PRECISA-SE OPOSIÇÃO | Nação sob o Poder de um Sistema e Conclusão

Nação sob o Poder de um Sistema e Conclusão | parte 3 de 3

Por Pedro Augusto Pinho*, para o Duplo Expresso

 

Sob Poder de um Sistema

Se estivesse escrevendo sobre o comunismo, uma proposta de mundo como o neoliberalismo, mesmo sem que me entendessem, encontraria provavelmente maior compreensão. Pois, por todo período de dominação estadunidense no Brasil, o exemplo do mal, do inimigo a combater, foi sempre o comunismo. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi a mais forte oposição aos Estados Unidos da América (EUA), e era mais fácil combater seu regime, com ideias que nem sempre correspondiam à realidade, do que o povo ou a Nação.

Observe hoje, caro leitor, a dificuldade em combater um Estado Racista, Belicista, Discriminador e Religioso, como Israel. Qualquer palavra fora da linha, pronto: Lá vem a acusação de antissemita ou de inimigo do povo judeu.

O sistema financeiro internacional – a Banca –, é uma ressurreição do financismo inglês do século XIX, agora com adaptação tecnológica e novos objetivos. Enquanto aquele buscava o empoderamento e o domínio político, a Banca quer apossar-se de todas as rendas, independente da origem (inclusive as ilícitas), e promover a permanente concentração de renda para uma classe sem pátria. Suas duas maiores armas, não excludentes, são a dívida e a corrupção.

Apossar-se dos Estados Nacionais é meta para objetivos estratégicos e operacionais. Os Estados Nacionais, na defesa dos seus habitantes, reduzirão os lucros da Banca inapelavelmente. Isto os neoliberais não permitem.

Também desenvolverão burocracias próprias, resultantes de suas culturas. Será enorme o trabalho da Banca, com atuação planetária, adequar-se aos diversos controles, tributos, processos etc. de cada país. Entretanto, um sistema único, simples, pouco eficiente e com abrangência universal é o desejado pela Banca.

Também – e esta é uma característica importantíssima – a Banca, através do ideal neoliberalista, vive da fraude.

Perceba, caro leitor, quem em sã consciência, sem estar corrompido ou envolvido pelo sistema financeiro, irá preferir o maior lucro para poucas pessoas – os acionistas, ou os rentistas –em detrimento do progresso, do desenvolvimento tecnológico, científico ou industrial de estratégicos segmentos estratégicos nacionais para a população nacional do próprio país?

O engenheiro químico Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás – AEPET, em artigo muito bem fundamentado, intitulado “O Fracasso da Gestão das Multinacionais do Petróleo e as Lições para a Petrobrás” (junho de 2016),[DE1] demonstra que as “Sete Irmãs” (atualmente denominadas majors, big five ou International Oil Companies – IOCs) – ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e Total, vêm reduzindo suas produções, não conseguem repor as reservas de petróleo e perderam a capacitação tecnológica para as estatais e para outras empresas ligadas ao petróleo. Por quê?

Porque passaram, em primeiro lugar, a destinar a maior parcela do lucro para remunerar os acionistas. Os acionistas destas companhias, como de quase todas as grandes empresas de todos os seguimentos industriais e comerciais do mundo, são fundos de investimentos: BlackRock, Vanguard, Charles Schwab, JP Morgan, State Street, Fidelity e Allianz, entre diversos outros. Todos os citados com mais de 2 trilhões de dólares aplicados, segundo dados de agosto/2018. Para estes acionistas, o que importa é a máxima remuneração. Afinal, o que importa é encontrar o paraíso na Terra, e se estiver em alguma ilha do Caribe, melhor…

Os antigos dividendos anuais, hoje com percentagens muito maiores sobre os lucros, são distribuídos em quadrimestres, trimestres ou tempos menores. Isso com evidentes repercussões no caixa das IOCs.

A Petrobras, sob gestão neoliberal, distribuiu em 2018 os seguintes dividendos/juros sobre o capital próprio:
– Em 25/maio e 23/agosto, R$ 0,05 por ação (ON e PN)[DE2] a cada data, totalizando R$ 1,304 bilhões;
– Em novembro, R$ 0,10 por ação (ON e PN), representando outros R$ 1,304 bilhões; e
– Em dezembro, R$ 0,05 por ação ordinária e R$ 0,70 por ação preferencial, agora no total de R$ 4,290 bilhões.

Com menor investimento, quer nas operações, quer em tecnologia (pesquisa & desenvolvimento), as majors vão perdendo espaço e competitividade na área do petróleo. Passam então a corromper governos para se apropriarem de empresas ou segmentos de empresas eficientes e rentáveis. A entrega do Pré-sal e a campanha para venda de refinarias da Petrobras são resultados do Poder da Banca sobre o Governo Brasileiro.

Como se observa no exemplo, não é o interesse econômico ou geopolítico de um Estado Nacional que prevalece. É o interesse de dominação mundial – a Banca se apresenta como global – e da concentração de renda em um sistema (financeiro), como se vê na propriedade de diversas empresas (Ford, General Motors, Amazon, AT&T, Glencore, Apple, Exor, United Health, Novartis, Sanofi etc) que também distribuem gordos dividendos e bônus a seus dirigentes.

Hoje, na polaridade Poder vs Oposição, ressalta-se a necessidade do fortalecimento dos Estados Nacionais contra a Banca e seu neoliberalismo.

Os EUA, com a presidência de Donald Trump, vive conflito interno de Poder. De um lado o Presidente, querendo ressuscitar a hegemonia dos EUA e o Imperialismo Estadunidense. De outro, a Banca, que vem aparelhando o Estado desde Ronald Reagan com objetivos nem sempre convergentes com os interesses nacionais dos EUA.

Vejamos um exemplo de nossa História recente, quando tivemos oposição ao Poder e ao Governo.

Em 1963, após a renúncia do presidente eleito Jânio Quadros. João Goulart (Jango) assume, com poderes presidenciais reconquistados, o Governo. No entanto, seu programa de reformas de base contrariava os interesses do Poder de então: A indústria e a geopolítica estadunidense. Ele tentava aplicar o Poder de um Estado Nacional.

Jango era, portanto, a oposição ocupando o Governo.

Dá-se o golpe de 1964 para repor no Governo um representante do Poder Nacional Estrangeiro. Ainda assim, parcela expressiva das Forças Armadas (FFAA), desejosa de um Brasil Potência, alia-se aos industriais e outros capitais nacionais, principalmente do Estado de São Paulo. Com isso, levam o general Costa e Silva ao Governo em 1967. Há um acerto implícito com a representação do Poder no Brasil. E este Poder já está enfraquecido (recordem as ações da Banca).

O Governo seguinte, do general Médici, descontente com a atuação dos capitais privados, mais voltados para seus enriquecimentos do que para o desenvolvimento da Nação, inicia um modelo de maior participação estatal. De certo modo, é um getulismo que será ampliado com o general Geisel. Agora já em oposição ao Poder Estadunidense. Mas, no mundo, o sistema financeiro empoderava-se na luta contra o poder industrial, então o mais forte nos EUA. E quem aplicará o golpe no presidente Geisel é a Banca e não, como no caso de Jango, os EUA.

Como se observa, Poder, Governo e Oposição nem sempre se apresentam com a nitidez que a percepção popular alcança. Depende de cada instante e dos atendimentos à enumeração hierarquizada que apresentei no artigo anterior desta trilogia “Precisa-se Oposição | Nação Sob Poderes Nacionais Estrangeiros” e, agora, repito:
a) constituir um Estado Nacional Soberano;
b) libertar todo povo das diversas formas de escravidão;
c) construir a cidadania brasileira;
d) garantir segurança e justiça para toda população; e
e) buscar os ideais de paz, de desenvolvimento e de justiça como valores para sociedade.

Dar prioridade para questões identitárias, sem que haja um Estado Soberano, sem escravos, é, de algum modo, fazer o jogo do Poder de nação estrangeira ou do sistema financeiro apátrida. Ou seja, não se qualifica como oposição.

Em relação à Banca, há uma dificuldade adicional. Como sabemos, o discurso da Banca é fraudulento, enganoso. E ela faz uso da corrupção e das dívidas como armas. Os prezados leitores encontrarão a Banca, o sistema financeiro, participando tanto de governos socialistas – como de François Hollande –, como de conservadores – como Nicolas Sarkozy –, na França. Ou de seus representantes no Brasil, como os Fernandos – Collor e Henrique Cardoso –, e de coniventes com ela – como de Lula e Dilma. Também a Banca usará estruturas de Estados Nacionais que ela, ainda que parcialmente, domine – como os órgãos de inteligência ingleses e estadunidenses –, para golpes e insurreições em outros países. As “primaveras” árabes e “revoluções” na Europa Central são exemplos.

Para a equação da fraude, a Banca também usa a distinção suporte/semântica ou significante/significado, da comunicação, confundindo conceitos e percepções. Chama de ditadura ou regime o governo eleito da Venezuela, mas não chama de ditador o rei da Arábia Saudita, onde não há eleições, parlamento ou sequer uma constituição,[DE3] e tem um modelo de governo absolutista, como os anteriores à Revolução Francesa.

A Banca é um retrocesso social também. Traduz-se pela uberização, ou a pejotização do trabalho. Sob a semântica da liberdade, esconde-se a escravidão. A competitividade é o combate sem trégua entre os semelhantes, pois apenas um ficará com o ganho. Os demais são figurantes, perecíveis. É o caminho da morte do emprego, do negócio, da própria vida. E como descreveu com maestria o sociólogo Pierre Bourdieu, a igualdade competitiva é uma impossibilidade em sociedades de classes.

A demografia é inimiga da Banca. Esta não resistirá a pressão populacional. Disto decorre os incentivos a guerras e a provocações bélicas. A Banca lucra com a venda de armas, com financiamentos aos industriais da morte e, acima de tudo, com a eliminação física dos que ousarem pressioná-la por vida e comida.

Grande número de nações, como o Brasil, a Argentina, o Chile, a Colômbia se curvaram ao domínio da Banca. Os resultados, por mais que se procure esconder, são o desemprego e a miséria. Na França, sob a Banca desde o duplo mandato de François Mitterrand (1981-1995), surge um movimento de classe média, os Gilets Jaunes (Coletes Amarelos) que vem, há três meses, tomando as ruas, estradas e estabelecimentos por todo país, em oposição à Banca.

Estados Nacionais como a Rússia, o Irã, a Bolívia se organizaram para enfrentar a Banca. Opor-se à Banca, é hoje, ser oposição.

 

Conclusão

Julian Huxley (1887-1975), primeiro diretor-geral da UNESCO, em artigo intitulado “Crise no Destino do Homem” (1968), afirma:

(…) a mais surpreendente característica do presente momento da História é a de que as coisas estão acontecendo cada vez mais depressa.

Neste sumário sobre as Oposições, vimos como elas vão definindo-se diferentemente. Analisamos uma sociedade ainda impregnada por conceitos medievais e como, em apenas um século, o Poder mudou três vezes no Brasil, passando de Estados Nacionais – Inglaterra e EUA – a um sistema – a Banca.

Huxley continua inquirindo:

(…) onde nos estão levando essas transformações ofegantes? Serão elas sinônimo de progresso, como muitos tecnologistas e desenvolvimentistas nos querem fazer crer?”

A resposta daquele biólogo é não.

A transformação de hoje é demolidora (…) muitas são autolimitadoras ou mesmo autodestruidoras.

O ideário humanista, como de resto qualquer proposição em benefício da sociedade humana, não se restringe, nem é mais relevante, no espiritual. Isso, se acreditarmos na transcendência. Ele concretiza-se no espaço físico da existência. Por isso, o estabelecimento de Estados Nacionais Soberanos é o primeiro passo para qualquer vida boa que se pretenda.[DE4] E a Banca, como vimos, é demolidora destes Estados.

Soberania e Cidadania nos parecem o lema da oposição, hoje. Muito mais do que democracia ou formas de governos. Para que um judiciário que apenas convalidará as iniquidades perpetradas pela Banca? A quem eleger num sistema de fraudes na comunicação de massa e suspeitas na apuração dos votos?

Efetivamente, falta oposição no Brasil atual. Não de oposição de esquerda ou de direita ou camuflada de democrata, mas aquela capaz de lutar pelo Estado Nacional Brasileiro Soberano.

Imagem: Arte com os rostos estilizados de Donald Trump (+ bandeira estadunidense) e Jair Bolsonaro (+ bandeira brasileira) sob os logotipos dos aplicativos de redes sociais – Facebook e WhatsApp, denunciados por suposta difusão de notícias falsas visando manipular os eleitores dos EUA e Brasil nos respectivos pleitos presidenciais. Autor: Carlos Krebs (2019)

 


* Pedro Augusto Pinho é avô e administrador aposentado.

 

Post Scriptum (26/fev/2019)

Se eu estivesse precisando confirmação da inexistência de oposição nos partidos com representação parlamentar, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado teria me dado um presente. São 27 membros. Os 26 votantes, por unanimidade, aprovaram o Roberto Campos Neto para Presidente do Banco Central. Nestes eleitores havia dois do PT: Jean Paul Prates (RN) e Rogério Carvalho (SE), ou seus suplentes Paulo Paim (RS) e Jacques Wagner (BA), pois não consegui a lista de presença.[DE5] Poderia ser uma cortesia parlamentar, não tivesse o sabatinado afirmado, clara e enfaticamente, que iria lutar pela “independência” do Banco Central. Ou seja, que o Banco deixaria de atender ao País para atender ao sistema financeiro internacional. Gostaria, sinceramente, de ter errado no meu artigo. Infelizmente acertei: estamos procurando um partido de oposição…

• • •

DE1 – O texto completo do Engº Químico especialista em Engenharia de processamento, e presidente da AEPET – Felipe Coutinho –, está aqui.

DE2 – Ações são os papéis que representam uma parcela do capital social de uma empresa. Ações ON são as “ações ordinárias nominativas” que permitem a participação nos resultados econômicos de uma empresa a cada intervalo de tempo pré-determinado. Ações PN são as “ações preferenciais nominativas” que permitem ao seu detentor o recebimento de dividendos e, em caso de dissolução desta, o reembolso do capital investido. Em geral, enquanto a primeira (ON) concede direito a voto de forma representativa nas assembleias da empresa, as segundas (PN) garantem preferência na distribuição de dividendos.

DE3 – A Arábia Saudita é o único país árabe que nunca realizou eleições nacionais e onde partidos políticos são proibidos. A Lei Básica, de 1992, declarou o Alcorão como Constituição do país.

DE4 – Fundamental não confundir “estabelecimento” no sentido de constituir, construir solidamente, com establishment, o termo da língua inglesa comumente relacionado com o Poder exercido pela elite social, econômica e política sobre o conjunto da sociedade para desta servir-se.

DE5 – O registro de presença na CAE – apurado pela expressonauta Maíra Valente – está na respectiva aba deste link, e os senadores do PT compõem o bloco parlamentar “Resistência Democrática” junto com o PROS. Ou, para deixar mais claro, com o titular Fernando Collor (AL) e o suplente Telmário Mota (RR).

 

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