Análise: os (des-) caminhos da esquerda em 2019 e a avenida aberta para Bolsonaro

Análise: os (des-) caminhos da esquerda brasileira em 2019 e a avenida aberta para Bolsonaro

  • Não interessa a Bolsonaro ou a quem o levou ao poder uma “Noite de São Bartolomeu”, um expurgo do PT. Basta a inviabilização em eleição majoritária. O antipetismo é hoje um piso político – e eleitoral – dos maiores, senão o maior. Para que abrir mão disso, zerando o jogo? E permitindo a formação de uma nova oposição, sem rejeição tão alta? Em política não há vácuo…
  • Fora isso, para que abrir mão do álibi “PT” no dia a dia de governo com quem se pode polarizar e tirar o foco de qualquer pauta desfavorável?
  • Bolsonaro – e os que o levaram até lá – e o PT (o “sem voto”, de SP) tendem a continuar se escolhendo reciprocamente como adversários político-midiáticos, tentando impedir o surgimento – ou pelo menos a clarificação – da verdadeira polarização atual, no Brasil e no mundo: soberanismo nacionalista (de esquerda ou de direita) vs. Globalismo financista do (zero vírgula) 1% transnacional contra o 99,9% – global. Terão sucesso Bolsonaro e “PT sem voto” nesse mascaramento – a dois – da realidade histórica?
  • O problema da direção do PT (sem voto) é querer fazer do partido o substituto do PSDB como sucursal Clintoniana no Brasil;
  • A centro-esquerda como um todo ainda está em fase de negação e coloca-se, do ponto de vista histórico, no campo reacionário, dos que querem fazer voltar o ponteiro do relógio da história (para o ciclo 1988-2012). As circunstâncias que permitiram a Lula ser um presidente popular já passaram e, enquanto o Bolsonaro já superou essas circunstâncias, a esquerda insiste nelas, acha que tudo voltará ser como antes – e isso nunca acontece.

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Discussão – a várias mãos – no perfil no Facebook de Romulus Maya:

‪Nós do @duploexpresso sabemos mais q ng da podridão na direção atual do PT, controlada p/traíras.‬
‪Atacaram-nos c/td. P/nos erradicar!‬
‪Mas ñ compreendo oq @cirogomes espera ganhar c/essa pancadaria pública. Sobretudo respingando em @LulaOficial, maior vítima desses msm traíras.‬

 

Entrevista de Ciro Gomes a El País Brasil:

 

Discussão:

Marc Nt: Obviamente Ciro vê no PT e em Lula seus principais inimigos. Ele acredita que o governo vai se desfazer antes do fim do ano e que o centro político ficará à deriva. Então se coloca como alternativa palatável para o capital financeiro e para os latifundiários. Ele tentou isso na eleição, ao negar acordo com Lula e antes de o capital optar por Bolsonaro. Para tanto, ele precisa se creditar batendo forte à esquerda, principalmente no PT e aliados, e se colocando como alternativa de centro-direita. É um simples cálculo eleitoral, mas errado, pelo jeito. Arrisca-se a se tornar uma Marina. Porque o candidato alternativo da direita já está escolhido e é o Moro. E Bolsonaro, por mais histriônico que pareça, não é o Collor, que perdeu a tropa ao mandar fechar o experimento da Serra do Cachimbo. Era risível ver gente do PDT criticando quem dizia que havia poucas pessoas na posse do Bolsonazi. Isso dá o tom do que será o alvo que ele vai mirar a partir de agora. O alvo é Lula, o único rival.

Romulus Maya: Marc Nt, e o lulismo popular continua à deriva, sem herdeiro. Incrível. Tem tantos nomes para a Finança antes de Ciro: Moro, Dória, Huck… e quem mais eles quiserem inventar. Até o próprio Haddad, que era o candidato da Finança transnacional no ano passado (lembre da capa e da cobertura da Revista Economist) e não propriamente o Bolso. O problema foi que a correia de transmissão de lá para as elites brasileiras (incluindo as estatais) falhou.
Cada um desses nomes – Moro (“moralização”), Dória (dublê de Bolsonaro pseudo-empresarial), Huck (neoliberal prafrentex), Haddad – com um perfil político-“eleitoral” diferente pra 2022, para melhor se encaixar às especificidades da demanda daqui a 4 anos.
(aspas em “perfil político ‘eleitoral’” porque o candidato só precisa ser suficiente para fazer marola na mídia e nas redes sociais, para criar o clima e uma verossimilhança narrativa. No mais, a fraude eleitoral garante, como em 2018)
Se o cálculo de Ciro for mesmo se cacifar à direita, deveria ter aprendido com a experiência recente, totalmente fracassada.

Ariel Hebert: Pois é, Romulus Maya. Há muitas coisas palatáveis que Ciro diz – no tocante à falta de foco dessa exquerda envolvida com o identitarismo e outras pautas evasivas da realidade nacional – mas ao mesmo tempo, querer centrar fogo em Lula, sendo que o estorvo é a cúpula paulistocêntrica do PT. Mais ainda admira de ele tentar ter atraído Dilma Rousseff para concorrer ao senado no Ceará, sendo que ela não possui vínculo nenhum no Estado além da militância petista, que é um dado por assim dizer pontual, além do mais, fazendo uma obra de terra arrasada como fez com o Brasil a partir do infame Junho de 2013.
Apoiei Ciro na campanha para o primeiro turno e me abstive de opiniões no segundo. Só que de tempo vejo ele meter os pés pelas mãos nessas declarações. Se deseja ter futuro político, se é que se pode observar isso a médio e longo prazo, está fazendo errado. Mais um sintoma de fragmentação, não apenas da exquerda centrada no PT, seja por essa miscelânea de partidos da “dêreita” liberal que entrou neste novo/velho governo e seja por ele, que desejava um caminho centralizado no trabalhismo e desenvolvimentismo. Está errado.
Há um erro considerar Lula esse nome hediondo de “social-liberal”. Lula não é produto de ideologia, mas de um pragmatismo que remonta às origens do PT pelas mãos do Golbery: ele é misto de uma “socialdemocracia” bem à brasileira, que fez o seu welfare state a partir do bolsa família ao passo que seu sindicalismo, como bem sintetizava Darcy Ribeiro, era “tradeunionismo” de corte estadunidense, que faz acordo com as montadoras multinacionais. O restante, foi apenas uns estalos de intuição de animal político.
Calculou mal sua popularidade e prestígio ao se entregar para a PF de Curitiba e foi um erro ou devaneio tolo ter anunciado a descoberta do pré-sal sem investir pesado no aparelho de defesa no núcleo das forças armadas. Poderia ter feito outra História em vez dessa que estamos assistindo. Eu verdadeiramente sinto muito por ele ter se equivocado tanto.

Felipe Quintas: Penso que Ciro procura representar o weimarismo tardio do pacto social de 88, esse centrismo que é meio-tudo (meio liberal, meio nacionalista, meio social, meio democrático, meio popular…) mas não compreende o momento, que é de esgarçamento e progressivo abandono desse pacto e esvaziamento do centro. Nesse sentido, suas palavras tendem a ecoar muito pouco, enquanto Bolsonaro – o único que aponta para a superação desse pacto – mantém-se sem adversário à altura. A centro-esquerda como um todo ainda está na fase de negação e coloca-se, do ponto de vista histórico, no campo reacionário, dos que querem fazer voltar o ponteiro do relógio da história.
A tarefa do Ciro, mas não só dele, tende então a se frustrar. A reorganização da esquerda passa pelo abandono da quimera centrista de 88 e o reconhecimento do caráter agonista e polarizante da política em geral e também da democracia. O que não significa, evidentemente, extremismo de nenhum tipo, como luta armada e sandices do tipo, mas justamente a disputa sem trégua por corações e mentes e o reconhecimento firme de em qual lado se está – a falta desse reconhecimento gerou uma série de vacilações (o famoso “deslocar-se para o centro”) e até mesmo um estelionato eleitoral que o povo, corretamente, interpretou como politicagem e quis dar um basta nisso.
Quanto à falta de representante do lulismo popular, penso que não há tal lulismo popular para ser representado. O voto popular no Lula era um voto estritamente pragmático, não havia, pelo menos fora dos rincões nordestinos, uma identificação ideológica com Lula, tal como ocorrido com Perón e Chávez – nem Vargas conseguiu em proporção semelhante a esses, Brizola ainda menos. Essa rejeição a toda ideologia, o método empirista na política, foi central ao próprio lulismo, mas só se sustentava no ambiente político weimarizado dos anos 90 e 2000, quando bastava se achegar ao “centro” para criar algo próximo de um consenso, sem juízes inquisidores para vasculhar as gavetas do Congresso.
Quando as polarizações nas instituições e na sociedade começaram a se acirrar com cada vez menos chance de trégua, o lulismo foi facilmente derrotado e encarcerado, o método que ele adotava para resolver impasses não se mostrou suficiente. Nesse ponto, como em vários outros, é que o Ciro, mais que o próprio Haddad, se mostrou o verdadeiro “lulista” da eleição, e o mau desempenho dele demonstra a inviabilidade desse nos dias que correm.
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Antes de o Ciro “bater” no PT, o PT bate insanamente nele. O PT divulga mais fake news contra o Ciro – como a de que ele estava na posse do Bolsonaro e de que ele se aproxima dos financistas (foi o candidato mais contrário a esses, na retórica e nas propostas) e latifundiários – que contra qualquer outro, sendo que a recíproca não é verdadeira.
O problema do Ciro é bater errado no PT – tinha que esculachar era a cúpula paulistocêntrica do partido e sua representante-mor, Gleisi Hoffman (o PT sem voto), e poupar o resto do partido e ser neutro em relação ao Lula, para atrair os setores petistas marginalizados e insatisfeitos com a atual direção, justamente os que têm votos. Se fizesse isso, ganharia muita projeção.

Marc Nt: Tem um filme de 1974, profético em certos pontos, do Elio Petri, que vocês devem ter visto e que se chama “A Classe Operária Vai ao Paraíso”:

Nele, o operário Lulu só se preocupa em trabalhar mais para ganhar mais e por isso é malquisto pelos demais. Lulu, num acidente de trabalho, perde um dedo e, a partir daí, começa a adquirir consciência de classe, etc. A maioria dos trabalhadores, sejam do precariado, do operariado, da baixa classe média, pensa como o Lulu, antes de perder o dedo. Tem obviamente uma mentalidade capitalista e quando muito social-democrata. A coisa se resume em trabalhar, ter um carro, uma casa e ir no fim do ano na colônia de férias do sindicato ou pagar algum pacote para viajar de ônibus para algum lugar (de avião e pela CVC, no governo do PT).
Então, tanto Lulu quanto Lula nunca avançaram desse sonho de um paraíso social-democrata e foi esse paraíso que Lula prometeu e promete para os trabalhadores. Não conseguiu dar nem os primeiros passos nisso, com Minha Casa Minha Vida, Bolsa-família e com as cotas. Ao fazer isso, porém, esqueceu que era um mero operário que tinha virado gerente da fábrica por obra e graça da vontade dos patrões, em um momento de descenso internacional do neoliberalismo e desmoralização total das forças armadas após a ditadura militar.
Nada fez que mexesse nas estruturas do Estado, não organizou as massas populares, não lhes explicou que pobreza não é destino é imposição. Acabou sendo culpado pelo empobrecimento e falta de perspectivas gerados (e levemente) pela crise de 2008 e pelos erros fatais da Dilma no campo econômico.
Feito isso, o zeitgeist neoliberal que surgiu com o extremismo de direita como solução para a crise capitalista cevou o antipetismo e o antiLulismo, a partir de 2013. Isso foi um queimar de pontes. As únicas que restavam foram explodidas quando eles, o capital, sem opção, teve que abraçar a candidatura Bolsonaro.
Não interessa se Haddad e sua turma fazem acenos para o outro lado, eles jamais serão respondidos. Não podem mais ser. A destruição da esquerda e do PT é a agenda da hora e não há mais acordo possível. O PT de direita pode se iludir o quanto quiser. Eles ajudaram a derrotar o partido, ou sabiam que a fraude traria a derrota inevitável, mas foi a opção de mandar lula para a cadeia e se fixar no caminho eleitoral que o derrotou por dentro.
A questão que ninguém vê, mas o Felipe Quintas mostra bem ao citar Weimar, é que Bolsonaro não é apenas uma vitória eleitoral. É um cavalo de pau do sistema. Não se pode pensar mais em termos de democracia representativa baseada apenas em eleições. Se fizerem isso, todos estão derrotados com antecedência.
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Concordo, Felipe Quintas, que aí não há santos. Nem Ciro nem PT. Ambos se identificaram como inimigos e não tem mais volta também. Mas a questão é que o PT ainda é um mastodonte e Ciro é um rato que ruge.
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Aliás, viram o artigo da Gleisi no 171 sobre os militares? É ingenuidade ou burrice?

Felipe Quintas: A questão é qual o PT que é mastodôntico. Fora do Nordeste, o PT foi dizimado, e por isso que bater no PT do tucanistão (SP e PR, com seus puxadinhos em RJ e RS), e não no PT como um todo, é a melhor estratégia que o Ciro poderia tomar.

Marc Nt: Seria, mas não é o que ele tem feito. Erro colossal e isso que tem um monte de gente que eu conheço que saiu do PT e foi para o PDT que poderia dar esse toque para ele.

Felipe Quintas: O maior problema do texto da Gleisi é o que ele omite – que a Comissão da Verdade destruiu todo o esforço que o governo Lula teve de levantar as Forças Armadas, e que a militontice esquerdiota insuflada pela cúpula do PT cobrava o julgamento e a punição dos militares acusados de envolvimento com tortura.

Marc Nt: Tem um momento do texto que eu pensei que ela fosse falar nisso e dizer que os militares envergonhados com o passado a apoiaram. Ela quase disse isso.

Felipe Quintas: Quanto ao Ciro, um passo tímido foi dado na última entrevista, mas em termos péssimos, pois “burocracia corrupta” não exprime bem o problema da direção do PT, que não é burocrática nem tão corrupta quanto se diz, mas justamente ser anti-nacional e anti-povo e querer fazer do PT o substituto do PSDB como sucursal clintoniana no Brasil. O Ciro quer ser representante de um momento que já passou e acho bom que já tenha passado, e aí ao invés de ser Putin, como é sua vocação, de fato será mais uma Marina, mesmo muito superior a essa.

Marc Nt: Representante de um momento que já passou. Excelente resumo em uma frase

Roberto Lucena: pega o que o Ariel Hebert e o Felipe Quintas comentaram que já dá o “tom” (para a minha visão). Apontei que o Ciro erra ao mirar o Lula, esse discurso de campanha dele de centro “nem mortadela, nem coxinha” não comove nem uma formiga, pelo contrário, se isolou com isso, porque você tem que encampar um lado da polarização mesmo em vez de apostar num centro pulverizado (que não quer ser simplesmente centro, quer algo mais no “polo” pra se agarrar, pra novamente voltar a “forjar” o “novo centro” político).
O problema do PT é a ala paulistocêntrica, a sede do partido, que está pulverizada, alguém vê renovação nesse PT da cúpula numa Gleisi, Mercadante e cia? Algum desses têm cacife de vencer eleição sem o Lula?
Só que a rejeição ao Lula, mesmo no Sul-Sudeste tende a cair com o insucesso de Bolsonaro, cair, mas não sumir, só que a rejeição ao PT é maior que à da figura do Lula (eu já vejo a coisa dessa forma, no NE não há rejeição ao Lula, mas já há com o PT, se ficar atrelado a essa cúpula de SP). Se o Ciro quiser se cacifar a algo, deixa o Lula de lado (já citaram acima) e mira na Gleisi e na cúpula (novamente ele não deu um pio sobre ela, e deveria, chamar pelo nome mesmo, como ela faz).
O discurso sobre corrupção também acho problemático, é moralismo altamente atrelado à direita, fora que o problema é o que o Felipe cita, é a questão nacional e não “caudilhismo” e outras baboseiras que o Ciro já criticou. Fora que o PDT em muitas partes tá agindo como um DCE, disputando com o PT quem tem o “DCE mais esquerdão”, uma coisa patética, discussão zero enquanto o país vai pro limbo. Não há como emplacar um candidato sem haver um consenso, acordo entre essas partes que se formaram na última eleição, exceto se surgir uma figura mais forte que encampe o discurso nacionalista/trabalhista e que até tome o posto do Ciro e não seja visto como hostil pelo Lula (falo do Lula porque a figura dele ainda tem peso, a cúpula do PT terá que ser escanteada caso esse capo queira chegar a algum lugar, e o Ciro não está conseguindo isso ao mirar o Lula).

Felipe Quintas: Muito bem apontado. Em política, não se foge de uma polarização assumindo um meio-termo, mas criando outra. Como a política é essencialmente polarizante, quem fica no meio do caminho cai num buraco-negro. rs
Só acho – uma hipótese – que a rejeição ao Lula não cairá com o aumento da do Bolsonaro, da mesma forma que a rejeição ao PSDB não caiu com o aumento da do PT e do Lula. A tendência é o Lula seguir, no plano eleitoral nacional, o que Garotinho e Maluf seguiram no estadual: manter uma base firme e expressiva mas uma rejeição que supera em muito essa base e a inviabiliza. O homem é ele mesmo e suas circunstâncias, uma totalidade. As circunstâncias que permitiram ao Lula ser um presidente popular já passaram, e enquanto o Bolsonaro já superou essas circunstâncias, a esquerda insiste nela, acha que tudo voltará ser como antes e isso nunca acontece.

Marc Nt: Bem, acho que Lula vai morrer. Se você olhar o papo dos bolsonaristas, tem uma campanha para mandá-lo para a prisão comum. Lá é morte certa. De resto, concordo contigo.

Felipe Quintas: Se eu fosse bolsonarista, protegeria o Lula, pois ser esquecido em vida é a pior derrota política para um líder, e tem desdobramentos políticos a longo prazo mais desfavoráveis ao grupo dele que a morte.

Romulus Maya: aqui eu volto a repetir o que tenho dito: Não interessa a Bolsonaro ou a quem o levou ao poder uma “Noite de São Bartolomeu”, um expurgo do PT. Basta a inviabilização em eleição majoritária. O antipetismo é hoje um piso político – e eleitoral – dos maiores, senão o maior. Para que abrir mão disso, zerando o jogo? E permitindo a formação de uma nova oposição, sem rejeição tão alta? Em política não há vácuo…
Fora isso, para que abrir mão do álibi “PT” no dia a dia de governo com quem se pode polarizar e tirar o foco de qualquer pauta desfavorável?
Bolsonaro – e os que o levaram até lá – e o PT (o “sem voto”, de SP) tendem a continuar se escolhendo reciprocamente como adversários político-midiáticos, tentando impedir o surgimento – ou pelo menos a clarificação – da verdadeira polarização atual, no Brasil e no mundo: soberanismo nacionalista (de esquerda ou de direita) vs. Globalismo financista do (zero vírgula) 1% transnacional contra o 99,9% – global. Terão sucesso Bolsonaro e “PT sem voto” nesse mascaramento – a dois – da realidade histórica?
De qualquer forma, para que o Bolsonarismo tomaria a iniciativa, ele mesmo, de tirar o PT – esse PT, o “sem voto”… – de cena, rasgando esse véu (pseudo) “polarizador” que possibilita a ocultação da sua filiação ao Globalismo financista?
Não faz sentido.
Bem… se “fazer sentido” ainda for relevante em termos de análise…

Roberto Lucena: Felipe Quintas, rejeição é algo temporário, ou pode vir a ser, veja o caso de Campos, quando Arraes tomou uma sova (de Jarbas) em 1998, ninguém apostaria que o grupo ligado a Arraes voltasse ao poder, os caras já vão no 4o mandato (16 anos), mais do que o que PFL/Arena sonhou em vida. E levou 8 anos até mudar esse panorama, porque o cenário de 2002 ainda era bem conturbado (Jarbas não tinha rejeição recorde em 2002, quando o Lula vence, senão já teria perdido aquela eleição).
O Lula não voltará a ter a força que teve no Sul-Sudeste (força eleitoral), mas a rejeição à figura dele vai diminuir, ao PT não, a rejeição a figuras como Gleisi, Dilma, Mercadante é real, são cartas fora do baralho, por isso que essa insistência desse bando no comando do poder é um apego desmedido ao poder mesmo, porque no voto, na rua, não possuem mais apelo popular algum (apoio). E nisso cabe ao Lula decidir se quer ao menos reabilitar parte do poder que um dia teve ou se morrer abraçado a esse bando desacreditado, carcomido. Tá na mão dele ainda isso, dependendo do desfecho do desgoverno Bolsonaro. Veja que o Lula tinha força de vencer eleição mesmo com rejeição, ele batia Bolsonaro, quando saiu de cena e colocaram um neoliberal banana no posto dele, ocorreu a derrota (o tal apoio que o Ciro pedia e que seria fundamental pruma vitória, mas ele não poderia rejeitar o Lula), que poderia ter sido evitada com um candidato de viés de esquerda mesmo, coisa que o Haddad não é, nunca foi.
Falo do Lula porque essa “esquerda purinha” é minúscula na realidade, veja a votação do Boulos nacionalmente, é pífia, mas essa turma lota “eventos” no Rio e criam aqueles espetáculos com “gente na rua” que são os gatos pingados do partido concentrados num canto só pra espetáculo, não há povo junto.
Há outro fator na questão do Lula, quem manda na Lava Jato, pelo menos pra operar, é a elite, ou parte dela (Globo/MP), não sei se essa turma quer tanto assim o fim do Lula, porque eles sabem que se o Bolsonarismo ruir e a coisa degringolar vão precisar de alguém ‘moderado’ pra negociar, e o Lula ainda representa isso pra eles, sem o Lula o destino dessa elite podre fica em aberto, se uma força mais dura conseguir apoio popular, esse pessoal tá bem ferrado. A Globo já vai começar a tomar bordoada agora (o Mico quer cortar a verba dela com apoio da Record, SBT e cia, rs).

Marc Nt: Como eu disse, Roberto, a questão é que eles foram longe demais no discurso antiPT e antiLula. Queimaram as pontes e romperam as possibilidades de diálogo. E numa situação de crise, nem Gleisi, nem Haddad serviriam para acalmar a malta, teria que ser Lula. Se isso ocorresse, o preço seria alto para eles, obviamente. Mas, daí ele realmente faria o papel de Mandela, que serviu para resolver o impasse na África do Sul.

Roberto Lucena: Marc Nt, meu ponto sobre o Ciro era ele encontrar o Lula e acertar isso. Veja que a Lava Jato (Romulus Maya: trabalhando junto com o “PT Jurídico”) abortou que ele falasse com o Lula pessoalmente na campanha, o que poderia ter evitado muita coisa. Só não sei se isso é mais possível no momento pelo que você aponta, porque ele caiu na pilha da cúpula do PT (que queria ouvir esse discurso pra dizer que “ele odeia o Lula”, etc., e queimá-lo com parte desse eleitorado, via 247 e afins).

[Nota D.E.: como era de se esperar, o Brasil 171, veículo oficial do “PT sem voto”, deitou e rolou, dando amplo destaque – negativo – à fala de Ciro Gomes, com mais de 4 chamadas de capa]

Tem também uma patota próxima do PDT ou com viés mais à direita (já vi mais de um cidadão malhando o regime da Venezuela) que viaja na maionese na questão, estão numa de duelo com o PT remoendo até eleição de 89 com uma narrativa bem contestável do que rolou (que o Lula abortou o Brizola na ocasião e depois). O PT já vinha numa crescente (a capilaridade eleitoral via sindicatos, movimentos sociais pelo país e principalmente em SP) e o PDT se resumia aos redutos do Brizola (RS, Rio, onde foi governador e SC), a surpresa foi o Lula já ter passado o Brizola em 89 (por conta da votação baixa do Brizola em SP), mas a capilaridade do PT continuou crescendo por conta da força dos sindicatos, movimentos sociais, o PDT sem isso foi mixando, fora a campanha violenta que a Globo fez pra destruir a imagem do Brizola pra campanha de 94 (que funcionou). O canal Tattoo no toco apesar de bom, viaja lindamente nessas questões, não prestam muita atenção ao peso da capilaridade de sindicatos, movimentos, universidades etc.
Não acho que o Lula solto hoje seja solução pro país, pelo rumo moderado que tomou, o povo vai cobrar uma saída mais dura e seria melhor ele (Lula) apontar/apoiar alguém com o viés político propício a isso do que ele se ficar na linha de tiro de novo, é necessário haver uma renovação porque ele já tem 72 anos. Um dos problemas pra crise atual do campo popular no país passa também pela não renovação do mesmo (não falo de coisas como o Luiz Marinho, isso não é renovação, é sacanagem, rs).

Felipe Quintas: Roberto Lucena Pode haver de fato uma recuperação da imagem do Lula, mas acho difícil ainda mais com ele preso e sem poder se expor e falar o que acha. O que percebo – espero ser apenas um fenômeno local do RJ – é que ninguém dá bola pra Dilma, Gleisi e Mercadante, ignoram-nos completamente, tudo é o Lula, seja para elogiar seja para criticar, seja para endeusar seja para demonizar. Todos os problemas do governo Dilma foram jogados nas costas do Lula, geralmente só pessoas mais antenadas que diferenciam o Lula da Dilma e do PT em geral.
Veja que colou a imagem do Haddad como candidato do Lula, fora da nossa bolha de debates, parecia evidente para todo mundo que o Haddad era candidato do Lula e duvidar disso parecia coisa de alucinado, e os votos e a rejeição que ele teve eram praticamente todos do Lula, e quem votou no Bolsonaro votou contra o Lula na pessoa do Haddad, não teve essa de “votaria no Lula mas sem ele voto no Bolsonaro”. Por isso não acredito que Lula ganharia essa eleição, ele estava na frente nas pesquisas da mesma forma que Eduardo Paes, Paulo Skaf, Anastasia, Dilma, Requião…
Só que se persoanlizar a discussão, não se avança no entendimento da situação, e a atual situação é de desmanche daquele pacto social de 88, não há mais espaço para políticos que seguem a lógica daquela época, e nesse sentido Bolsonaro já se adiantou, já vive o pós-88 enquanto a esquerda como um todo insiste em ficar em 88 imaginando que tudo voltará a ser como dantes no quartel de Abrantes, e a história a surpreenderá muito mais. Mesmo que a elite mande soltar o Lula para negociar – no que não acredito -, o que ela fez ela sabe que não tem volta, não daria pra voltar a ser como antes, as habilidades do Lula já não são e não serão efetivas nas circunstâncias atuais e vindouras. Tanto que tudo que ele tentou desde 2015 deu em água.

Roberto Lucena: é que é difícil visualizar a reabilitação da figura na adversidade do momento, mas quando o governo que prometeu o “céu” começa a despencar, essa onda de animosidade se volta toda contra o mandatário atual (no caso, Bolsonaro e o bando dele) e isso ameniza o discurso em torno do Lula. Não disse que ele voltará a ter força como antes no Sul-Sudeste, é impossível, mas não ser rejeitado tem peso e dá margem pra enfiar algum político não associado a ele. Por que o Ciro queria o apoio do Lula? Porque sabia do peso, parte do eleitorado do Lula se dividiu no NE, uma parte rejeitava o Haddad de morte (Haddad tem cara de Dilma pruma parte, pelo menos em PE, Dilma é amplamente rejeitada aqui, o Lula não, a Dilma conseguiria se eleger senadora no CE, em PE ela não venceria em hipótese alguma, daí o viés de cada estado, não existe uma figura como Ciro no espectro do estado desde a morte de Campos, pior com a sabotagem que fizeram com a Marília, herdeira direta do campo de Arraes e cia).
Vc mesmo viu na campanha gente dizer que votaria no Lula mas sem ele iria de Bolsonaro, isso é fruto da rejeição ao PT da cúpula, o povo pode não descrever bem mas o povo rejeita fortemente gente como Gleisi, Haddad, Dilma e cia, esse “PT classe média” moralista que tomou o controle da máquina do partido.
A hipótese de soltura do Lula ou de manutenção dele é que a elite joga com essas hipóteses, a própria elite tem convicção de que Bolsonaro deve cair, a elite só quer dele a aprovação da reforma da previdência e certo desmonte, depois vão tentar descartá-lo como fizeram com Collor e colocar alguém mais “equilibrado” (a figura do Mourão entra nisso).

Felipe Quintas: É uma possibilidade também, em política tudo é possível e 2 + 2 pode ser 5 ou 1879. De qualquer forma, acho que estamos entrando em uma nova fase histórica e a esquerda não consegue construir uma oposição efetiva ao Bolsonaro pois estão em dimensões diferentes, com ele mais adiantado. O Ciro não consegue se adiantar para essa nova etapa e, assim sendo, tende a ser varrido com todos que empacarem.
Tenho minhas dúvidas se Bolsonaro cairá que nem Collor. Ele pode até ser descartado, mas o que o levou ao governo, não. E a própria elite pode tomar uma rasteira da história e ser obrigada a se adaptar a um estado de coisas que ela não escolheu, como foi em entre 37-45 e entre 68-78.

Roberto Lucena: Felipe Quintas, acho que comentei isso na sua timeline, da possibilidade de os dois lados em “disputa” “morrerem abraçados” (e a gente junto), se continuarem nessa toada, o povo não tá nem um pouco com saco de saber disso, ou de disputa do PDT x PT em 89 e cia, e isso não acrescenta nada ao momento (exceto saber como cada bloco se formou, mas não é pra criar um rancor em cima dessas coisas). Essa cúpula do PT aparenta que não vai largar o poder de forma alguma, exceto se começar a ter quebra pau dentro do partido com a parte descontente (o movimento que surgir disso, coso pipoque, pode ser interessante). O Ciro teria que se distanciar de certo discurso de DCE do PDT e passar a adotar um discurso mais à esquerda mesmo (nacionalista, o nacionalismo/trabalhismo no país está atrelado à esquerda, mesmo tendo partido de Vargas, a direita afinada com o neoliberalismo não virará nacionalista em hipótese alguma), sem rejeitar isso e parar de devaneio de posar de “centro” (não terá espaço pra isso). Foi bem ridículo aquele vídeo do Ciro falando em mágoa com o Lula após a campanha, política é pra furar olho do outro mesmo, não tem espaço pra esse tipo de coisa, vide a postura do Prestes apoiando Vargas (mesmo após o caso Olga).
A outra hipótese que Felipe Quintas coloca está na mesa, estamos caminhando prum período próximo da 1aGM ou da 2aGM (ou um híbrido dos dois). A elite do país tá a reboque no momento, pensando pequeno (como sempre), já teve que se agarrar a um bode (Bolsonaro) pra impedir o outro campo de levar, e não tem mais 100% de controle sobre tudo. O ponto de interrogação é o grupo dos generais (como chamo o atual governo, vão se livrar de Bolsonaro, os generais vão tentar impor o governo deles).

Felipe Quintas: Esse acerto de contas com 89 entre PDT e PT é significativo de como ambos os partidos não conseguem superar seus traumas de um ciclo que se esgota e portanto se inviabilizam para a política na rotação que está entrando. O passado deve ser um trampolim e não um sofá, e na política como na vida pessoal, crescer é superar traumas e frustrações, quem não os supera fica ridículo e imaturo.
O que me surpreendeu foi o Ciro esperar algo da cúpula do PT. Rs
Ela é o que é e todas as pedras sabem disso, mas esperar apoio dessa turma é brabo. rs

Roberto Lucena: no alvo, a cúpula podre do PT, você bate mesmo sem pena. Se ele tivesse mirado só nesse povo, boa parte do eleitorado, militantes e cia estariam aplaudindo (exceto a parte pelega desses caras, 247 e cia, mas aí ficariam acuados).
E sobre remoer o rancor de 89, é algo bizarro porque aquele canal Tattoo no Toco (que tem centrado fogo nisso, mas não só ele, quem está repetindo essa história está remoendo a mágoa da época) sequer tinha noção da coisa, a narrativa do declínio do Brizola é totalmente equivocada (pelo que citei acima), o Brizola não teria como se projetar pelo cenário que se configurou no país, o PT vinha com a força dos sindicatos, movimentos sociais e apoio de funcionalismo público, universidades etc, que dá essa capilaridade até hoje à sigla (com as diferenças de viés em cada estado), o PDT ficou circunscrito praticamente as áreas onde o Brizola foi governador, apesar de ter pego carona na era Lula e ter feito mais prefeituras pelo país, tanto que tem mais prefeituras hoje que o PT, vou ver se colo um levantamento que um cara fez sobre isso, pra ter real dimensão do tamanho das siglas. O Ciro não tem nem como “remoer” isso porque nem era ou é brizolista (não estou criticando, é só pra constar mesmo). Ou superam isso ou vão morrer abraçadinhos e a gente junto (ficar à deriva vendo o desenrolar dos fatos, tirando as lascas do que der).

 

 

Romulus Maya: Sobre essa questão Brizola vs. Lula 89, só tenho uma qualificação. É ridículo dizer que foi o PT que tirou 89 de Brizola. Mas 89 foi, sim, tirado dele. A década de 80 foi uma sucessão de “golpinhos” do Regime – primeiro a Ditadura, depois a Nova República – para ir desidratando Brizola até a inevitável eleição direta pra Presidente.
Começa com o roubo da sigla PTB e a criação de um rival na esquerda por Golbery (o PT). Segue com a tentativa de fraude da Proconsult. Depois, em 1985, o cerco pra tirar a máquina do Estado do RJ do Brizolismo, para tirar a principal fonte de arrecadação para a campanha para Presidente que viria em alguns anos (caixas oficial e por fora). Dessa operação em particular o PT participou, sim, lançando Fernando Gabeira contra Darcy Ribeiro, em eleição em um único turno que terminou com a vitória de Wellington Moreira Franco. Depois, o aumento do mandato do Sarney em mais um ano. Há quase consenso de que se a eleição tivesse sido em 88 Brizola, pelas intenções de voto então, tinha levado. Já vi até mesmo analista de direita anti-Brizola reconhecendo isso (Lucia Hipólito, que inclusive trabalhava no governo Moreira Franco). Por fim, a fraude na apuração no primeiro turno de 1989 no leste de Minas. A região, próxima ao RJ, era francamente brizolista. A “luz caiu” e, quando voltou, os votos todos tinham virado pro Lula. Lembrando que ambos terminaram empatados em 13%, com uma diferença de meros 100 mil votos – muito menos que os “virados” no leste de MG.
Não foi o PT nem Lula, mas sim o establishment que tirou a vitória de Brizola, culminando com essa fraude na votação. Sabiam que o tarimbado Brizola seria muito mais forte contra Collor no segundo turno. E também sabiam do seu nacionalismo inequívoco, enquanto o PT era então indefinido. Tivesse chegado lá, Brizola teria – entre outras coisas – acabado com a Globo numa canetada.
Lembrando que, mesmo com toda a manipulação (debate da Globo “editado”, caso “Lurian/ aborto/ ex-namorada de Lula Miriam Cordeiro”, sequestradores de Abílio Diniz com camisa do PT, etc.), o segundo turno de 89 terminou em 44 a 42. Dois pontos apenas de diferença!

*

Faço tal comentário totalmente em linha com as observações tanto de Roberto Lucena (“disputa do PDT x PT em 89 não acrescenta nada ao momento exceto saber como cada bloco se formou”) quanto de Felipe Quintas (“passado deve ser um trampolim e não um sofá”). A sequência, acima, de “golpinhos” em Brizola de quem controlava então o jogo serve de ilustração sobre como inviabilizar uma força política relevante em disputas majoritárias sem a necessidade de proscrevê-la ou de expurgá-la numa “Noite de São Bartolomeu”. Serviu para Brizola nos anos 80, pode servir para o PT nesta década.

*

Por fim, para pegar mais impulso ainda nesse “trampolim” histórico-analítico, sugiro a leitura da matéria a seguir, sobre a proximidade, quase fungibilidade – barrada sobretudo pela rivalidade (pessoal) Lula/ FHC – entre o PT de SP e o PSDB. Notem que isso vem desde a origem:

10 coisas que você não sabia sobre a relação entre o PT e o PSDB

PT e PSDB são os irmãos Karamazov da política nacional. Nas últimas décadas, ambos os partidos travaram duelos apaixonados e transformaram o debate público brasileiro num imenso caldeirão, um Fla-Flu. De um lado os azuis, do outro os vermelhos. De um lado o tucano, do outro a estrela. De um lado o professor, do outro o operário.

O que poucas pessoas sabem é que há mais coisas em comum entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia Brasileira do que julga nossa vã filosofia. PT e PSDB nasceram no mesmo lugar, no coração da esquerda paulistana, com concepções políticas e econômicas muito parecidas, e com duas figuras históricas – Lula e Fernando Henrique Cardoso – que não teriam ascendido sem o outro. E tudo isso nunca foi negado por seus criadores. Pelo contrário.

“Nós estamos que nem dois jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos e estamos jogando em times diferentes”, já disse Lula sobre a relação entre os partidos.

“Nossas diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre ideologia”, já assumiuFernando Henrique Cardoso.

De fato, é muito difícil desassociar a história de ambos. O sociólogo francês Alain Touraine, de esquerda, ex-professor e amigo pessoal de Fernando Henrique, chegou a afirmar que o futuro do Brasil seria a união dos partidos. Em 2004, Touraine disse que os governos de FHC e Lula faziam parte de um mesmo projeto. E tal cenário é assumido por seu pupilo. Para FHC, há uma massa política atrasada no país e a polarização entre PT e PSDB serve para tirá-lo desse atraso.

“Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem é que comanda o atraso”, disse.

Aqui, 10 coisas que você não sabia sobre a relação entre os dois partidos que mais pediram o seu voto nos últimos tempos.

1) Lula já garantiu eleição para Fernando Henrique Cardoso. E logo na estreia dos dois na política partidária.

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Foi em 1978.

Fernando Henrique Cardoso era o príncipe dos sociólogos, um membro ativo da comunidade acadêmica paulistana que havia deixado a universidade para abraçar a vida pública. Era sua estreia de gala, o candidato de esquerda na corrida ao Senado pelo maior estado do país, a nova aposta do MDB.

Lula era o sapo dos operários, um líder do movimento sindical que tinha “ojeriza” à política partidária. Convencido por alguns amigos, abriu uma exceção para a candidatura do sociólogo do Morumbi. Pediu em troca sua adesão às bandeiras econômicas dos sindicatos, prontamente atendidas. Tal qual FH, era sua primeira vez nas corridas eleitorais. E a meta era clara: somar o máximo de votos possíveis para Fernando Henrique Cardoso.

Como conta o próprio Lula:

“Acontece que em 78, primeiro ano das greves do ABC, o MDB estava lançando sua chapa de senadores. Algumas pessoas, alguns jornalistas cujos nomes não vou dizer, queriam que a gente apoiasse Cláudio Lembo, da Arena. Fui apresentado a Fernando Henrique Cardoso. Aí fomos para a campanha. Fui representar Fernando Henrique Cardoso em vários comícios.”

Lula levou FHC às portas de fábrica e rodou com ele pelo interior do estado. Era o príncipe e o sapo unidos em torno da criação do mesmo reino – a maior figura daquilo que viria a ser o PSDB com a maior figura daquilo que viria a ser o PT. Num palanque do MDB, com artistas e figuras ilustres da esquerda paulistana, o líder operário irritou-se com a festividade. Virou-se para Ulysses Guimarães eesbravejou:

“O trato é que iria pedir votos só para o Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo sabe que sou o principal cabo eleitoral do Fernando Henrique Cardoso. Agora querem que eu peça votos também pro Montoro. Eu não vou pedir. Se não me deixarem fazer o que eu quero, eu desço e levo o palanque todo comigo, e vamos fazer o comício em outro lugar.”

Era o início de tudo. Fernando Henrique acabaria eleito primeiro suplente do senador Franco Montoro e, quatro anos depois, quando Montoro virou governador, assumiu a vaga, dando princípio à carreira política que o levaria ao cume do poder nacional. Sem o apoio de Lula em seus primeiros passos, nada disso seria possível.

 

2) Eduardo Suplicy, Lula e FHC já dividiram uma casa de praia em Ubatuba

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Na década de setenta, Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa de praia em Picinguaba, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em 1976, entre as indas e vindas de sua vida acadêmica dentro e fora do país, deixou o imóvel nas mãos de um amigo de longa data que conhecia desde os tempos de garoto – um sujeito chamado Eduardo Matarazzo Suplicy.

“Em 1976, aluguei uma casa em Paraty e fui conhecer Picinguaba. O Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa lá, que acabou me emprestando por seis meses quando ele foi para a França. O filho da caseira me mostrou um terreno, onde acabei construindo minha casa, dois anos depois”, conta Suplicy.

Um ano depois, o fundador do PSDB abriria as portas para o fundador do PT e sua esposa – Lula e Marisa – passarem um final de semana no imóvel. Lula ficou extasiado com a paisagem. Só reclamou dos mosquitos.

 

3) Lula e Fernando Henrique Cardoso quase criaram um partido político

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Fernando Henrique Cardoso no alto, à esquerda, Lula no centro da imagem.

No final da década de 1970, Fernando Henrique e Lula participaram de uma reunião no ABC paulista, com intelectuais e dirigentes sindicais, para discutir o que fazer diante da iminente redemocratização no país. Nesse espaço, discutiram acriação de um partido socialista. Mas a ideia não foi pra frente. Como conta o sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT e posteriormente ministro do governo FHC:

“Apesar das muitas afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT e outros, anos depois, o PSDB.”

Segundo Eduardo Suplicy, que reuniu Lula e Fernando Henrique diversas vezes em sua casa para discutir o futuro do país e a possível criação de uma nova legenda, ela só não nasceu pelo conflito de liderança entre os dois:

“Cada um avaliava que seria o líder maior da organização que se formasse. Tinham dificuldade de aceitar a liderança um do outro, e ficava muito difícil para ambos ficar no mesmo partido”, conta.

Por muito pouco, PT e PSDB não se tornaram um único partido.

 

4) Os políticos de PT e PSDB se confundem com a história da esquerda brasileira

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A história dos principais caciques tucanos se confunde com a história dos principais caciques petistas. Juntos, ajudaram a construir a esquerda brasileira.

Fernando Henrique Cardoso sempre foi um estudioso do marxismo, por influência de Florestan Fernandes. Na década de 50, auxiliava a edição da revista “Fundamentos”, do Partido Comunista Brasileiro. Também integrava um grupo de estudos dedicado à leitura e discussão da obra O Capital, de Marx. Em 1981, ao lado de Eduardo Suplicy, ingressou numa lista da Polícia Federal. Era tratado como comunista pela ditadura.

O economista José Serra foi uma das principais lideranças estudantis de seu tempo, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular, grupo de esquerda que revelaria os petistas Plínio de Arruda Sampaio e Cristovam Buarque. Serra é amigo pessoal e conviveu por anos no exílio com a economista petista Maria da Conceição Tavares, uma das principais influências intelectuais do Partido dos Trabalhadores e referência particular de Dilma.

O tucano Aloysio Nunes, vice de Aécio Neves na última eleição, foi membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização guerrilheira liderada por Carlos Marighella – era seu motorista e guarda-costa. Aloysio realizou inúmeros assaltos à mão armada em nome da revolução socialista.

Alberto Goldman, ex-governador tucano de São Paulo, teve uma educação marxista. Foi membro do clandestino PCB durante a ditadura.

José Aníbal, uma das figuras mais proeminentes do PSDB paulista, foi amigo de adolescência de Dilma Rousseff, com quem estudava matemática depois das aulas, e seu parceiro na Organização Revolucionária Marxista Política Operária, também conhecida como POLOP. Aníbal foi um dos fundadores do PT, antes de ser presidente do PSDB.

Juntos, eles fundariam os dois partidos políticos mais relevantes do país.

 

5) Nas eleições de 1989, o PSDB apoiou Lula contra Collor

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Mario Covas, Lula e Brizola.

O recém formado PSDB, criado por dissidentes de esquerda do MDB, lançou o senador Mario Covas candidato à presidência em 1989. Covas alcançou pouco mais de 7 milhões de votos no primeiro turno e terminou a corrida na quarta colocação. O que pouca gente se lembra é que o PSDB apoiou Lula no segundo turno – o PMDB, de Ulysses Guimarães, tentou seguir o mesmo caminho, mas acabou rejeitado pelo Partido dos Trabalhadores. Os tucanos, por outro lado, foram acolhidos. Em almoço com o prefeito de Belo Horizonte eleito pelo PSDB, Pimenta da Veiga, Lula ouviu do tucano:

“Eu tenho também a alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas as forças progressistas do país, nesta tarde, neste almoço. Eu estou certo que isso terá desdobramentos. E acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças em profundidade. E só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças.”

Lula perderia a eleição para Collor em poucas semanas.

 

6) “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”

Lula e FHC

Em 1993, o Brasil passou por um plebiscito sobre a forma e o sistema de governo do país. De um lado, o PT articulava a formação de uma Frente Presidencialista. De outro, o PSDB defendia a implementação do parlamentarismo. Numa conversa informal, Lula e FHC chegaram a conversar sobre um plano em que o operário se tornaria presidente e o sociólogo primeiro-ministro.

Em 1998, como revela numa conversa com o ex-senador petista Cristovam Buarque, FHC recebeu Lula no Palácio do Alvorada e arriscou uma nova previsão.

“Cristovam Buarque: Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?

Fernando Henrique Cardoso: Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: “Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do governo não possa falar com o chefe da oposição”. Era uma época muito difícil para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: “Algum dia nós podemos ter de estar juntos”. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: “Não quero nada de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país, você não pode alienar uma força”. Lula conversou comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse… Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: “Você deixa aqui um amigo”. Foi sincero, não é?”

Em 1999, Fernando Henrique relatou o quanto respeitava Lula. Numa conversacom Eduardo Suplicy, revelou que quando Lula aparecia na televisão falando mal dele, simplesmente desligava o aparelho.

“Fico triste, perco até o humor. Para vocês terem uma ideia do quanto eu gosto e admiro o Lula. Você sabe, Eduardo, o que eu fiz com Lula quando ele esteve comigo no Alvorada, mostrei a ele o meu quarto e disse: “Um dia isso aqui vai ser os seus aposentos”. A gente faz isso com adversário, nem com todos os amigos a gente faz isso. Pois eu mostrei a Lula as dependências da residência oficial em que moro. Mostrei o meu quarto.”

Em três anos, Lula viraria presidente. A profecia tucana se cumpriu.

 

7) Fernando Henrique fez campanha secreta para Lula em 2002

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Nas eleições de 2002, FHC retaliou José Serra, candidato pelo PSDB à sucessão presidencial, por ataques feitos a Lula durante a campanha. Fernando Henrique disse também, em conversas reservadas, que foi um erro o ataque direto ao presidente do PT, o então deputado federal José Dirceu. Dirceu era o petista mais próximo de seu governo e a ordem era que se suspendesse imediatamente as críticas a ele. Seu puxão de orelha foi transmitido ao comando do marketing da campanha de Serra.

Com Lula eleito, FHC iniciou uma campanha secreta em sua defesa. A história é narrada no livro ”18 Dias — Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, escrito por Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e colunista da Folha de São Paulo. Como conta Spektor:

“Lula despachou José Dirceu [que viria a ser o chefe de sua Casa Civil] para os Estados Unidos e acionou grupos de mídia e banqueiros brasileiros que tinham negócios com a família Bush. Disciplinou as mensagens de sua tropa e abriu um canal reservado com a embaixada americana em Brasília. Lula não fez isso sozinho. Operando junto a ele estava o presidente brasileiro em função – Fernando Henrique Cardoso. FHC enviou seu ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, em missão à Casa Branca para avalizar o futuro governo petista. O presidente também instruiu seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma mensagem comum junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci.

Eles fizeram uma dobradinha para dialogar com o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e Wall Street. Fernando Henrique ainda orientou Rubens Barbosa, seu embaixador nos Estados Unidos, a prestar todo o apoio a Lula.”

Sem esse apoio, Lula certamente não conseguira a estabilidade internacional que teve. Não fosse FHC, sua história teria tomado outros rumos. E a do Brasil também.

 

8) O homem forte da economia do governo Lula era… um tucano!

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No início dos anos 2000, Henrique Meirelles deixou de lado uma vida bem sucedida como executivo do setor financeiro para candidatar-se a deputado federal por Goiás. Recebeu 183 mil votos e se tornou o deputado mais votado do estado. Seu partido era o PSDB. Com o sucesso eleitoral e o respeito do mercado financeiro, foi convidado por Lula para ser o primeiro presidente do Banco Central de seu governo, cargo que ocuparia por longos 7 anos. Meirelles ainda receberia as bençãos de FHC, antes de se desfiliar do PSDB e deixar o cargo que havia sido eleito. Lula telefonou para Fernando Henrique para avisar a escolha.

Em 2003, Marcos Lisboa, outro homem forte da economia do primeiro governo Lula, declarou que a equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso merecia uma “estátua em praça pública” por ter promovido os acordos com os governos estaduais e municipais na negociação da dívida e também por ter criado a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Anos mais tarde, Fernando Henrique revelou comemorar as conquistas do governo Lula.

“Eu também comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”, disse.

 

9) Fernando Henrique Cardoso evitou o impeachment de Lula em 2005

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Durante todo governo Lula, duas figuras construíram uma ponte entre o presidente operário e o ex-presidente sociólogo: os então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os encontros foram confirmadospor ambos – Palocci confirmou que esteve pessoalmente com FHC “pelo menos cinco vezes”; Bastos disse ter conversado pessoalmente com o ex-presidente apenas uma vez, em junho de 2005, mas confirmou que os contatos por telefone eram muito frequentes. Lula sempre soube das conversas e, mais de uma vez, em momentos difíceis, sugeria a Palocci: “Vai conversar com Fernando Henrique”.

Em 2005, no auge do escândalo do Mensalão e com a pressão por impeachment, Lula orientou seus dois homens fortes para pedirem a FHC que aplacasse os ânimos da oposição. O tucano aceitou de prontidão. Na conversa com Thomaz Bastos, FHC concordou que um impeachment de Lula, à época uma ameaça real, “tornaria o país ingovernável”. Fernando Henrique dizia que não queria criar “uma cisão no Brasil”. Os tucanos acataram a ordem e a história do impeachment perdeu força.

 

10) Nas eleições municipais (de 2012), PT e PSDB estavam coligados em 999 disputas de prefeituras

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PT e PSDB são tratados como antagonista no cenário político nacional, mas a verdade é que em pelo menos 999 cidades (o correspondente a 18% das 5.569 cidades brasileiras), os partidos fizeram parte da mesma coligação nas últimas eleições municipais. Só no estado de São Paulo, esse número foi de 54 municípios.

Em Schroeder, Santa Catarina, por exemplo, o prefeito eleito foi o tucano Osvaldo Jurck; seu vice foi o petista Moacir Zamboni. Em 149 casos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as chapas que contaram com o PT foram encabeçadas por candidatos a prefeito pelo PSDB.

Tudo como se fossem feitos um para o outro.

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P.S.: Felipe Quintas tem toda a razão quando diz:
– O problema da direção do PT é querer fazer do partido o substituto do PSDB como sucursal Clintoniana no Brasil;
– A centro-esquerda como um todo ainda está na fase de negação e coloca-se, do ponto de vista histórico, no campo reacionário, dos que querem fazer voltar o ponteiro do relógio da história (para 1988-2012);
– As circunstâncias que permitiram a Lula ser um presidente popular já passaram e, enquanto o Bolsonaro já superou essas circunstâncias, a esquerda insiste nelas, acha que tudo voltará ser como antes – e isso nunca acontece.

 

 

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.