Questionamentos sobre Militares no Brasil

A participação de Piero Leirner* no Duplo Expresso de terça-feira, 19/mar/2019, está aqui:

Para entender melhor este tema, ver também a transcrição publicada da fala de Piero Leirner em 22/10/2018 no Duplo Expresso, em “Sobre Militares no Brasil”.

 

Por Redação, para o Duplo Expresso:

“A transcrição ajudará os que, como nós, ensinamos palavra escrita. O que, repentinamente e contra nossa vontade, nos tornou extraordinariamente modernos e subversivos.” [Nota dos transcritores]

“Mas o que a experiência e a História nos ensinam é que as nações e os governos jamais aprenderam qualquer coisa na História e jamais agiram de acordo com regras que dela poderiam ter derivado. Cada período apresenta características tão peculiares, atravessa condições tão específicas que decisões terão de ser tomadas, mas somente poderão ser tomadas no período e a partir dele.” (HEGEL, Filosofia da História)
À margem, Lênin anotou: ‘Muito sagaz; penetrante e muito sagaz’”.*

Prof. Piero Leirner: Bom-dia a todos. Acho que temos de partir do turbilhão que estamos vivendo nos últimos três dias. E acho que com essa viagem do Bolsonaro para os EUA, as coisas ficaram mais confusas ainda. Não sei se abri mais o campo das incertezas do que dos palpites certos a respeito do que está acontecendo. Ontem tivemos uma conversa sobre o que representaria essa ida do pessoal até a CIA. É uma coisa que está assim, como se pode dizer… uma coisa que está assim tão absolutamente exposta, uma maneira tão acintosa de fazer esse tipo de contato… Enfim, fiquei pensando: “Onde querem chegar com isso?” Depois pensei: “Onde a CIA quer chegar com isso?”

[1h21’25” Romulus mostra/lê postado do Prof. Leiner no Facebook sobre esse assunto]

Prof. Leiner: Não descarto a hipótese [de que esteja em curso uma operação de desmontar Bolsonaro], mas temos de concluir que isso é chegar até a beira do precipício e dar um cavalo-de-pau. É jogada arriscada. E se o Congresso aprova? O que não tenho certeza é se só precisa passar pela Comissão de Defesa Nacional do Congresso ou se vai a votação no plenário. Se for à Comissão de Defesa Nacional, já viu quem está lá, não é? Talvez no Senado a aprovação seja mais difícil… Mas ainda não sei dizer.

O que li hoje pela manhã (na verdade foi de madrugada, que tive insônia essa noite), é que a visita à CIA teria sido a velha história de [entre aspas] “era pra ser na surdina”. E o que aconteceu? Parece que Eduardo Bolsonaro, em algum tuíte, teria dado a própria localização, ou disse que estavam lá… Um descuido…

Mas fato é que o general Augusto Heleno também estava lá. Penso que o Heleno… Sempre me dá a impressão de estar fazendo um jogo duplo entre os militares e Bolsonaro. Obviamente, Heleno está com os militares; mas sempre aparece ao lado de Bolsonaro, como se sua presença endossasse o que Bolsonaro esteja dizendo ou fazendo. Aconteceu a mesma coisa naquele jantar, que também estranho muito. Aquele jantar levanta algumas questões, porque foi quando o Paulo Guedes e até o próprio Sérgio Moro entraram nessa babação de ovo em relação ao Olavo de Carvalho.

Obviamente, foi uma tentativa de “lustrar” a imagem do clã Bolsonaro e passar a ideia de que todos estariam trabalhando em uníssono, muito próximos e tal. Fato é que houve uma série de coincidências.

Estou tendo de montar uma fala, para um congresso, e comecei a montar uma cronologia de coisas que estamos chamando de “guerra híbrida”, mas com atenção aos aspectos mais militares, que envolveram o exército. E me ocorreram algumas coisas…

Maria Lucia Montes, que foi minha orientadora, dizia que a chave para resolver um problema de pesquisa etnográfica, como a nossa, estava bem ali, diante do nosso nariz todo o tempo. Mas se tentávamos olhar de muito longe, não víamos o que estava bem na nossa cara. Pensando nessa advertência, comecei a juntar lé com cré, e algumas coisas começaram a fazer um certo sentido. Vejam…

Como começou esse negócio de “guerra híbrida” com os militares? Vou fazer uma digressão (mas logo vocês vão entender por que vou fazer essa digressão) para pensar esse jogo ambíguo entre militares e Bolsonaro e até onde isso pode ir.

Eu já disse aqui que, lá por novembro de 2014, aparece pela 1ª vez na Internet aquele vídeo do Bolsonaro na AMAN [ver “Duplo Expresso de Domingo” do dia 14/10/2018] ovacionado por muitos cadetes, na formatura deles.[1]

Aquela visita de Bolsonaro à AMAN tem lugar de destaque dessa cronologia, porque Bolsonaro fazendo campanha política na Academia Militar é coisa que só pode ter acontecido com a chancela da cadeia de comando. E ocorre quando? Em novembro de 2014, duas semanas depois, ou três semanas depois das eleições.

Até aqui, temos que, logo depois de confirmada a vitória de Dilma, houve uma decisão (que não sei se foi referendada pelo general Enzo Peri, que era o comandante do Exército naquela época), de franquear ao Bolsonaro o acesso à Academia Militar. Depois, Bolsonaro usará isso como padrão para entrar em diversas unidades militares, para falar com os oficiais subalternos, intermediários, aspirantes, sempre alcançando uma faixa da hierarquia que está distante dos generais.

Seja como for, o general Enzo Peri ficou mais um mês, dois meses, no comando do Exército, e logo assumiu o general Villas Bôas, logo depois disso. Mas Enzo já estava sendo atacado, acusado de corrupção e tal. Ali, Enzo foi ‘fragilizado’. E Villas Bôas entra.

Começa então essa história que só se entende se se assume que o alto comando, a partir de 2014, franqueou o acesso de Bolsonaro às patentes mais baixas e à oficialidade. Ao mesmo tempo, o alto comando faz questão de aparecer como generais apolíticos, legalistas, constitucionalistas. Não sei se vocês lembram, mas Villas Bôas deu entrevistas muito ponderadas, dizendo que o impeachment era coisa traumática, isso já em 2016.

Eu estive pensando nisso concatenando esse movimento com o princípio número um das tais “operações psicológicas” [teoria da dominação] de espectro total, guerras irregulares, ações de contrainsurgência, enfim, todas essas teorias que desembocaram na leitura norte-americana da guerra híbrida. Todas essas teorias ensinam que o objetivo número um de toda a ação de guerra híbrida é conseguir fraturar a cadeia de comando do Estado em geral.

Tendo isso em mente, vejam o que acontece. Tem-se, ao mesmo tempo: o topo da cadeia de comando distribuindo uma mensagem legalista; e a base da cadeia de comando sendo incensada por um sujeito que já se colocava como candidato e como oposição. Vocês concordam que há, sim, algum problema grave, aí, nisso de se gerar uma espécie de fratura controlada na cadeia de comando? [1h29’36”], Então, tudo isso considerado, o que me ocorreu?

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“Acho que a partir de um certo momento, houve uma operação controlada para instaurar, digamos assim, um conflito mais ou menos artificial no interior das próprias fileiras militares.”
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Acho que a partir de um certo momento, houve uma operação controlada para instaurar, digamos assim, um conflito mais ou menos artificial no interior das próprias fileiras militares. Fato é que as técnicas e as mensagens de [para gerar e provocar] dissonância cognitiva foram absolutamente aplicadas. O que se viu foi generais falando uma coisa, a base falando outra: sinais claros de que havia uma contradição muito bem orquestrada.

Não se pode duvidar de que o general Villas Bôas estivesse plenamente ciente do que estava acontecendo. Não é possível que não soubesse. Se há coisa que eles sabem é o que acontece do comando para baixo, nas próprias unidades militares.

Depois, num determinado momento, o mesmo padrão começa a aparecer em outros movimentos. [general Hamilton] Mourão começa também a incensar a tropa. Mas é sempre a mesma “divisão” entre a tropa e o comando burocrático, digamos assim.

Mourão, lá no Comando Militar do Sul, vai e fala para toda a cadeia de comando, começa a incensar [a linha-dura[2]]. Aí, logo depois é exonerado [29/10/2015, O Globo] do CMS e é transferido pra uma posição burocrática até passar para a reserva em 2018. E o que temos hoje? Temos que hoje estão todos trabalhando juntos… Sem a menor cerimônia, compondo a mesma equipe. Na minha avaliação, jamais houve conflito algum. Só posso concluir que essa sequência de eventos está com toda a pinta de ser operação controlada.

Aí, nesse ponto, já estava acontecendo uma coisa, para mim, completamente inusitada. Na minha avaliação, já temos configurada aí uma espécie de parte, vamos dizer, um primeiro módulo de atuação, da guerra híbrida: um grupo de generais muito conscientes de como fazer uma determinada jogada, provocou, deliberadamente, essa situação. Porque ali se tratava de conseguir provocar a adesão [eleitoral] a um determinado candidato. Era a primeira coisa a ser feita. E fizeram.

Do meu ponto de vista, já estavam fechados com Bolsonaro e já tinham esse programa para elegê-lo há muito tempo. Essa história de que ele aderiram de última hora não me convence.

Por que escolheriam justamente Bolsonaro? Essa é a grande questão! Tenho a impressão de que há muitas razões das quais temos falado: primeiro, porque Bolsonaro está com eles; segundo, porque já sabiam muito bem, por teste empírico, dentro da própria tropa, que [Bolsonaro] conseguia canalizar muito melhor os sentimentos que qualquer outro candidato. Em função de tudo que estamos dizendo, dessas características todas, ele encarnava o carisma… Isso era excepcionalmente importante, sobretudo diante do grande problema: neutralizar (de fato) o verdadeiro inimigo, que era Lula/PT… Porque esse era um problema.

Vejam bem: estamos falando da seguinte questão: PT estava no governo. Depois foi tirado do governo, mas naquele momento era governo. E fizeram o quê? Não percam de vista, que se tratava de criar uma fratura dentro do Estado.

Considerem também que Estado algum jamais permitirá que um sujeito faça campanha de oposição no interior das próprias forças armadas. Aceitar que isso seja “normal” é completa insanidade. Mas, simultaneamente, o discurso do alto comando continuava a insistir que estava tudo dentro de uma completa normalidade.

Estou querendo compreender como essa dinâmica aconteceu internamente. Porque ainda não se sabe se estavam todos dispostos, de alto abaixo, do general até o 3º sargento, a embarcar nessa canoa… O que me interessa pensar é: Como esse negócio foi-se espalhando para dentro da tropa?

É óbvio que, paralelamente a esses movimento, todo o mundo social continua acontecendo – Lava Jato, Globo, etc. Sim, mas permanecem dois fatos: era preciso fazer todo um trabalho, de alto a baixo, muito meticuloso, para produzir a adesão a Bolsonaro; e era preciso fazê-lo de modo que, adiante, quando a operação mudasse de fase, a adesão a Bolsonaro não se convertesse em problema. E tenho a impressão de que todos esses generais já sabiam que ocupariam lugar de destaque num eventual governo Bolsonaro.

Acho impressionante que tudo se passe e seja visto como se fossem eventos normais, como se não estivessem acontecendo coisas incríveis, como se as coisas não fossem absolutamente inusitadas, como se fosse absolutamente normal e esperável que Bolsonaro tenha saído espontaneamente de 10% [de intenções de votos] para ser eleito. O que estou vendo é que nada aí pode ter sido “natural”. Houve muitas articulações para que as coisas acontecessem como aconteceram.

Uma segunda articulação, me parece, ocorreu já no governo Temer. A partir do general Etchegoyen. Aí também vejo outra coisa mais ou menos inusitada. Explico: Etchegoyen passa como sujeito distante, mas… Vejam: tem Villas Bôas [de um lado] e Etchegoyen [no mesmo plano] no Gabinete de Segurança Institucional (GSI). E em 2017, como todo mundo se lembra, aconteceu o famoso grampo no Joesley. Claro que é mais uma interrogação minha, um problema que não consigo explicar, mas ninguém ainda me convenceu de que Etchegoyen no GSI, não tivesse conhecimento da armação que estava em andamento entre o Ministério Público e a JBS. Não é possível que não soubesse. Uma armação para pegar o presidente Temer, e o Gabinete de Segurança Institucional não sabia de nada? É inverossímil.

O GSI existe. Ninguém no GSI jamais deixaria alguém entrar grampeado para falar com o presidente da República. É o básico do básico. E na residência oficial do presidente. E o modelo de gravador usado era facilmente achável, qualquer revista o teria encontrado, gravador de camelô. Não era um botão de paletó. Ali, para mim, alguma coisa ficou escancarada. E aconteceu o quê? Aconteceu o grampo.

Temer ficou naquele cai-não-cai, e quase dez meses depois – isso aconteceu em maio de 2017 –, em fevereiro de 2018, Temer assina a intervenção no Rio de Janeiro [16/02/2018, UOL]. Por efeito da intervenção, a partir de fevereiro até 31 de dezembro de 2018, o Congresso ficou completamente bloqueado, paralisado. Foi impedido de fazer qualquer reforma. Aconteceu o quê? Praticamente, todo o empresariado e todo o mercado financeiro foram jogados no colo do Bolsonaro. Bolsonaro passou a ser a única esperança anti-PT, a única via para aprovar as reformas que empresários e finanças tanto querem.

Não sei se faz sentido pra vocês, mas, pra mim, foi uma primeira ação de controle dos militares sobre o próprio Congresso Nacional, com vistas a fabricar um resultado eleitoral depois. Foi um forte impulso. Na época, todos diziam “Temer é fraco, não vai aprovar nada”…

Mas pensem bem: uma intervenção inócua como foi aquela, e para quê? Que objetivo teve aquilo? Só consigo pensar num objetivo para aquela intervenção sem projeto e sem objetivo real. Aquela intervenção só faz sentido se o objetivo fosse travar o Congresso e deixá-lo de mãos atadas…

Da intervenção em diante, tudo passou a ser construído como se as coisas só pudessem funcionar depois de 2018. E as eleições de 2018 foram apresentadas num cenário de Deus-nos-acuda.

Importante era garantir que não haveria nem o mais mínimo risco de o PT ser eleito. E, atenção, estamos falando do PT de Haddad, que já estava amplamente aberto pra fazer as tais reformas. Pois o pessoal nem quis saber de conversa. Porque era problema de cálculo eleitoral, conseguir que a maioria da população votasse numa direção, não em outra.

Nós, aqui, meia dúzia de gente, estávamos vendo o que se passava no discurso do PT – que ia ficando cada dia mais conciliador, mais conciliador… [o PT já ‘descera’ mais um degrau, de Lula para Haddad; da “Carta aos Brasileiros”, para o Insper… (NTranscitores)]. Mas a maioria da população não via nada. A população só via PT – situação, e Bolsonaro – oposição.

Vejam como com o tempo, as circunstâncias vão projetando o plano dos militares, digamos assim, também para os poderes laterais. Naquele momento, Etchegoyen passou a ter o controle de toda a máquina. E muitas coisas já começaram a ser feitas no governo Temer, em 2018. Bolsonaro hoje é apenas uma continuação.

Ao mesmo tempo, ali começava também essa aproximação mais explícita (porque já havia antes), do alto comando militar com o judiciário, com o TRF-4. É quando começa a “sinergia entre as instituições” de que falou Villas Bôas. E tudo vira o que é hoje esse jogo de pressão, pra manter o Lula encapsulado, paralisado, preso, impossibilitado de concorrer. E assim se pavimentou, de uma vez por todas, o caminho do Bolsonaro.

Vejam que isso tudo, que é um processo que começa produzindo essas fraturas dentro do Estado – porque ocorreram em todos os campos –, levou a uma coisa absolutamente caótica. Qual o problema dos generais, hoje? Problema dos generais é repor o país em alguma normalidade.

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Palmério Dória‏ @palmeriodoria 21/3/2019, 17h20

Bloco do golpe se rompeu. O Judiciário rachou, uns querendo a volta da legalidade; outros, a volta do DOI-CODI: o arrepio da lei. O Congresso se dissolveu em grupos. A mídia se perdeu: ser ou não ser Bolsonaro, que enlouquece em queda livre. E os militares voltaram a ser vidraça.
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Quanto a essas coisas de CIA e tal, e todas as ações que estão sendo noticiadas diariamente, uma por dia, a ideia de que os militares estariam trabalhando ‘em oposição’ a Bolsonaro, que seriam uma parte, digamos, racional, do governo, e a parte ligada ao Bolsonaro seriam os idiotas desembestados… Fico pensando… Quanto haverá aí, de discurso dirigido à tropa?! Para “desconstruir” Bolsonaro?

Porque agora se trata de produzirem uma desconstrução, de produzirem na tropa uma “desadesão”. Agora, o importante é separar a tropa dos Bolsonaros…

Todas essas são ideias que estou começando a organizar. Nem sei se fazem algum sentido, mas pra mim parece claro:

Todas essas ações que estão sendo “exibidas”, mostrando muito escancaradamente o entreguismo de Bolsonaro, não tenho dúvidas de que isso tem efeito profundo na tropa e em todas as forças armadas. Erra quem disser o contrário. Não é possível, não é pensável, que todas as forças armadas aceitem tranquilamente esse entreguismo deslavado. Não acontece assim. Só é compreensível, se for parte de uma ação também planejada.

Claro que todas essas ações podem dar errado, mas as cenas do entreguismo, da CIA, tudo isso, na minha avaliação, visam a restabelecer a cadeia de comando, recompô-la, torná-la outra vez mais ou menos íntegra.

Não sei se vocês viram, mas acho que já apareceram algumas notícias, um zum-zum-zum, de que haveria reclamações em escalões de patentes mais baixas, de capitão pra baixo, muito em função da reforma da Previdência…

O problema das forças armadas agora é desfazer o precedente que inauguraram… Desmontar o exemplo que as próprias forças armadas deram, de que é possível fazer política dentro dos quarteis, diante da tropa, com a tropa, usando a tropa. Como é que o comando vai comandar agora, depois de ter aberto os quartéis para um candidato que, depois de eleito, mostra-se desavergonhado entreguista? O que fará o comando para não se expor ao risco de uma insurreição militar? Esse é risco real agora. Esse é o risco a que se expôs o alto comando. É risco grave.

Então entra a tal história: a reforma é ‘do Bolsonaro’, não é dos generais. Bolsonaro é aproximado do Olavo de Carvalho, não dos generais. A imprensa começa a dar atenção enorme ao Olavo de Carvalho, que passa a ser uma espécie de Zé de Abreu do governo Bolsonaro.

Para a mídia, Olavo de Carvalho seria como o homem que controla marionetes sem qualquer problema, como se fosse absolutamente fácil controlar essas marionetes, e como se Olavo de Carvalho soubesse controlar marionetes.

Claro que Olavo de Carvalho está adorando o personagem que inventaram pra ele, que é um bufão, um gozador, e está gostando dos seus cinco minutos de fama.

Mas a jogada geral, me parece, é sempre a mesma jogada, o mesmo movimento: jogar nas costas de um setor todo o saco de maldades e aliviar para o outro setor. E esse outro setor, agora, tem a tarefa necessária de restabelecer a ordem pra não correr riscos depois, quando o jogo começar a ser jogado de verdade.

Não me convenceram. Tenho muito pé atrás em relação a todas essas coisas, essas ambiguidades que estão sendo exibidas pra todos verem. Porque não há como não suspeitar, no mínimo, que a coisa toda foi montada. Que foi pensada. Afinal, podem ter sido anos de preparação, com essa turma se reunindo todas as semanas, se não todos os dias, lá em Brasília. E não era pra jogar carteado no Clube Militar, como faziam nos anos 1990s, construindo teorias conspiratórias.

Dessa vez, eles viram de fato uma brecha para operacionalizar desse modo uma mudança de regime “eleitoral”. Sentaram à mesa e pensaram “Como se pode fazer isso?”

Deve lembrar que muita gente no Brasil tem muita experiência, de longa data, em governo e fora dele, de como construir uma conspiração. Não digo qualquer novidade. A conspiração está na raiz das instituições brasileiras, desde sempre. Não só do exército, mas de muitas instituições.

O que me ocorreu, para explicar esse inexplicável – e, de fato, desnecessário – super entreguismo histriônico, foi que talvez o golpe esteja entrando na fase de precisar provocar a “desadesão” da tropa.

Não que isso signifique que Bolsonaro esteja prestes a cair. Mas talvez seja o momento escolhido para que os generais tentem restabelecer a hierarquia e a ordem.

Não pode ser acaso, que o mesmo tipo de criação/desconstrução de posições esteja sendo sentido também noutra instituição homóloga, que é o Judiciário. Tudo, agora, começa a entrar numa fase de ajuste [“Temer preso na operação Lava Jato”, 21/3/2019, 12h33].

Posso estar enganado. Não sei dizer o que vai acontecer. Estou tentando pensar. Garantido, mesmo, é que não compro pelo valor de face os recentes “movimentos”.

E acho que está havendo ajustes também para dentro do Estado.

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“Ainda não conhecemos todas as variáveis. Uma das coisas que não se sabe é qual é o interesse real do Estado Profundo norte-americano. O estado profundo dos EUA está a fim do quê, com o Brasil? Será que vão empoderar realmente o governo Bolsonaro? Será que não? Será que o jogo é mais deles que dos generais brasileiros? Fato é que esse pessoal é tão maluco que se pode apostar em absolutamente qualquer coisa.”

Sobre “interesse real do Estado Profundo norte-americano”, ver
Brasil, império alugado, delegado, proxy, ‘por procuração’, 20/3/2019
(original em espanhol Nuevo Curso; com tradução em O Empastelador) [NTranscritores]

Sobre o artigo acima, recebemos o seguinte e-mail, de um especialista:
Uma breve divagação [por e-mail], 21/3/2019, 17h42.
Não é à primeira vez que exatamente este balanço foi tentado a partir do Brasil. No final da 2a guerra era esta a proposta, mas EUA achou por bem distribuir as sobras de campanha terrestres para o Brasil e navais para a Argentina. A lógica foi sempre a do “divide e impera”, portanto não se espere que esse “amor” seja muito duradouro. Dura enquanto durar a Venezuela, talvez. Por isso não há como não pensar que o teatro lá evolua para um segundo estágio em pouco tempo… Os militares brasileiros vão ser envolvidos quer queiram, quer não…

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O “plano” pode dar errado? Pode! Ainda não conhecemos todas as variáveis. Uma das coisas que não se sabe é qual é o interesse real do Estado Profundo norte-americano. O estado profundo dos EUA está a fim do quê, com o Brasil? E se empoderarem realmente o governo Bolsonaro? E se tudo isso interessar muito ao jogo deles? Fato é que esse pessoal é tão maluco que se pode apostar em absolutamente qualquer coisa.

Voltando para o começo. Se se vê o problema de Alcântara e da Embraer, houve conversas de foi, não foi, agora vai, não, não vai… É impossível fazer um juízo definitivo, porque não conhecemos o jogo pesado, mais de cima.

Eu acho bem possível que, na hora H, dos militares articularem uma derrubada do projeto de Alcântara no Congresso. Já aconteceu no governo de Fernando Henrique, não seria novidade.

Um interlocutor nosso, ontem, o Emanuel, falou uma coisa interessante em relação à Embraer. Que parece que vários engenheiros e o ITA estariam já se organizando para fazer uma nova companhia. Que não terá as brechas que a Embraer teve e que possa desenvolver outra vez os projetos de forma autônoma e com a soberania resguardada.

Porque há muitos problemas com acabar a Embraer. Não é coisa fácil de fazer. Só aqui onde vivo, em São Carlos, há vários cursos de engenharia, criados exclusivamente para atender à fábrica de Gavião Peixoto. É uma cadeia muito grande. Se a Embraer simplesmente sai, evapora, haverá mais uma crise no setor de engenharia, dessa vez de engenharia fina, não na construção civil…

Não é possível. Não faz sentido algum. Pirassununga está aqui ao lado. Não é concebível que o pessoal da Força Aérea não esteja percebendo o que está se passando.

Seja como for, nada do que eu disse são certezas. São questionamentos. Esses questionamentos podem servir para pensarmos a possibilidade de as coisas terem acontecido como estou conjecturando.

Seja como for, esteja eu certo ou não, também é preciso pensar em quantos mais não estarão vendo coisa semelhante ao que eu estou vendo (que a coisa só avançará até um certo ponto e, dali, terá de recuar). E muitos devem estar-se perguntando qual será esse ponto… E é muito difícil dizer.

Minha avaliação é que os generais têm de ter absoluta garantia de que não haverá possibilidade nenhuma, absolutamente nenhuma, de o fenômeno Lula ressurgir, como elemento que consiga galvanizar as insatisfações em relação ao Bolsonaro. Mas quanto a isso, parece que eles podem dormir sossegados…

Não sei se minha universidade aqui pode ser considerada um microcosmo do Brasil, mas são tantas as coincidências… O professor Nildo Ouriques falou das manifestações marcadas para o dia 22. Pois aqui, por exemplo, não vai acontecer absolutamente nada. Quero dizer: os sindicatos, aqui, marcaram um debate para as 18h. Um debate! Debater não é mobilizar o povo. Estou completamente pessimista com o que acontecerá dia 22.

Quem está no poder também está esperando: querem ter certeza absoluta de que jogaram água suficiente para que nada, absolutamente nada, incendeie essa palha.

E me ocorre ainda mais uma coisa: de um lado, eles têm de ter certeza de que nada galvanizará o povo, motivo pelo qual nada acontecerá sob liderança de Lula. Mas se houve realmente o plano, como estou conjecturando, os generais também têm de ter certeza de que nada acontecerá tampouco sob liderança de Bolsonaro.

Pela minha avaliação, os setores militares precisam do quê, agora? Precisam tirar Bolsonaro do poder, ou, então, reduzir Bolsonaro a papel de coadjuvante, como figura folclórica, que não faz nada, espécie de Jânio Quadros. Que só gerará problemas para os setores que os setores militares não querem que prosperem, e não perturbará os que os generais não querem perturbar.

Por exemplo: parece que os militares não querem comprar briga com as universidades federais. Por que os militares não querem comprar briga com as universidades federais? Por vários motivos, não só pela opinião pública. Verdade é que há hoje centenas de oficiais das forças armadas que fazem cursos em universidades federais. Há intercâmbio entre universidades e as forças armadas. Como ficará tudo isso? Correrão o risco de fragilizar ainda mais a relação entre a tropa e os comandos, também ali, diretamente, no corpo a corpo da vida diária? As coisas não são blocos fechados.

Por tudo isso, para os militares o melhor é transferir as responsabilidades para malucos como Olavo de Carvalho.

Mas Lula e Bolsonaro sempre foram figuras indissociáveis. Hoje, portanto, os militares têm de neutralizar esses dois campos. Uma possibilidade é que desconstruam Bolsonaro e adotem uma via “humanitária” para Lula, ser mandado para casa, diagnosticado com alguma doença terminal, neutralizado.

Há imponderáveis? Há! Hoje, o elemento que menos consigo ler, de todo esse quadro, é o jogo dos EUA. Não se sabe ainda o que querem.

 


* Piero de Camargo Leirner é professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH). Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1991), mestrado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1995) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (2001). Atualmente é professor associado IV da Universidade Federal de São Carlos. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em antropologia da guerra e em sistemas hierárquicos, atuando principalmente nos seguintes temas: hierarquia, individualismo, estado, guerra e militares. Desde 2013 também realiza pesquisa no alto rio Negro, sobre hierarquia em sistemas tukano.

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* LENIN, V.I, Collected Works, vol. 38, Londres, 1961, p. 307. In: FEYERABEND, Against Method: Outline of an Anarchist Theory of Knowledge (1975), traduzido para o português como Contra o Método (1977), Introdução, p. 20, nota 4) [acrescentada pelos tradutores].

[1] “O golpe jurídico-militar-midiático & CIA no Brasil, em 2016, começou a ser preparado com certeza antes de 2014. Porque em 2014 Bolsonaro já estava em ação, por exemplo, na Academia Militar de Agulhas Negras, Rezende, RJ, onde já era aclamado “Líder! Líder!”. Veja e ouça em aqui. Formandos da AMAN são o crème de la crème da elite militar do Brasil, dos quais 70-80% são filhos, netos, bisnetos (se não são, é questão de tempo, porque logo haverá até tataranetos de militares, os quais, nos EUA, são numerados e “encorajados a se desconectar da tecnologia e conectar-se à família”) [na Introdução à primeira “Fala do Prof. Leirner”, em Duplo Expresso, 22/10/2018].

[2] “Pujol substitui o general Antônio Hamilton Martins Mourão, retirado do CMS após criticar o governo federal e deixar que ocorresse em Santa Maria homenagem de subordinados seus a um dos símbolos do regime militar (1964-1985), o coronel Brilhante Ustra. Ustra, já falecido, foi comandante do DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, onde teriam morrido 45 prisioneiros. Mourão vai ocupar a Secretaria de Finanças, aquela de onde veio seu sucessor, Pujol. Troca de comando foi sem incidentes” (sic) [26/1/2016, Gaúcha, Porto Alegre] [NTrasncritores].

 

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