Os navios iranianos na América Latina

Por Alejandro Acosta

Após o fracasso da Operação Gedeão, que devia viabilizar a invasão da Venezuela, o governo norte-americano ameaçou com a IV Frota Naval os cinco navios iranianos que transportam gasolina e peças de reposição para reativar o setor do refino.

Apesar das ameaças, os navios começaram a chegar no sábado 23 de maio, escoltados pela Marinha e a Aviação venezuelana e de dois submarinos russos.

Há três semanas, aeronaves de transporte iranianas haviam chegado à Península de Paraguaná (Estado de Falcón), com equipamentos e peças de reposição (catalisadores, peças para a unidade de craqueamento catalítico, válvulas etc.), com o objetivo de reativar as operações do Complexo de Refino de Paraguaná (refinaria de Amagay e de Cardón) e a refinaria de Palito.

Até 2011, o Complexo de Refino de Paraguaná era o maior do mundo, com capacidade de refino de 1.000.000 de barris de petróleo diários que podia ser convertida em 66.000.000 milhões de litros de gasolina além de óleos e outros derivados, mais do que suficiente para abastecer toda a América Latina. Na atualidade, essa capacidade de refino somente é superada pela Refinaria de Jamnagar, localizada na Índia, com capacidade para processar 1.200.000 de barris diários.

Dez dias antes dessa operação, com a ajuda da Rússia, a refinaria do Palito (localizada no estado de Carabobo) havia sido reativada. A capacidade de processamento é de 140.000 barris diários. Devido à falhas não resolvidas em sua unidade de craqueamento catalítico, está produzindo apenas diesel.

O diesel não requer destilação, mas separação de petróleo bruto. Se trata de um hidrocarboneto em si, com uma densidade única composta por parafinas. Portanto, não são necessários produtos petroquímicos que precisam ser importados.

A gasolina é uma mistura de hidrocarbonetos aos quais devem ser adicionados catalisadores químicos para o processo de destilação.

Ouça o artigo no player abaixo e na Rádio Expressa:

 

Qual é o impacto da chegada dos navios iranianos?

No dia 30 de março, saíram do Porto de Bandar Abbas (Hormuz, Irã), cinco navios iranianos (Fortuna, Petúnia, Floresta, Faxon e Cravo), com capacidade individual aproximada de 800.000 barris (127.000.000 litros de gasolina).

No total são 508.000.000 litros de gasolina ou 2.000.000 por dia para o restante deste ano. Desta maneira, haveria capacidade de abastecer 70.000 veículos automotores por dia, aproximadamente 500.000 por semana, ou 25% da frota nacional de veículos.

Com o Complexo de Refino de Paraguaná funcionando a apenas 10% da sua capacidade, que seria o mínimo necessário para ele funcionar, seriam adicionados 7.000.000 litros de gasolina por dia, suprindo assim 100% da frota de veículos, com um excedente de 15%.

Dos cinco navios iranianos, um deles é um navio de carga que transporta os produtos petroquímicos necessários para destilar gasolina. A produção de três anos das refinarias de Amuay e Cardón é de cerca de 72.270.000.000 litros de gasolina, uma quantidade que abasteceria Venezuela por pelo menos 50 anos.

Como fica o bloqueio naval contra a Venezuela?

A IV Frota Naval norte-americana impõe o bloqueio total contra a Venezuela, nas áreas limítrofes com o mar territorial. Com a chegada dos navios iranianos, o bloqueio foi quebrado na prática, pelo menos no componente mais importante da economia. Desta maneira, e após a vergonhosa derrota imposta à Operação Gedeão, fica mais distante a promessa de campanha de Donald Trump de derrubar o chavismo na Venezuela.

A operação comercial Irã-Venezuela precisou ser transformada numa operação de guerra que contou com o apoio nos bastidores da Rússia e da China.

Conforme a crise capitalista continua avançando a passos largos, semi disfarçada pela crise sanitária da covid-19, aumenta a disputa pelo controle do mercado mundial, principalmente entre os Estados Unidos e a China.

O governo de Irã convocou o embaixador suíço, que representa os interesses dos Estados Unidos, e o advertiu com a possibilidade do bloqueio do Estreito de Hormuz, por onde circula por volta da metade do comércio mundial de petróleo caso os navios iranianos fossem sequestrados. A destruição de duas bases militares norte-americanas no Iraque em retaliação pelo assassinato do general Qasem Suleimani com drones em Bagdá, mostrou a alta capacidade dos mísseis iranianos.

O apoio militar aberto da Rússia à Venezuela adicionou um elemento altamente explosivo. Há uma reação contra o aumento das sanções contra a Rússia e a China, principalmente contra a empresa chinesa de telecomunicações Huawei.

A agressividade da principal potência imperialista está longe de ter acabado, mas conforme a crise avança tende a aumentar. Os Estados Unidos precisam de uma guerra, apesar das consequências catastróficas. Precisam militarizar a sociedade por completo e reativar a economia direcionando-a para a guerra. Precisam testar em campo os mísseis nucleares táticos e os novos armamentos.

A Rússia precisa testar os mísseis hipersônicos e, junto com os chineses, precisam testar a capacidade para sustentar amplas operações militares em locais distantes.

Portanto, nos encontramos perante o acirramento acelerado das contradições entre as potências capitalistas na disputa pelo mercado mundial. As contradições não eliminam, inclusive pressupõem, acordos temporais entre os vários blocos.

A disputa política evolui para o conflito militar, sob efeito da pressão da crise capitalista, sobre o qual não há resultados previsíveis.

Ainda não entrou em cena a classe operária mundial e no movimento de massas.

A guerra é contra toda a América Latina

Na América Latina, a burguesia busca voltar a normalidade aplicando a política da “Nova Normalidade”, com a retomada gradual das atividades no, principalmente no Uruguai, Chile, Equador, Peru, Colômbia e Brasil. Ao mesmo tempo crise sanitária da covid-19 avança e se generaliza.

O objetivo principal do imperialismo norte-americano é jogar uma boa parte do peso da crise para a América Latina por meio do aumento da espoliação, principalmente financeira.

Os ataques contra as condições de vida dos trabalhadores avançam rapidamente perante o futuro de hiperinflação e depressão econômica; o estouro das dívidas e as quebradeiras generalizadas; a escalada do desemprego; a redução dos salários ao nível do salário do Vietnam, entre US$ 120 e US$ 200 mensais sem direitos.

A repressão aumenta muito rapidamente.

No Uruguai, o governo direitista avança para impor a Lei Emergencial com quase o dobro de artigos que a Constituição vigente. Alguns ensaios já estão sendo colocados em prática como, por exemplo, quando no dia 20 de maio não foi permitida a tradicional Marcha Anual pelos Desaparecidos da Ditadura Militar, enquanto são retomadas (parcialmente) as aulas, ocasionando a lotação do transporte público.

No Brasil, de acordo com matéria da voz da Rede Globo, Merval Pereira, “Nada menos que 2897 militares integravam em março o governo Bolsonaro, dos três ramos das Forças Armadas, número que pode ter crescido exponencialmente, como o de infectados pela covid-19, pois somente ontem o General Pazuello levou nove militares para trabalharem com ele no ministério da Saúde.”

No Chile, a população começou a protestar nos bairros devido à carestia e à fome. Foram organizadas cozinhas coletivas (panelas populares) para garantir pelo menos uma refeição ao dia para as pessoas.

O governo pinochetista de Sebastián Piñera acelera a aprovação de toda uma série de leis cada vez mais reacionárias para proibir os protestos e fechar a Internet no melhor estilo da Ditadura do sanguinário general Augusto Pinochet.

Por coincidência, os casos de covid-19 aumentam nos países com maior potencial de conflitos sociais. Neste momento, no Chile e no Brasil.

 

Alejandro Acosta – Editor do jornal Gazeta Revolucionária

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