Falso dilema ambiental e indigenista ameaça o país

Segue, abaixo, o resumo escrito do comentário desta semana do cientista político Felipe Quintas no Programa Duplo Expresso, com o tema “Falso dilema ambiental e indigenista ameaça o país”. O início da fala de Quintas já está marcado na janela de vídeo abaixo, bastando clicar play para inicia-la.

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Falso dilema ambiental e indigenista ameaça o país

Por Felipe Maruf Quintas, para o Duplo Expresso

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É preciso evitar a falsa polarização entre, de um lado, o ambientalismo/ indigenismo de santuário, defendido por ong’s financiadas por Estados e corporações imperialistas e que procura estabelecer reservas imensas justamente em áreas repletas de recursos estratégicos (minérios, água, etc.) e, de outro, a exploração selvagem e inconsequente da terra e das pessoas por oligarcas locais. Não há, na prática, oposição entre essas posições. Ambas convergem para a desestatização e o não-desenvolvimento de imensas parcelas do território (sobretudo no Norte e Centro-Oeste) e, portanto, para a miséria de sua população, o esvaziamento demográfico, o contrabando e a privatização de riquezas nacionais, a degradação ambiental, o separatismo com base no fomento a identitarismos étnicos, e a fragmentação territorial.

De um lado, o ambientalismo/ indigenismo ongueiro de santuário, ao tornar, ao menos em tese, intocável boa parte do território brasileiro e justamente onde é mais viável haver uma integração com os demais países da América do Sul, como no Norte e no Centro-Oeste, impede que os vastíssimos recursos naturais de toda sorte ali presentes sejam utilizados para desenvolver o país. Muitas reservas estão sobre imensas fontes de petróleo, ouro, diamante, nióbio, urânio, além de água e vários outros recursos ainda não-descobertos. As hidrovias Araguaia-Tocantins e Paraná-Paraguai foram sistematicamente sabotadas por ong’s ambientalistas, destacando-se a WWF.

Como consequência do não-desenvolvimento e da ausência de Estado e de maiores contingentes populacionais, faltam oportunidades para quem lá vive e sobra miséria, que por sua vez leva a mais degradação ambiental (poluição, desmatamento etc.) e torna-se campo livre para a ação de grupos criminosos e exploradores violentos de um extrativismo de baixíssima complexidade mas que só se prolifera em razão do atraso desses lugares. Acaba, então, virando espaço aberto para Estados centrais e grandes corporações de seus países nos ramos de petróleo, gás, farmacêutica e mineração que, curiosamente, financiam muitas ong’s ambientalistas/indigenistas.

Da mesma forma, os vínculos da WWF e da CI com o establishment britânico, assim como o financiamento de todos os governos norte-atlânticos a ongs (WWF, CI, TNC sendo as maiores) e o alinhamento do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento a essas (por exemplo, exigindo a demarcação de reservas ambientais e indígenas almejadas por essas ong’s para a liberação do financiamento a obras estruturantes no Norte e Centro-Oeste), mostram bem os interesses que as movem, que não é de proteger o meio ambiente mas nos manter subdesenvolvidos, nos impedindo de integrar nosso território de modo que todo ele seja povoado em condições dignas. Não à toa, o interesse ambiental delas se dirige a áreas com menor densidade populacional, e não onde as pessoas se concentram, ou seja, nas cidades grandes e médias, pois nelas não há, até onde se sabe, riquezas minerais. Na prática, tal ambientalismo/indigenismo constitui um meio de realização progressiva da antiga cobiça da oligarquia anglo-estadunidense em relação à Amazônia, usurpando-a do Brasil via “internacionalização” e saqueando-a a seu bel-prazer.

O que é preciso é o Estado brasileiro romper com o velho colonialismo (ao qual serve o ambientalismo/indigenismo ongueiro), que direcionou o país e suas vias para o exterior, concentrou recursos no litoral pela subordinação comercial à Metrópole, e impediu a sua integração e ocupação internas, tornando-o suscetível à exploração externa. O Estado nacional, e somente ele, é capaz de fazer isso, devendo de fato nacionalizar todo o território, integrando-o, desenvolvendo-o e povoando-o para dentro através de corredores de desenvolvimento, grandes obras de infraestrutura física e social e projetos de interiorização da indústria que favoreçam a criação de renda, o aumento do mercado interno e a expansão de valor e serviços em todas as regiões, assim como decretando o monopólio sobre as riquezas nelas existentes e aproveitando-as para o desenvolvimento nacional.

Não se trata de nenhuma novidade, uma vez que a Assessoria Econômica de Getúlio Vargas, em nome de seu governo, e o Gal. Albuquerque Lima, Diretor de Vias de Transporte do Exército no governo Castello Branco e quase tendo sido presidente em vez do Médici, defendiam, de maneira semelhante, o desenvolvimento e a povoação do interior do país com reforma agrária, criação de infraestrutura e industrialização lideradas pelo Estado. A Sudam, criada em 66, a Polonoroeste (incluindo a controversa rodovia Cuiabá-Porto Velho) e as obras de infraestrutura da ditadura militar sob o lema “Integrar para não Entregar”, possibilitadas pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) criado por Vargas em 1952, foram exemplos de grandes empreendimentos necessários aos quais se opuseram as ong’s em nome das oligarquias norte-atlânticas.

Por exemplo, reservas ambientais e indígenas não devem ser estabelecidas onde houver grandes jazidas minerais, tampouco abertamente cedidas a corporações estrangeiras (na verdade, só o estabelecimento de reservas nessas áreas sob a vigilância de ong’s já é uma forma de entrega-las ao capital externo). O Estado deveria reservar aos índios uma parte bem menor do território porém suficiente a suas necessidades, de preferência próximo a centros urbanos já existentes ou a serem criados, de maneira a melhorar as condições materiais em que vivem. Deve também nacionalizar a Vale (que jamais deveria ter sido privatizada) para explorar os minerais existentes e articular com empresas públicas e privadas nacionais para eletrificar o Norte e o Centro-Oeste (aproveitando, por exemplo, o urânio para construir parques nucleares), barateando os custos da energia elétrica, recurso básico à industrialização e urbanização; integrar essas regiões com as demais e conferir a elas acesso aos grandes mercados consumidores hoje existentes, através de uma extensa rede de comunicações e de transporte intermodal voltados para dentro, articulando ferrovia, hidrovia e rodovia; nacionalizar a exploração do nióbio para permitir ao Brasil, que tem 98% das reservas desse minério, ditar seu preço internacional, assim como fazer com que a Ceitec (estatal de semicondutores criada no governo Lula) entre no Norte para lá expandir sua produção de alto valor agregado, servindo de base para a emergência de tecnopolos em parceria com universidades e escolas técnicas federais, empresas nacionais, etc.

A nacionalização da cadeia tecnológica com base em nossas riquezas, por sua vez, gerará recursos de grande monta que poderão ser revertidos para o melhoramento urbano e ambiental das cidades que surgirão ou crescerão com a industrialização e desenvolvimento do Norte e Centro-Oeste, integrando a preservação ambiental com a urbanização, com o desenvolvimento produtivo e com maiores contingentes populacionais através de “cidades inteligentes”, por exemplo. Ao mesmo tempo, o Estado também deve zelar pelo melhoramento das condições sociais e ambientais das cidades grandes e médias já existentes, criando regulamentações e incentivos (por exemplo, através de uma Lei de Responsabilidade Social, com metas tão rígidas quanto as da Lei de Responsabilidade Fiscal) para os governos estaduais e municipais cooperarem na ampliação da habitação decente, do saneamento básico, do transporte público sobre trilhos a um preço módico, das áreas livres como parques, praças e jardins, da arborização das vias públicas, desestímulo ao uso de carro de passeio, etc.

Cabe ao Estado, portanto, assumir a tarefa de organizar e desenvolver a Nação, rompendo com a ordem colonial e balcanizante do imperialismo norte-atlântico, que aqui opera também por meio de ong’s bem-intencionadas apenas na aparência. Assim, será possível ao Brasil ser um país maior e melhor do que é, em que os indígenas e não-indígenas não sejam açoitados pela miséria e por jagunços, em que não seja preciso escolher entre um dos lados da mesma moeda do subdesenvolvimento e da degradação nacional, social e ambiental do país: ou a privatização e o não-desenvolvimento via santuários ou a mesma coisa através do extrativismo criminoso, violento e improdutivo por oligarquias locais e estrangeiras. A degradação do meio ambiente na Amazônia e no Cerrado (e em todo o país) é, em grande parte, fruto do atraso que o Império, através das ong’s, quer eternizar nessas áreas para controlá-las e saqueá-las, com o fenômeno da grilagem e do extrativismo ilegal sendo uma manifestação necessária desse atraso.

A atual situação não é, entretanto, um destino. Através da afirmação da soberania nacional sobre todas nossas regiões e da realização do desenvolvimento nacional, integrando nosso país para não entregá-lo, é possível oferecer a todos os nossos compatriotas (que podem ser muito mais do que hoje existem, devido à grandeza e fartura de nosso país) condições para viverem em um Estado de bem-estar social digno do nome.

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Dicas de leitura:

CAMELY, Nazira. Imperialismo, Ambientalismo e Ongs na Amazônia. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.

EIR – EXECUTIVE INTELLIGENCE REVIEW. Máfia Verde: o ambientalismo as serviço do governo mundial. Rio de Janeiro: EIR, 2001.

 

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