram o povo.
Detalhes sobre a rebelião
A rebelião popular no Chile dura quase cinco meses, num país pequeno, com 20 milhões de habitantes e PIB três vezes menor que o do Brasil.
Durante o verão, quando os chilenos normalmente saem de férias, as manifestações e protestas continuaram, embora que com menor intensidade. Em março, aconteceu a retomada da rebelião com intensidade. O Festival de Viña del Mar evidenciou que a rebelião dificilmente será contida simplesmente pela força bruta.
No Dia Internacional da Mulher, houve quase dois milhões de manifestantes em Santiago e outro tanto no restante do Chile. A seguir, há várias manifestações grandes previstas para todo o mês de março.
O vídeo da Frente Patriótica Manuel Rodriguez chamando à luta contra a brutalidadedo governo pinochetista de Piñera colocou enorme pressão sobre a esquerda oportunista. Agora, até setores oportunistas passaram a levantar a greve geral por tempo indeterminado até a queda de Piñera.
O pinochetismo reagiu com a tentativa de viabilizar a substituição de Piñera, mas mantendo o pinochetismo. Há duas manobras que tramitam no Congresso com esse objetivo. Uma delas pede a condenação e renuncia de Piñera por insanidade mental, o que o isentaria da condenação de maneira similar ao que aconteceu com Pinochet.
Pode-se derrotar forças armadas pinochetistas e a estrutura do regime?
O que está em jogo? A pressão do imperialismo em crise tem aumentado e deverá aumentar ainda mais por causa do aprofundamento da crise mundial.
O imperialismo tem aumentado a pressão para quebrar a rebelião no Chile por meio de vários métodos.
Apesar do aumento das provocações e da repressão, a rebelião popular continua crescendo. Por que? Se trata de um movimento espontâneo? Não; um movimento espontâneo não teria condições de ter durado tanto, teria sido derrotado.
As forças armadas chilenas são as mais nazistas da América Latina. A brutal repressão não levou a seu racha. O esquema teórico tradicional parece não estar funcionando; por que? O imperialismo aprende e ajusta as táticas. Os revolucionários também precisam ajustar as táticas.
O mesmo se aplica em relação à formula tradicional de impulsionar uma greve geral que conduza à insurreição, quando a classe operária chilena foi brutalmente golpeada pela Ditadura de Pinochet; os antigos cordões industriais praticamente desapareceram e deram lugar a praças industriais em regiões isoladas. Além disso a classe operária mudou a composição a partir da década de 1970.
O impacto da rebelião popular sobre o Brasil e a A.L.
O imperialismo quer implementar o modelo pinochetista chileno no Brasil, como modelo para toda a América Latina. A preparação da estrutura jurídica policial militar e o ascenso dos generais ao controle dos postos chave do governo tem como objetivo impor brutais ataques contra os brasileiros e todos os latino-americanos.
A manifestação dos bolsonaristas em 15.3 faz parte de uma manobra de Donald Trump para impulsionar a Jair Bolsonaro como uma liderança da extrema direita em América Latina, dada a brutal crise de Macri, Piñera, Duque e Guaidó.
A esquerda vendida se integrou totalmente ao golpe. Não tem coragem nem sequer de pegar em Suíça s documentos originais da Odebrecht que poderiam mostrar a fraude da Operação LavaJato, sendo que há poucos dias esteve em Suíça, ou de divulgar os documentos vazados da CPI do Banestado.
Perante os ataques econômicos e políticos, para a esquerda revolucionária o desafio está em enfrentar e vencer o imperialismo ou condenar as massas à morte por inanição.
Há uma janela de oportunidade durante este ano, pois em 2021 o novo governo norte-americano deverá escalar os ataques. É preciso agrupar os lutadores sérios, anti-imperialistas e revolucionários com o objetivo de impulsionar a mobilização, na linha do que foi feito no Chile.
É preciso criar Comitês em defesa das estatais e do emprego, Comitês contra o golpe e outros, por fora do controle das burocracias vendidas.
Para a criação desses comitês, é preciso sermos muito criativos, focarmos em atividades práticas que possam mobilizar as pessoas. Devemos pensar em fazer coisas que a burocracia sindical não quer fazer, e por fora dos aparatos (para depois voltar e bater nesses traidores com força, quando já ficar difícil para eles nos quebrar). A título de exemplos, pode-se pensar em outdoors nas ruas, o que implica na inclusão de várias pessoas; preparar-se para atuar nas manifestações de 18.3: preparar panfleto para distribuir, faixa grande Contra as Privatizações e a Defesa do Emprego; divulgação nas redes para o dia 18.3, com mensagens, memes, áudios, vídeos; entrevista em alguma rádio mesmo comunitária e depois divulgar o áudio amplamente.
Algumas lições da rebelião do povo chileno
- Um pequeno grupo de militantes, desde que seja esclarecido, sério e disciplinado pode jogar um papel importante para impulsionar a mobilização das massas, que querem lutar dada a escalada dos ataques do capital, mas enfrentam a traição aberta das direções da organizações de massas que estão muito burocratizadas.
- Muita flexibilidade tática, para avançar na aplicação estratégia, tem permitido que o movimento de massas tenha se mantido e fortalecido apesar do gigantesco aparato repressivo montado.
- Deve-se buscar somar as organizações sociais e políticas, não integradas ao estado e ao capital, tais como movimentos e setores sociais, e políticas: agrupamentos sindicais classistas, movimentos de bairro, movimento estudantil e da juventude, movimento minoritários como indígenas, feministas e outros.
- A propaganda pelas redes sociais pode desempenhar um enorme papel mobilizador, mas precisa ser realizada utilizando novos tipos e padrões de comunicação social, de massas.
- As palavras de ordem devem ser lançadas, mas na forma devem expressar-sede várias maneiras usando uma comunicação alinhada com o movimento de massas.
- As organizações de massas se encontram tomadas pela pequeno burguesia e integrada ao estado burguês e ao capital. Os sindicatos atuais agrupam um pequeno percentual dos trabalhadores e contém o movimento operário. Os trabalhadores e os grupos revolucionários apresentam muita fraqueza para enfrentar as burocracias, que atuam como extensão do estado e do capital. Os pequenos grupos classistas e revolucionários que existem precisam se fortalecer por fora desses aparatos, sem abandonar a luta neles, para uma vez fortalecidos ter condições para aplicar golpes duros contra essas burocracias na luta contra o estado e o capital.
- A Primeira Linha desempenhou um papel central na contenção da repressão pinochetista que permitiu às massas se manifestarem.
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Alejandro Acosta – Editor do jornal Gazeta Revolucionária |
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