As duas faces do Exército

Da Redação do Duplo Expresso

Pedro Augusto Pinho*

Marechal Estevão Leitão de Carvalho (1881-1970) deplora: “o general Vespasiano de Albuquerque, terceiro ministro do marechal Hermes, na pasta da Guerra, (era) mais político do que soldado” (Memórias de um soldado legalista, Biblioteca do Exército, Tomo I, 2016).

Leitão de Carvalho pertenceu ao pequeno grupo de militares que estagiaram, por dois anos, antes da I Grande Guerra, no Exército da Alemanha Imperial, e buscou fortalecer o brasileiro, tendo sido fundador e da primeira equipe de redatores de A Defesa Nacional.

Entre 1889 e 1930, República Velha, eclodiram numerosos levantes, populares, rurais e militares. No início da República, o Exército Brasileiro, mesmo excluído do poder nacional (pois a Inglaterra mantinha a colonização, desde a substituição, no Brasil Colônia, do poder português), serviu como força repressora, na defesa do interesse agrário-exportador.

Nos anos 1920, conheceremos o Exército revoltado, buscando seu poder com a instrução e a industrialização. É ainda Leitão de Carvalho que se insurge contra o “exemplo do Chile” de “limitar os armamentos”, (pois) não levava em conta a segurança dos Estados, (que seria) objetivo de sua existência” (V Conferência Pan-americana, 1923). A frase parece verdadeiramente premonitória do que ocorre atualmente, com a ideologia neoliberal a destruir Estados Nacionais, propugnando pelos Estados Mínimos.

Permitam-me algumas reflexões breves

O Exército de Leitão de Carvalho sabia que a industrialização era fundamental para a soberania nacional. Associava também a industrialização ao desenvolvimento educacional. O modelo agrário convivia bem com a escravidão, com o analfabetismo. Mas o modelo industrial tinha outras exigências, de conhecimento, de pesquisa.

Assim, todos os denominados movimentos tenentistas dos anos 1920 – Forte de Copacabana (1922), Revolta Paulista (1924), Comuna de Manaus (1924) e Coluna Prestes (1925 a 1927) – propugnavam pela mudança, do poder colonial para o poder nacional.

As forças antinacionais, de oposição ao empoderamento militar, haviam composto o pacto oligárquico, em 1913, juntando os partidos republicanos paulista (PRP) e mineiro (PRM). Ao subirem ao poder – com a oligarquia gaúcha –, em 1930, os militares sepultam o modelo de Campo Sales, a Política dos Governadores.

Mas o partido de Joaquim Silvério dos Reis, como o grande jornalista Barbosa Lima Sobrinho designava os entreguistas, os inimigos do Brasil Soberano, se uniram na revolta paulista de 1932, com pretexto legalista. E desse partido dos entreguistas participaram alguns tenentistas.

Nem sempre o rumo a tomar para implantar os interesses do Brasil apareceu com clareza desde o primeiro momento, para muitos comandos militares. Leitão de Carvalho, por exemplo, que foi acusado de defender o retrógrado movimento de 1932, defendeu, adiante, o monopólio estatal do petróleo. Transcrevo, do estudo de Jorge Miguel Mayer, para o CPDOC/FGV:*

CARVALHO, Estêvão Leitão de
*militar; comte. 3ª RM 1939-1942

(…) Teve ativa participação na política nacional do petróleo entre 1948 e 1951. Juntamente com outros militares, como os generais José Pessoa e Júlio Caetano Horta Barbosa, e políticos, como Artur Bernardes, fundou o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), tendo sido presidente de honra da entidade de 1948 a 1950. O centro reunia militares, homens públicos, intelectuais e estudantes, exercendo importante papel na mobilização da opinião pública em torno da questão do petróleo.

Durante os debates sobre o anteprojeto do Estatuto do Petróleo, apresentado pelo governo do presidente Eurico Dutra, Leitão de Carvalho assumiu uma posição de defesa do monopólio estatal do produto, criticando o anteprojeto por possibilitar a participação do capital estrangeiro na exploração petrolífera” (…).

Numa rápida passagem pelas ações dos comandos militares, encontra-se em diversos momentos a submissão ao projeto da cúpula do poder estadunidense.

Antes mesmo do término da II Grande Guerra, as famílias que detinham o poder nos Estados Unidos da América (EUA), como exemplo Vanderbilt, David e John Rockefeller Jr., Madison e poucas mais, programaram a doutrinação – com Hollywood, Reader’s Digest e pela televisão – e a divulgação do modelo industrial e do modo de vida (american way of life) estadunidenses. Lembrando que, nos anos 1928, preto e branco, e colorida, em 1954, a televisão passa a ser um grande instrumento, usada também para criminalizar a ideologia marxista-leninista, o comunismo.

A comunicação de massa, no modelo construído nos EUA e no Brasil, não permite qualquer reflexão, não se interessa por fazer compreender o mundo e muito menos se interessa por debate democrático. É um modelo totalitário e excludente, como determinadas religiões e todos poderes fascistas e de fascistização. A televisão, comercial como a conhecemos, é igualmente imbecilizante, pois não exige qualquer conhecimento bem construído, nem leitura, nem diálogo; é hipnotismo audiovisual e propaganda permanente, sem contestação.

Os militares, na quase totalidade, saíram das classes médias e privilegiadas. Ter televisão, no Brasil de 1950/1959, então com cinco canais, era um objetivo de classe média, principal vítima da doutrinação consumista.

Outra breve reflexão

Qualquer projeto de poder que não atenda aos interesses da soberania nem aos interesses do povo – dos milhões que são a alma, os braços e a espinha dorsal de qualquer nação, tem de ser mantido escondido, ocultado, disfarçado em generalidades. E não sobrevive sem inimigo, sempre rapidamente inventado, idealizado, vestido de demônio, para pelo medo e pela ignorância galvanizar a população.

Os EUA elegeram o comunismo – e o apresentaram como mal-em-si, para massas às quais o pensamento de Marx sempre fora atentamente ocultado e nem saberia identificar diferenças entre as correntes socialistas no século XX.

Assim também, os EUA definiram a corrupção como inimigo número 1. Não a corrupção pelos interesses privados ativos contra o Estado e contra o povo – fraudes fiscais, evasão, sonegação, exploração do trabalho escravo. Crime de corrupção passou a ser exclusivamente que ameaçasse o poder dos muito ricos.

A corrupção agenciada pelos e para os muito ricos escapou à lei e à punição pela moral pública já adestrada.

Assim, uma ‘corrupção’ definida estrabicamente, e um ‘comunismo’ inventado nas agências de publicidade e gabinetes de propaganda passaram a ser os instrumentos para levar ao poder, no Brasil, os interesses econômicos, culturais e geoestratégicos estrangeiros. Começava a ser construído por aqui um quintal dos EUA.

Em 1941, o general Severino Sombra (1907-2000), então capitão do Exército, publica tardiamente, para a Comemoração do Cinquentenário da República, As duas linhas de nossa evolução política (Zelio Valverde Editor, Rio).

O capitão Sombra não era iniciante nas letras nem na política. Autor da História Monetária do Brasil Colonial (1938), de A fundação da sociologia (1940), dentre outras obras, foi o criador da Legião Cearense do Trabalho, considerado o primeiro movimento fascista no Brasil, em 1931, base do integralismo (Emília Carnevali da Silva, “Severino Sombra – O Homem no Espelho – A Legião Cearense do Trabalho (movimento que forneceu a base do Integralismo)”, XXIII Simpósio Nacional de História, Londrina, 2005).

As duas vertentes de Sombra para nossa história política eram o liberalismo e a nacionalidade. Causa-nos certa emoção ler um trabalho, editado há 77 anos, que coloca em suas páginas a principal questão do Brasil em 2018.

Mas fazia todo sentido para o estudioso da economia do Império e da Colônia.

O poder mundial dominante, do Congresso de Viena (1815) até a II Grande Guerra, foi o financismo inglês.

Gustavo Barroso (1988-1959), historiador cearense, conterrâneo de Sombra, deu a um de seus livros o título Brasil Colônia de Banqueiros [disponível para leitura em PDF], referindo-se à dominação inglesa sobre nossos governos.

General Sombra viu que os ideais nacionalistas seriam a principal força para combater o financismo estrangeiro. Hoje, sob o manto ideológico do neoliberalismo, é novamente o sistema financeiro já globalizado que ameaça nossa Pátria.

Nestes anos que vão da Era Vargas ao golpe de 2016, o Exército assumiu diferentes atitudes, umas francamente entreguistas e golpistas, outras nacionalistas.

Em rápida recordação vemos nas deposições de Vargas, em 1945 e em 1954, o Exército que trabalha contra a industrialização do Brasil por brasileiros.

Outra atitude teve o Marechal Henrique Teixeira Lott, no célebre contragolpe de 11 de novembro de 1955, garantindo a eleição e a posse de Juscelino Kubitschek e de João Goulart. No período JK-Jango o Brasil conheceu novo surto de desenvolvimento e industrialização.

Tem-se, em 1960, um golpe eleitoral. Jânio Quadros, corrupto e midiático personagem, encanta a classe média com a campanha contra a corrupção.

Sim, meus caros, chega a soar monótona a sempre presente campanha contra o comunismo e a corrupção, hoje caricaturizada pelo Cabo Daciolo, com a União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL).

Veja-se que com todo recurso dos ricos países europeus, a União Europeia patina e dela sai o Reino Unido (Brexit). Mas para o Cabo, a Ursal é uma realidade.

Jango sofre o golpe da Agência Central de Inteligência (CIA) estadunidense, em 1964. Dele participam militares influenciados pelas próprias ações da CIA. Sobre isso, veja-se Todos os homens do Xá, de Stephen Kinzer (Bertrand Brasil, 2004), minucioso relato do golpe que depôs Mohamed Mossadegh, e a semelhança com a quebra de hierarquia e outras ações promovidas aqui, em 1964, por este agente de desordens e golpes pelo mundo, a CIA.

Contudo, aquele golpe de 1964 enfrentou um contragolpe, vindo da corrente nacionalista do Exército. E novamente tivemos outro período de industrialização e um projeto estratégico de independência tecnológica, empreendido pelo General Ernesto Geisel.

O Governo Geisel (1974-1979) coincide com a vitória do capitalismo financeiro sobre o capitalismo e socialismo industriais, no mundo ocidental. Não por acaso, Geisel sofrerá o primeiro golpe, no Brasil, aplicado pelo sistema financeiro internacional, que denomino “A Banca”.

A banca passa a dirigir o Governo Figueiredo e todos os governos que se seguiram até 2003. Por isso a imensa corrupção de José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso não leva à prisão qualquer político ou empresário, nem se gritou contra ela – silêncio comprado e ensinado, é claro – em manifestações de rua e panelaços como se viu também no Chile pró-Pinochet.

Com o golpe de 2016, quando o Exército manteve-se discretamente no apoio, instalou-se, com fúria antinacional, o governo Temer.

E vendo a entrega de bens naturais insubstituíveis, que não podem ser repostos, como o petróleo, o nióbio, terras raras e outros minérios, e bens construídos com os investimentos e a competência brasileira, como a Embraer, a base de lançamento de foguetes em Alcântara (Maranhão), a tecnologia de ponta em produção marítima de petróleo, o Exército prefere se manifestar politicamente para impedir o ex-Presidente Lula de sair da prisão, de ser candidato à Presidência.

Temos uma candidatura assumidamente militar, que promete transformar o Brasil em um quartel, com escolas militares e uma parte escolhida da população armada. É encabeçada por um Capitão, precocemente aposentado, que tem por vice um General da Reserva Remunerada.

No momento em que o Brasil se esvai com o domínio da banca, esta chapa assinala, como grande feito, ter um banqueiro para Ministro da Fazenda e, talvez de outras áreas, que promete “privatizar tudo no Brasil em quatro ou cinco anos”, sendo o mandato de quatro anos.

Encerro estas apreensões nacionalistas com a frase do Tenente-Coronel Derougemont, Diretor de Estudos da Escola de Estado Maior, no número de julho de 1922 (Centenário da Independência) da revista A Defesa Nacional:

“O Exército pode desempenhar em tempo de paz um papel fecundo. Conservando-se afastado das lutas políticas, trabalhando a fim de aperfeiçoar sua instrução. O Exército não é um partido, nem mesmo de um regime, mas o Exército da Pátria, a armadura sólida da Nação”.

 

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

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