Os bastidores da tentativa de invasão à Venezuela

Por Alejandro Acosta

Os bastidores da tentativa de invasão à Venezuela

A recente tentativa de invasão da Venezuela aconteceu por meio da chamada Operação Gideão.

No dia domingo 3 de maio de 2020, mercenários desembarcaram nas costas de Macuto, do lado da cidade de La Guaira, capital do estado de Vargas, onde se encontra localizado o aeroporto. Oito deles foram capturados por pescadores.

Na segunda-feira, outros oitos mercenários também foram capturados em Chuao, estado de Aragua, pela população. No Puerto La Cruz, foram capturados cinco; em Petaquirito, três. Também houve capturas em Caracaya (Vargas).

Em Zúlia, vários mercenários foram capturados numa fazenda.

Na sexta-feira, o complexo de favelas Petare, localizado no município de Sucre, no estado de Miranda, foi fechado pela polícia que se enfrentou com dezenas de elementos que tinham sido preparados para apoiar a invasão. Os principais enfrentamentos duraram quase todo o dia no bairro (favela) José Félix Ribas.

No sábado, foram capturados mais mercenários. Foram encontradas três lanchas rápidas da marinha colombiana e o FAES (Forças Especiais da Guarda Bolivariana) tomaram a colônia Tovar, procurando duas dúzias de mercenários que teriam desembarcado pelo Porto de Tuja.

As operações de caça aos mercenários continuam em várias localidades.

Os principais mercenários capturados

Dentre os principais mercenários capturados, estão:

– Adolfo Baduel, filho do general Raul Baduel, que tinha dirigido a libertação de Hugo Chávez na tentativa de golpe de estado de 2002, posteriormente ministro de Defesa e depois acusado de corrupção; ainda se encontra preso por esse motivo.

– Dois capitães venezuelanos, desertores do Exército Venezuelano, Antonio Sequea e Victor Pimienta. Pimenta acompanhou a Juan Guaidó na libertação do líder do partido de extrema direita Vontade Popular, Leopoldo López, que aconteceu numa rápida operária militar, estilo comando, que contou com a cumplicidade de alguns militares.

– O agente venezuelano da DEA (Administração para o Controle de Drogas dos Estados Unidos), José Alberto Socorro Hernández.

– Dois soldados norte-americanos, Luke Denman e Airon Berry, que atuavam a serviço da contratista do Pentágono, Silvercorp PMC.

Objetivos principais da Operação Gideão

– Realizar uma grande operação por ondas, que levasse à captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e ao translado dele aos Estados Unidos.

– O assassinato de alguns líderes chavistas, do primeiro escalão do governo e apoiadores.

– Desarticular o governo Maduro e impor um governo controlado pela direita.

Para conseguir esses objetivos, foram treinados 60 mercenários pelos dois norte-americanos que foram infiltrados na Venezuela a partir da Colômbia. Foram criados grupos de apoio em vários pontos do país. Ainda haveria apoio por mar e seriam enviados aviões a Caracas.

Num primeiro momento, seriam criadas cabeças de ponte em locais costeiros, seria atacado o Palácio de Miraflores, onde Nicolás Maduro seria sequestrado; seria tomada a Torre de Controle do Aeroporto de Caracas, além de outros pontos estratégicos, como a cidade de Guarenas, que corta a comunicação com o Oriente do país.

Depoimentos de mercenários presos

Depoimento do soldado norte-americano Luke Denman:

https://www.elciudadano.com/reportaje-destacado-mejor-periodismo/video-de-interrogatorio-mercenario-confeso-al-sebin-que-trump-comanda-invasion-paramilitar-de-silvercorp-en-venezuela/05/06/ (Espanhol) https://www.youtube.com/watch?v=Qhth9jQ9kvg&feature=youtu.be (Português)

Depoimento do soldado norte-americano Airan Berry:

https://www.youtube.com/watch?v=p34-uS4L9-g

Depoimento do agente venezuelano da DEA, José Alberto Socorro Hernández:

https://www.youtube.com/watch?v=dsxRIgbR6-w&feature=youtu.be

Quem financiou a Operação Gideão?

De acordo com declarações de Jordan Goudreau, o dono da Silvercorp PMC, na entrevista realizada pela jornalista Patricia Poleo, teria sido assinado um contrato entre ele próprio, por um lado, e Juan Guaidó e JJ Rendón por US$ 212 milhões pela Operação Gideão. Esse dinheiro não lhe foi pago; teria havido um calote.

https://www.noticierodigital.com/2020/05/jordan-goudreau-con-patricia-poleo-la-operacion-continua-pero-los-politicos-los-abandonarons/

O treinamento dos 60 mercenários que aconteceu na Colômbia, durante um ano, teria sido financiado pelo narcotraficante conhecido como “Doble Rueda” (“roda dupla”), que é um parente de Marta Gonzalez, esposa do general Cliver Alcalá, o dissidente que foi deportado recentemente da Colômbia aos Estados Unidos. Alcalá participava da Operação e tinha sido solicitada a extradição pelo governo da Venezuela.

Luke Denman e Aaron Berry deveriam receber de 50.000 a 100.000 dólares americanos, dependendo do sucesso da operação.

Pontos que devem ser explicados

– A entrevista de Patrícia Poleo com Jordan Goudreau aconteceu enquanto acontecia a invasão dos mercenários na Venezuela.

Patrícia Poleo é filha de um conhecido agente da CIA. Ela possui um canal no YouTube onde apresenta revelações e mantém alta audiência.

Jordan Goudreau é um ex-agente das Forças Especiais do Exército Norte-americano, condecorado pela atuação no Iraque e no Afeganistão, e transformado num contratista.

Nesse nível, existem contratos muito estritos de confidencialidade com o governo dos Estados Unidos. Essa entrevista só pode ter sido parte de uma operação militar.

De acordo com os vários depoimentos, Donald Trump estaria ciente do contrato de US$ 212 milhões com Guaidó, e inclusive teria sido assinado por sua ordem.

Como uma operação militar desse porte teria sido iniciada sem dinheiro. Nem sequer pagaram os US$ 1,5 milhões devidos a cinco dias de assinado o contrato. Quem pagou o início das operações?

Jordan Goudreau, apareceu ao lado do ex-capitão do Exército venezuelano Javier Nieto Quintero falando sobre a Operação Gideão às vésperas dela.

https://www.dailymail.co.uk/video/news/video-2165668/Video-Ex-Green-Beret-Jordan-Goudreau-addresses-arrested-mercenaries.html Esse vídeo foi retirado do ar no dia 8 de maio de 2020.

De acordo com os depoimentos, a Silvercorp PMC contaria apenas com Jordan Goudreau e, neste momento, com os dois soldados presos na Venezuela. Por que não teriam sido usado os serviços de uma empresa maior para uma operação desse porte, como Academi (ex BlackWater) ou Triple Canopy.

O governo Trump ofereceu US$ 15 milhões pela cabeça de Nicolás Maduro e US$ 10 milhões por Diosdado Cabello, o segundo homem forte do regime.

Houve declarações de altos funcionários do governo dos Estados Unidos sobre a necessidade de avançar para um acordo sem Maduro e sem Juan Guaidó.

– A aparente infiltração da Operação Gideão pelos serviços de inteligência venezuelanos, que conta com assessores cubanos e russos.

– A derrota relativamente fácil dos mercenários. Principalmente a derrota da primeira tentativa de desembarco, da qual participaram os dois soldados norte-americanos, altamente treinados e ex membros da Forças Especiais do Exército norte-americano, que foram contidos e rendidos por um grupo de pescadores sem quase ter havido resistência.

O contexto em que a operação aconteceu

– As eleições presidenciais nos Estados Unidos onde há o confronto entre a candidatura de Donald Trump e Joe Biden, este pelo Partido Democrata.

– O maior repasse de recursos públicos às grandes empresas da história.

– A escalada da pressão do imperialismo norte-americano contra América Latina.

– O aumento da espoliação econômica, operacionalizada principalmente por meio de métodos financeiros, impõe o direcionamento à hiperinflação com depressão econômica.

– A escalada da repressão por meio de mecanismos pinochetistas colocados em pé para serem usados conforme a necessidade. Tudo para conter os levantes de massas por meio de brutais ditaduras militares semi-disfarçadas.

– O aumento da crise na Venezuela. O imperialismo precisa apear o chavismo, mesmo que seja por meio de um acordo. Os russos e chineses avançam na América Latina principalmente a partir da Venezuela. O chavismo precisa desesperadamente de um acordo para fazer funcionar a economia, que enfrenta enorme crise, e conter o crescente descontentamento social.

Como a invasão da Venezuela se relaciona com a América Latina?

A recente tentativa de invasão da Venezuela por um grupo de mercenários apoiados pelos governos da Colômbia e dos Estados Unidos, reafirma o que seria quase uma tautologia: no imperialismo e na suposta “democracia” (que mais parece uma brutal ditadura com algum e cada vez mais tênue verniz democrático) não podemos confiar “nem um tantinho assim” como disse o Che Guevara no famoso discurso nas Nações Unidas.

A operação em si teve vários pontos dúbios que mostraram uma série de falhas que colocam dúvidas em relação à própria operação. Mas a análise principal deve considerar em primeiro lugar o desenvolvimento da crise mundial, os gigantescos volumes de repasses de recursos para as grandes empresas e a escalada da repressão, principalmente na América Latina.

Para salvar os capitalistas, estão colocados ataques como nunca vistos contra os trabalhadores e as massas. A região avança na direção de uma brutal hiperinflação e da depressão econômica.

O que aconteceu na Venezuela já está acontecendo no Chile, Uruguai, Brasil, Bolívia, Equador, Colômbia e em toda a região. As veias da América Latina estão cada vez mais abertas.

O futuro que a burguesia imperialista impõe sobre a América Latina é o desemprego e a fome, a disparada do endividamento, a hiperinflação, como o principal mecanismo para repassar o peso da crise sobre os trabalhadores e a depressão econômica.

Para impor os ataques estão colocadas brutais ditaduras pinochetistas, que já avançam de maneira acelerada.

Na Bolívia, aconteceu um golpe de estado impulsionado a partir da própria polícia, o Exército e bandas fascistas, sob coordenação do imperialismo norte-americano, que derrubou o governo de Evo Morales, sem que este tenha tentado organizar a reação real para derrotar o golpe.

No Equador, o governo de Lenin Moreno, o vice do ex presidente Rafael Correa, se transformou num agente direto dos Estados Unidos.

No Uruguai, se encontra em processo de aprovação uma Lei Emergencial com 502 artigos, quase o dobro em relação à Constituição vigente, que passa por cima de todas as liberdades e garantias individuais, até aquelas que foram garantidas por meio de referendos, como o de 2002 que proibia a militarização da segurança.

Na Argentina, o governo aprovou a redução de todos salários em 25% enquanto busca todos os mecanismos possíveis para pagar a dívida pública, até sem nem sequer questionar absolutamente nada, nem os pagamentos realizados pelo governo Macri aos fundos abutres ou os mais de US$ 20 bilhões que foram utilizados pelo macrismo nas últimas eleições nacionais.

No Chile, onde a Constituição de Pinochet de 1980 continua como marco legal vigente, apesar de algumas alterações, o governo Piñera continua na linha de frente do pinochetismo na América Latina. É “o queridinho do imperialismo norte-americano”, o exemplo para toda a região. A política é que as atrocidades que tem sido e continuam sendo aprovadas no Chile, sejam aplicadas no Brasil. E a partir da maior potência regional, sejam impostas em toda a América Latina.

No Brasil, o governo já gastou R$ 1.250 trilhões para salvar os bancos. O Congresso acabou de aprovar, de lavada, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 10-2020 que permite ao Banco Central direcionar recursos públicos, de maneira ilimitada, para a compra de títulos financeiros, que perderam o valor nas operações especulativas, pelo valor inicial, de grandes bancos e especuladores financeiros, até nos Estados Unidos. Várias outras leis estão sendo aprovadas para entregar tudo ao grande capital da maneira mais escandalosa possível. O PLP 39, por exemplo, que foi aprovado pela Câmara dos Deputados, além de autorizar a “securitização” de créditos sem o controle dos orçamentos públicos e permite como contrapartida à “ajuda” do  Governo Federal aos estados e municípios, que estão todos eles quebrados, uma série de contrapartidas, como o congelamento de salário dos funcionários públicos e a entrega de empresas públicas.

Vamos fortalecer a reação contra o imperialismo

É preciso construir, com urgência, um movimento amplo dos revolucionários, dos verdadeiros nacionalistas e democratas, pela nossa sobrevivência e as nossas vidas.

É preciso desvendar as manipulações para expor os ataques do imperialismo e seus agentes.

É preciso manter e fortalecer o compromisso com a verdade e denunciar quem a oculta para manter privilégios.

É preciso denunciar o fechamento do regime e o conjunto de leis super reacionárias que estão passando com o apoio de todos os partidos políticos. As direções sindicais e dos movimentos sociais atuam como penduricalhos desses políticos inimigos dos trabalhadores e, naturalmente, não irão organizar nenhuma reação nem luta.

Algumas organizações da A.L. estão impulsionando uma campanha pela troca de três dos mercenários funcionários dos serviços de repressão norte-americanos por seis presos políticos latino-americanos vítimas da ultra truculência do imperialismo e seus agentes locais. Vejam aqui e apoiem essa campanha:

http://www.gazetarevolucionaria.com.br/index.php/menu-examples/1221-venezuela-intercambio-humanitario-de-prisioneiros?fbclid=IwAR37PdXN-G3VUe6YhjS7rHoAvYNX-tiJvJC7MbOiQQu3SHD2BYbJynUqJq8

 

* Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Foto publicada no site Gazeta Revolucionária / Foto publicada pela REDI Central, da Venezuela / Um dos mercenários, foto de geonoticias.com / Mercenário Luke Denman, publicada no site elciudadano.com / Mercenários capturados, foto: VTV / Foto publicada pela REDI Central, da Venezuela

Ouça o artigo:

 

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