O Sistema Hollywoodiano de Entretenimento e Hegemonia

O banner que ilustra esse texto é formado por três colagens do fotógrafo e artista espanhol Antonio Marín Segovia, de sua série “American Way of Life” (2014).

 

Aqui um recorte da participação de João de Athayde durante o Duplo Expresso do dia 1º/mar/2019, tratando do texto aqui apresentado:

 

Por João de Athayde*, para o Duplo Expresso:

O Sistema hollywoodiano de entretenimento e hegemonia, embora tenha suas origens no teatro, na rádio e na literatura popular, tem seu cerne como o nome o diz, na grande indústria do cinema norte-americana, mas inclui produções para TVs abertas e a cabo, séries, comerciais, clips musicais, desenhos animados, brinquedos, gadgets[JA1] edições impressas e novas mídias digitais, bem como certas redes sociais.

O Sistema Hollywoodiano de entretenimento e hegemonia se baseia na utilização de elementos técnicos, artísticos e financeiros com intuito de transmitir, popularizar e impor mundialmente os seguintes aspectos:

• Valores e modelos morais, estéticos, artísticos e um substrato ideológico que justifique ações políticas, econômicas jurídicas e bélicas. Dentro desse substrato ideológico, transmite-se a ideia de que o pragmatismo norte-americano é algo de lógico, eficaz, natural, admirável e desejável. Este pragmatismo seria tão eficiente, que em seu nome seria justificada ações de brutalidade, ignorando garantias individuais, as características históricas das populações, de suas leis e das normas sociais.

• Versões, (re)leituras e interpretações para fatos e personagens históricos.

• Sobrepor-se às produções audiovisuais e musicais locais (sufocando-as, mas eventualmente trazendo para seu seio alguns de seus expoentes).

• Alimentar uma sensação de intimidade com a língua, a estética, a narrativa, as temáticas preferenciais dos EUA e, secundariamente, de países anglo-saxões. O arcabouço mitológico é anglo-saxão (de cunho protestante) e nórdico-germânico. Essa mitologia torna-se a fonte principal das variações em torno do gênero “fantástico & fantasia”. Essa sensação de intimidade, construída desde a infância, nos traz um sentimento de conforto e pertencimento – Heimat [JA2] – e trabalha no sentido de uma naturalização do American Way of Life, do comportamento e do ideário estadunidense. O conceito de “fun” — uma certa noção de diversão ligeira e um estilo de entretenimento à base de algo de cômico e pueril — joga neste contexto um papel relevante.

• O controle do imaginário futurista. Transmite-se aí a ideia de que as inovações, a tecnologia, a “Defesa da Terra”, a conquista do espaço ou a viagem no tempo são essencialmente mérito estadunidense. Os outros povos — quando representados — seriam meros coadjuvantes. A ideia que se passa é que os EUA, além de dominarem a tecnologia civil e bélica do mundo atual, as dominarão – lógica e consequentemente –, no futuro também. Ou seja, ao longo de sua vida o indivíduo assiste tantas vezes o futuro norte-americanizado ou hollywoodianizado, que termina, mesmo que involuntariamente, por só conseguir imaginá-lo desta maneira. Acaba por criar um sentimento de que não adiantaria lutar ou nadar contra esta corrente, porque o nosso presente e nosso futuro — seja ele utópico ou distópico — já estaria na mão dos estadunidenses.

A hegemonia sobre as tendências estéticas, incluindo o design, é altamente rentável para a indústria. A corrente principal de Hollywood funciona como uma grande agência de propaganda de produtos industriais: quando não faz anúncios diretamente, faz propaganda da “marca das marcas” – o selo genérico “Made in USA”. Mesmo sendo altamente rentável, este aspecto de “venda direta” tem papel secundário no sistema hollywoodiano de entretenimento e hegemonia, cuja função principal é a transmissão dos valores, da filosofia, da ideologia estadunidense de cunho “capitalista-liberal” com forte influência puritana. Esta sim a principal commodity [JA3] Made in USA, deitando as raízes culturais e psicológicas para uma dominação político-econômico-militar.

Todo esse complexo sistema, formado por um emaranhado de interesses por vezes contraditórios, só pode funcionar com excelência e de uma maneira durável se for executado e apresentado de uma maneira artística, inteligente e “tolerante”. Sempre levando em conta a sede de novidades e tendências que caracterizam a modernidade. Assim, ao incluir ou abrir espaço para diversas (não todas!) correntes estéticas, narrativas, comportamentais — e eventualmente até políticas —, alternativas ou de relativa vanguarda, de maneira que essas tenham suas possibilidades de instalação em nichos dentro do sistema hollywoodiano, não se sintam compelidas a criar redes de produção, distribuição e difusão à parte. Essa “independência” poderia ser um fator desestabilizador para o sistema. A autocensura preventiva, porém, acaba filtrando muito das características e do vigor das produções autorais, alternativas ou periféricas que participam (ou buscam participar)desse mercado e sistema. Quando uma dessas produtoras ou redes independentes chega a adquirir uma certa consistência ou influência, tende a ser comprada e/ou incorporada pelas grandes corporações já estabelecidas. Um exemplo de como a autofagia retroalimenta o establishment.

Tanto o indivíduo como os grupos sociais apresentam tendências recorrentes à insatisfação, à contestação e à revolta. Em especial, no sistema capitalista. Um sistema que se quer perene, seja ele estético, moral, mercadológico ou político, trata então de incluir e incorporar de forma controlada ou domesticada sua própria contra-opção, sua própria contestação, sua própria reação ou oposição. O sistema assim pode fazer, a depender das pressões das forças em jogo, até eventuais concessões, mas evita sobretudo uma verdadeira renovação, inversão ou mudança de paradigma.

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Post Scriptum: A partir da observação, constatação e consciência deste sistema, não é que eu pregue que não deveríamos mais assistir suas produções ou consumir seus produtos (mesmo porque, visto a capilaridade do sistema, no estado atual seria um ato de extrema dificuldade), mas selecionar o quê e o quanto assistimos. Sobretudo, devemos reforçar nossa grade de leitura e interpretação, tornando-nos capazes de lançar mão de um olhar crítico e de precauções quando se fizer necessário, (além de filtrar muita coisa, especialmente o junk food [JA4] das produções massivas de baixo interesse artístico e narrativo, um audiovisual puramente “tóxico”). Creio que, para o equilíbrio da balança de nosso olhar e de nossa mente, podemos procurar e nos habituar com produções artísticas, músicas, programas, entrevistas e documentários vindos de outros circuitos, origens, países, regiões, culturas e línguas diferentes.

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JA1Gadgets são pequenos e engenhosos aparelhos dispositivos ou objetos ; tipo de objeto que é mais interessante pela sua ingenuidade ou novidade do que pelo seu uso prático ou durabilidade. 

JA2Heimat é um termo em alemão sem exato equivalente em português. No seu sentido mais imediato Heimat é “pátria”; Heimat porém, se refere igualmente à um lugar específico de origem, como uma região, uma cidade, um vale, um vilarejo. É o lugar específico — incluindo aí o “lugar cultural” e afetivo — com o qual alimentamos um sentimento de pertencimento e intimidade, nos trazendo a sensação de uma “zona de conforto”. Assim, quando vivemos por muito tempo (ou intensamente) num lugar diferente de onde nascemos, podemos passar a nutrir um “sentimento de Heimat” (Heimatgefühl) por este novo lugar, substituindo o primeiro ou, como diz a expressão alemã, considerando-o como um segundo Heimat (Zweite Heimat). É esse sentido de “sentimento de íntimo pertencimento” ao qual me interesso, considerando então que a utilização do vocábulo Heimat no contexto de expressão em língua portuguesa pode ser útil e enriquecedora. 

JA3 – Artigos de comércio em larga escala, especialmente grãos, matérias-primas, produtos industriais de pouco valor agregado, etc. 

JA4Junk Food é a comida de muitas calorias e pouco conteúdo nutritivo, geralmente de baixa qualidade e excessivamente industrializada.

 

Hollywood e sua obsessão por armas…

The Maltese Falcon (“O Falcão Maltês), de John Huston | 1941

 

Pillars of the Sky (“Pilastras da Terra”), de George Marshall | 1956

 

Guns, Girls and Gangsters (“Garotas, Gatilhos e Gangsters”), de Edward L. Cahn | 1959

 

Propaganda na contracapa de Bugs Bunny Comics (“Revista do Pernalonga”) nº76, Ed. Dell | 1961

 

The Longest Day (“O Mais Longo dos Dias”), de Daryl F. Zanuck | 1962

 

Dirty Harry (“Perseguidor Implacável”), de Don Siegel | 1971

 

Death Wish (“Desejo de Matar”), de Michel Winner | 1974

 

Aliens – This Time It’s War (“Aliens, O Resgate”), de James Cameron | 1986

 

The Untouchables(“Os Intocáveis”), de Brian de Palma | 1987

 

Naked Gun (“Corra que a polícia vem aí”), de David Zucker | 1988

 

Terminator 2 – Judgment Day (“O Exterminador do Futuro2 – O Julgamento Final”), de James Cameron | 1991

 

Star Wars – Clone Wars (Star Wars – As Guerras Clônicas), criado por George Lucas | 2008

 

Guardians of the Galaxy (“Guardiões da Galáxia”), de James Gunn | 2014

 

Free Fire (Free Fire: O Tiroteio”), de Ben Wheatley | 2016

 

The Foreigner (“O Estrangeiro”), de Martin Campbell | 2017

 

Blade Runner 2049 (“Blade Runner 2049”), de Denis Villeneuve | 2017

 

 


* João de Athayde é antropólogo carioca residente na França (Aix en Provence). É doutor na Universidade de Aix-Marselha, França, vinculado ao IMAF (Institut des Mondes Africains/ Instituto dos Mundos Africanos) com pesquisa sobre as heranças culturais ligadas ao tráfico de escravos no contexto do Atlântico Negro, em especial sobre identidade, religião e festa popular entre os Agudàs, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a África e o Nordeste Brasileiro. Ele participa e comenta no Duplo Expresso às sextas-feiras.

 

 

Bonus Track:

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