Moinhos de Vento ou Reflexões sobre a Eleição de 7 de outubro de 2018

Por Pedro Augusto Pinho*, para o Duplo Expresso

Os fatos históricos estão sujeitos a uma dupla ordem de especulação e de conhecimento: em primeiro lugar podem ser vistos e estudados como um fato, que se verificou em condições de tempo e de espaço determinadas. Partindo desse ponto de vista, o conhecimento que obtemos é descritivo, e nele se compreende não só a identificação e caracterização do fato, como o estudo de seus antecedentes, das influências externas ou internas que agiram sobre ele e sobre seu protagonista. A segunda ordem de conhecimento a que me refiro é o conhecimento simbólico: um fato histórico ao se projetar no tempo adquire um sentido…. Depois de iluminar o mundo real, tornando-se inteligível, um incessante intercâmbio se inicia, pois irradia sobre a existência a sua força persuasiva, e recebe da consciência humana novos matizes de compreensão” (San Tiago Dantas, D.Quixote um apólogo da alma ocidental, 1947)

Os jornais, impressos e virtuais, noticiaram como manchete, na segunda-feira, após as eleições de 7 de outubro, a vitória da direita: “onda de direita”, “virada à direita”. Teria efetivamente ocorrido?

Confronto dos dados com as interpretações

Tomemos para análise o mais importante órgão representativo da democracia brasileira, o Congresso Nacional.

Considerando como de centro-esquerda, esquerda ou extrema-esquerda os parlamentares do PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PPL, Rede, PMN e PV, temos, na atual legislatura, 129 deputados federais. Teremos 142, em 2019.

No entanto, quer para esta conta quanto aquela para os partidos à direita, não é o raciocínio, a lógica política e ideológica que prevalecem. São as emoções e as questões pessoais que movem os parlamentares, seres humanos. Vejamos, por exemplo, Marina Silva. Seu posicionamento político a colocaria à esquerda, mas seu ódio a Lula e a Dilma, que ela considera usurpadora de seu direito de candidata do PT à eleição em 2010, supera a lógica partidária.

Também questões municipais, estaduais, rixas de família levam a estes partidos de esquerda – como os de direita – políticos que não comungam com seus posicionamentos programáticos.

Nos partidos de direita, o que se observou foi a migração do centro-direita e da direita para a extrema-direita. PSDB sai de 49 para 29 deputados federais; o DEM de 43 para 27, o PP de 40 para 36 e o PR de 38 para 33 parlamentares.

O Congresso Brasileiro sempre foi majoritariamente de direita, em suas diversas expressões. A esquerda sempre foi minoria, oposição. Os avanços sociais foram obtidos por acordos e sujeições a interesses menores. Os avanços nacionalistas a governos fortes, autoritários ou ditatoriais, deixando esta qualificação aos sentimentos dos leitores.

Em sua coluna, Fatos&Comentários, no jornal Monitor Mercantil de 08/10/18, o percuciente Marcos de Oliveira escreve: “Candidatos a governador parecem síndicos de massa falida, longe da questão nacional. Presidenciáveis são pressionados a revelar quantos policiais vão contratar ou quantas creches construir. Nada sobre a direção do Estado brasileiro, um projeto de país ou forma de unir a nação”.

Brasil é slogan, não um país em busca da Soberania

Desde que a banca, como designo o sistema financeiro internacional, assumiu o poder e mesmo antes, quando destronava o capitalismo industrial, o desmantelamento dos Estados Nacionais vem sendo um de seus objetivos. E dos mais incisivos.

Nesta e em outras ações, a banca busca colocar questões que não evidenciem seus objetivos, desconcertem os opositores, ganhem adeptos e iludam a todos. Dentre estas estão as questões que denomino transversais, pois são comuns a todas as sociedades, representam um momento da construção civilizatória.

Para a banca a morte das baleias, o envenenamento por agrotóxicos da alimentação infantil, o feminicídio são questões irrelevantes. Importa transferir para as finanças os ganhos dos lucros industriais, as receitas das locações e maiores parcelas dos salários. E promover permanentemente a concentração de renda.

Nesta eleição de 2018 a banca colocou duas questões: a corrupção e a violência.

Ambas começaram bem antes, para que fosse construído um cenário que colocasse o Partido dos Trabalhadores (PT) no foco da culpa, da criminalização. Tiveram início com a primavera de 2013 (recordar as primaveras que destruíram os países árabes do norte da África e do Oriente Médio, escapando os aliados Arábia Saudita, Kuwait, Catar) e com a Lava Jato (lembrar as “Lava Jato” no Equador, na Argentina, no Peru, na África do Sul e na Guiné Equatorial).

Bastam estes exemplos para ver que nada há de nacional brasileiro, mas a articulada e internacional investida contra governos e países que não se submeteram à banca. Vejam-se também os políticos favoráveis ao Brexit e a posições nacionalistas na Europa. Como diz o competente jornalista Beto Almeida, “desconheço teorias conspiratórias, mas sempre encontrei práticas conspiratórias”.

Corrupção

A corrupção é velha e conhecida imputação, no Brasil e no mundo, a políticos e partidos que lutam pela maioria desfavorecida, que se insurgem contra os poderes dominantes. Assim foi com Getúlio Vargas, com Juscelino Kubitschek, com João Goulart, com Lula. Só escaparam Médici e Geisel pois, além da política nacionalista e não dirigida diretamente aos pobres, seriam carimbados como torturadores e assassinos.

A colonizada elite brasileira, escravista e rentista, aproveitou, com apoio do juridicismo ianque, para criminalizar o partido que a vinha derrotando em eleições sucessivas para o executivo nacional.

Criou-se, então, o mito da corrupção petista embora a maioria dos políticos envolvidos em casos de corrupção fossem do PP, do PSD, do PSDB e do DEM. E, embora seja impossível haver corrupção sem que haja envolvimento dos bancos, nenhum foi sequer citado nas investigações. Um estranho e misterioso fenômeno que movimenta milhões de reais, de dólares, no Brasil e no exterior, à margem da participação dos bancos!

O uso político da corrupção já deveria ser do conhecimento de todos se houvesse um mínimo de racionalidade ou um pouco menos de emotividade no acompanhamento dos fatos e personagens políticos.

Violência

Há violência nos tráficos de droga, de armas, da inominável mercantilização de pessoas e órgão humanos. E a banca fatura todos estes e muitos outros crimes execráveis.

Para que não seja uma afirmação vã, recorro-me dos dados do FMI. Na década 1990/2000, a primeira em que a banca controlou as finanças então desreguladas, a economia cresceu 1,5 vezes, malgrado a recessão industrial. Compare-se com os 2,1 dos anos 1980 a 2000. Não é difícil concluir que a banca absorveu enormes quantidade de valores ilicitamente obtidos e acumulados em  ações contra a humanidade.

Com sua amoralidade, a banca alia-se à esquerda e à direita, aos crimes e às religiões. É um fator desestabilizador das sociedades.

No Brasil a violência tem origem antiga, na escravização e morte de índios, na importação de africanos para o trabalho escravo e mesmo na forma como se deu a “libertação dos escravos”, lançados à própria sorte.

A violência se insere na questão nacional. Na construção de um país que dê garantias aos direitos, às pessoas e às instituições e patrimônios. Vivemos, principalmente com o golpe de 2016, uma demolição, um desmonte das instituições criadas pela Constituição de 1988.

Pode-se afirmar que se vive, atualmente, mais do que em qualquer outra época, inclusive dos regimes autoritários, com a insegurança jurídica no Brasil.

Não é questão de distribuição de armas – que fará, de uma fechada no trânsito, um homicídio – nem da violência policial, conhecida por negros e pobres, e os que de tão pobres viram negros.

É, antes de tudo, uma questão nacional, da reestruturação do Estado, em moldes brasileiros, com as culturas e soluções nacionais, com os recursos por todos entendidos e capazes de serem aplicados, que dê ao povo, de todas as raças e economias, segurança e confiança no Estado.

Próximos Passos

Tenho para mim que qualquer resultado deste próximo segundo turno causará enorme decepção aos brasileiros.

Nos limites nacionais por Congresso e Assembleias eleitos em clima de ódio e desforra, excluindo as vozes da ponderação e do acordo, e sem projeto para o País. Será tomado por um novo centrão, ávido de mostrar poder e de enriquecer num sistema institucional carcomido.

Na área internacional pela crise que tornará as de 1929 e de 2008 “marolinhas”.

Examinem os analistas que estão vendo a construção desta crise desde 2010, como os franceses signatários do “Manifeste des Économistes Atterrés” e os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Este organismo acaba de divulgar que a dívida global bateu, em setembro de 2018, novo recorde – US$ 182 trilhões – 60% maior do que a de 2007.

Em abril de 2016, escrevi “Haverá crise em 2016?”, onde após discorrer sobre as crises da Era da Banca, previa que esta próxima teria na Europa seu epicentro. Em análises anteriores, supus que o “think tank” da banca temia que esta crise, pelas dimensões e alcance nas principais moedas do ocidente – euro, libra inglesa, franco suíço e dólar estadunidense – mais do que um tsunami financeiro e econômico causasse prejuízo à civilização ocidental. Ou seja, o fluxo civilizatório, após mais de seis séculos, mudaria o sentido de ocidente para oriente para oriente-ocidente.

A presença econômica e cultural, que já se observa, será mais forte, mais intensa e, provavelmente, como anteviu Monteiro Lobato, em “O Presidente Negro”, trocaremos o “american way of life” por um “asian mood”.

Que importância terá esta crise para nossa Pátria?

Defesa Nacional

Desde o fim dos governos militares, em especial com os do PSDB, o Brasil abandonou qualquer estratégia de construção de país soberano. Salvo algumas ações dos governos de Lula e Dilma, as Forças Armadas foram alijadas do projeto de desenvolvimento nacional. Grave erro. Os Estados Unidos da América (EUA), no período de predominância do capitalismo industrial, desenvolveram o complexo industrial-militar, que sobrevive em algumas áreas.

Mas fortaleceu, com o domínio da banca, a mais importante tecnologia deste século: da informação.

Esta tecnologia, com início antes da II Grande Guerra, é indispensável não apenas na área das transferências de valores monetários, como na segurança nacional e dos centros urbanos e zonas rurais, com os drones, por exemplo.

O Presidente Geisel tentou dar independência tecnológica ao País com investimentos públicos e incentivos à iniciativa privada. Cobra e Itautec são exemplos que foram demolidos pela onda neoliberal que destruiu boa parte de nossos investimentos em tecnologia e engenharia.

A ausência de um projeto de soberania, de reconstrução nacional por todos os candidatos, como já mencionamos, inclusive nestes que disputam agora a Presidência, encontrará um País desarmado diante da crise e da eventual, mas não pequena, alteração nos padrões de relacionamentos internacionais.

Sem vocação de Cassandra, receoso da Pátria em que viverão meus netos e minha filha, que busco sensibilizar os novos eleitos para se debruçarem sobre as questões nacionais, deixando os fake fatos da banca de lado.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

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