Análise: “Frente Democrática” – entre o sonho e a realidade

Por “Montanhesa”(*), para o Duplo Expresso

  • Desperdiçar apoios, bem como gestos de aparente “magnanimidade”, “desprendimento” e “respeito ao povo e à democracia” não é bom para um governo prestes a enfrentar tantas dificuldades.
  • Especialmente porque atender o Nordeste, e seus governadores vermelhos, é relativamente muito barato em termos orçamentários.
  • Além disso, será que o novo governo vai desperdiçar também uma chance de dividir sua oposição?

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A Frente Democrática que está sendo construída não deve se comportar da forma esperada. Há muito de miragem nos anúncios de posicionamento político que estão anunciados nos últimos dias. Não há dúvida que a Nova República faliu, mas parece exagero esperar mudanças revolucionárias de lado a lado no primeiro momento, apesar das aparências em contrário.

Muitos partidos foram derrotados na eleição. Derrotados à presidência, mas com 3 governadores cada, PSDB e MDB vão ajoelhar no milho e se oferecerem de pires na mão para servir ao novo governo.

Certamente, esses partidos vão para o último lugar da fila dos aliados do novo governo e devem pagar alguma penitência. O Centrão que estava na Coligação do Alckmin, na verdade, muito antes do primeiro turno já estava de cabeça na nova (velha) base aliada.

Como no início da gestão Temer, o novo governo começará o jogo com todas as cartas no legislativo, podendo aprovar qualquer coisa que queira, mas com muito mais legitimidade e menos oposição.

Terá também total apoio do judiciário. Em relação à mídia, a situação também não deve ser muito diferente. Desavenças do passado devem ficar por lá, na maior parte.

Essa situação só reforça a posição de pavor nas hostes de oposição, já bastante assustadas com a onda de violência verbal e física que foi vista nas últimas semanas.

A oposição só encontrou uma forma de lidar com isso até o momento: criar uma Frente Democrática. Faz sentido. Essa é uma proposta que deve gerar muitos frutos no futuro, com o inevitável desgaste do futuro governo.

No curto prazo, a Frente deve ter pouca capacidade de constrangimento ao governo. Ela pode ser útil para ajudar a proteger aqueles sob risco de sofrer agressões por parte de milícias e militantes de extrema direita. Em tese, o novo governo pode até torcer para que esse tipo de proteção funcione, porque não deve ter nenhum interesse de que sua imagem seja nacional ou internacionalmente associada com ações violentas contra pessoas inocentes, sem qualquer benefício aparente para a governabilidade e a popularidade.

Mas a existência de uma oposição, além de óbvio, não deve prejudicar os objetivos do novo governo. Inicialmente, ele terá todas as cartas e pode assim ganhar todas as partidas importantes que jogar contra a oposição, mesmo que ela esteja unida em uma Frente.

Todavia, a situação do governo é ainda melhor do que isso. Não deve existir uma Frente realmente unida de oposição. Não deve haver em um primeiro momento nenhuma unidade real entre as forças que perderam a eleição.

Exceto o PSOL, todos os partidos da oposição terão governadores. Entre esses, apenas o PDT será governo em um estado relativamente menos importante, o Amapá. Dessa forma, o PDT, em tese, poderia ter maior desenvoltura para ser oposição ao governo Bolsonaro. O mais provável, porém, é que o PDT não consiga se firmar como o líder da oposição. O PT deve assumir esse papel em razão de ter ido ao segundo turno, mas, principalmente, pelo fato de o próprio vencedor, por conveniência, o escolher como adversário principal. Por que abrir mão da base anti-petista?

Para tornar a oposição mais dividida, deve-se acrescentar que Ciro Gomes e o PT se veem ambos com direito ao protagonismo. Portanto, buscarão papéis diferentes no teatro político. Tudo corrobora para a situação de uma oposição fraca, dividida e de pouco poder ofensivo.

Isso é reforçado pelo fato de os governadores dos partidos de esquerda precisarem manter a cooperação com o Governo Federal. Depois de anos de depressão econômica, os estados do Norte e Nordeste estão ainda mais dependentes do Governo Federal do que já eram.

Após a maior seca da história, não faz sentido que os governadores do Nordeste se disponham a radicalizar contra um poder central que pode ajudar a impedir a volta da fome para milhões de pessoas.

Por esse motivo, não é sensato prever que a oposição tome uma postura destrutiva e irresponsável como a direita parlamentar fez contra Dilma entre 2015 e 2016 ou mesmo como nos mandatos anteriores do PT.

Não devemos esperar desses governadores nem mesmo uma oposição firme e fechada ao diálogo, por exemplo, explicitando as acusações de que o novo governo já esteja preparando para uma nova ditadura ou algo similar.

Dadas as declarações que foram feitas nas últimas semanas por pessoas próximas ou alegadamente próximas à campanha vencedora, ninguém pode dizer que uma nova ditadura seja impossível. Certamente, isso é um risco insuportável para muitas pessoas amantes da liberdade e da democracia. Porém, para governadores eleitos e prefeitos dos diversos partidos de oposição, será muito difícil apostar nessa posição radicalizada e fechada ao diálogo.

Todavia, para os políticos mais claramente de esquerda do PT, PSOL e PCdoB das Regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e mesmo do Norte que estão sem mandato, a lógica diz que precisarão fazer uma oposição contundente, permanente e sem diálogo. Mesmo porque a postura e propostas do governo e as ações concretas da militância de extrema direita nas ruas e no judiciário praticamente os obrigará a fazer isso ou desaparecer. Na maior parte do país, a esquerda derrotada não só pode como precisa ser oposição relativamente radical para sobreviver e despontar nas próximas eleições.

Essa postura é reforçada por uma postura reativa ao Novo Governo ou sua militância, que parecem te escolhido tais partidos de esquerda como adversários preferenciais, tornando improvável o sucesso do diálogo com esses partidos na maioria dos estados.

Nessa situação, os governadores do Nordeste ficam entre o fogo e a frigideira. Não podem se submeter a uma lógica política que interessa apenas a seus correligionários do Centro-Sul do país e que fará com que continuem sendo marginalizados dentro de seus próprios partidos, apesar de serem os grandes puxadores de votos dos mesmos.

Alguns governadores de oposição podem querer arriscar um confronto com o governo, pois já sobreviveram ao segundo governo Dilma e ao governo Temer, e acham que podem sobreviver à gestão Paulo Guedes, vivendo a pão e água. Todavia essa é uma perspectiva otimista, pois o novo governo não deve ser tão “condescendente” com a oposição como foi Temer. Os sinais indicam que haverá mais pressão por “alinhamento”. O governo Pimentel mostra como pode ser difícil a vida de um governador sem recursos para arcar com suas despesas.

Por esse motivo, parece-me improvável que a esquerda se reúna integralmente de forma firme e decidida em uma Frente pela Democracia que busque classificar o governo Bolsonaro como uma ditadura ou qualquer outra forma de caracterização que feche as possiblidade de diálogo. Uma parte da esquerda certamente fará isso. Outra, não.

Faz mais sentido que a esquerda no Nordeste se agregue a uma Frente pelo Desenvolvimento e pela Convergência Regional que busque diálogo e até mesmo certo tipo de cooperação com o novo governo, mesmo que seja frontalmente oposição a diversos pontos da gestão econômica de Paulo Guedes. Mas sem colocar os dois pés na Frente pela Democracia contra um governo que se diz democrático, mesmo que tenha divergências ideológicas.

Nesse sentido, parece-me mais provável que o PDT, o PSB e parte do PT e do PCdoB do Nordeste prefiram se unir a uma Frente pelo Desenvolvimento que busque o diálogo com o governo federal, talvez até diferenciando Paulo Guedes de Bolsonaro para poder compatibilizar um discurso de “oposição responsável”.

Essa posição é facilitada pelo fato de, até agora, não ter havido empenho real nos questionamentos materiais (jurídicos ou oficiais) à legitimidade das eleições por parte dos candidatos derrotados. Portanto, nenhum político de esquerda do Nordeste poderá ser muito cobrado se buscar se diferenciar da Frente pela Democracia. Especialmente se o objetivo for impedir o crescimento do desemprego, da carência de serviços públicos e da miséria em seus estados.

A criação de uma Frente de Governadores e Prefeitos pelo Desenvolvimento e pela Convergência da Renda Regional pode não ser excludente em relação a uma Frente pela Democracia, mas certamente pode esvaziá-la significativamente.

É possível que a primeira Frente venha a ser liderada pelo PDT, cujo principal líder é nordestino. Já a segunda deve ser liderada pelo PT, cuja executiva é majoritariamente constituída por políticos do Sul e Sudeste, onde a oposição radical ao novo governo dará mais frutos a curto, médio e longo prazo.

Além disso, o PT tem os políticos que melhor se encaixam no figurino anti-bolsonaro, como Lula, mesmo porque o Bolsonaro é antes de tudo anti-PT. Se o PT não fizer isso, acabará perdendo credibilidade e espaço no Sul, Sudeste e Centro-Oeste para o PSOL, cuja liderança pode ainda se despontar como símbolo da oposição. Algo que já ocorreu, por exemplo, no importante colégio eleitoral do Rio de Janeiro, onde “ser de esquerda” e “votar no PSOL” passaram a se confundir.

A probabilidade de que o governo Bolsonaro seja malsucedido não é pequena. Quem fizer oposição a ele de forma mais clara tende a estar bem posicionado nas próximas eleições, caso se siga apostando na lógica eleitoral e na lisura das mesmas.

Todavia, não é impossível que Bolsonaro seja parcialmente bem-sucedido. Nesse caso, aqueles que apostarem em uma “oposição aberta ao diálogo” podem ser bem-sucedidos. E ainda há a possibilidade de mudarem de “oposição construtiva” para oposição radical com o tempo, sem grandes custos.

Dessa forma, seria irracional esperar que ninguém assumisse a posição de uma “oposição construtiva” e aberta ao diálogo, ao menos pela oportunidade de ocupar um importante espaço político vago. Em um primeiro momento ao menos, haverá muita demanda pelo papel de “oposição responsável” e que busca “a unidade da Nação antes do benefício pessoal”, como dizem retoricamente os candidatos a presidente derrotados nos EUA.

Alguém poderia dizer que a oposição dividida será esmagada pelo conjunto de forças que se uniram em torno de Bolsonaro. Isso não é improvável, mas não muda o imperativo lógico colocado nos parágrafos anteriores.

Especialmente porque o próprio governo deve incentivar uma “oposição responsável”. Engana-se quem acha que tudo será um mar de rosas para o governo Bolsonaro, mesmo se atingir os objetivos pretendidos. Temer é o exemplo óbvio que mostra que o apoio do legislativo, da mídia e do judiciário não é suficiente para fazer um governo bem-sucedido. Lula, ao ser visto como a antítese de Temer, estava em primeiro lugar nas pesquisas, até ser definitivamente afastado da possibilidade de se candidatar, num (não muito bem disfarçado) arranjo entre Judiciário e elementos do seu próprio partido.

Portanto, que político sem mandato desperdiçaria a chance ou resistiria à tentação de se posicionar como líder da oposição a Bolsonaro, que assume um governo com tantos desafios?

Isso torna imperativo que Bolsonaro, por meio da Casa Civil ou de seus ministros militares, busque também dividir a oposição usando os governadores do Nordeste. Os desafios do governo Bolsonaro são muito maiores do que parecem e não faz sentido para ele abandonar a possibilidade de conquistar os votos, empatia e apoios no Norte e Nordeste, mesmo porque o apoio no Centro-Sul tende a cair com os desgastes naturais que qualquer governo tem com a classe média, empresários e com sua própria base política local, que certamente vai se dividir nas próximas eleições.

O conjunto de contradições dentro do bloco de apoio a Bolsonaro deve transparecer em breve. Ainda maiores são as contradições entre seus projetos e os desafios materiais que serão impostos pela realidade brasileira e internacional.

Desperdiçar apoios, bem como gestos de aparente “magnanimidade”, “desprendimento” e “respeito ao povo e à democracia” não é bom para um governo prestes a enfrentar tantas dificuldades. Especialmente porque atender o Nordeste é relativamente muito barato em termos orçamentários. Além disso, será que o novo governo vai desperdiçar também uma chance de dividir sua oposição?

Nesse sentido, me parece quase inevitável que a oposição se divida em uma Frente (democrática) frontalmente contrária e uma Frente (desenvolvimentista) que busca o diálogo com o governo federal. Isso parece provável, a menos que alguma das forças políticas do país tenha menos racionalidade do que o esperado. Certamente, a arrogância, a prepotência e a falta de prudência limitam a racionalidade. Nesse caso, os resultados são tão imprevisíveis quanto foram os últimos anos.

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(*) “Montanhesa” é o pseudônimo de certa observadora privilegiada da política nacional.

 

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