Para não viver enlutado, lute!

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Brasília, 15 de agosto de 2018. Enquanto “as instituições funcionam normalmente”, brasileiros de diferentes regiões do país, numa surpreendente articulação, formam uma multidão em passeata na porta de todos os poderes constituídos. Aqueles impossibilitados pela distância, estão nas portas dos tribunais e das emissoras da Rede Globo nas suas cidades. A mensagem emitida aos gritos, como num coral afinadíssimo, exige o fim da “Ditadura da Toga” e a imediata liberdade de Lula, o preso político.

Após este lindo sonho, acordo e começo mais um dia. No lugar da luta, memes, GIFs, banners, hashtag e até vídeos com críticas carregadas de agressividade contra os desavisados que ainda lutam por #LulaLivre e que estão presos ao longínquo passado de duas semanas e que ainda são do tempo do “Eleição Sem Lula é Fraude”. É a vitória da militância digital. Um fenômeno onde o perfil fake e os perfis de carne e osso são confundidos e até dialogam, como robôs que são.

Impressiona como tantas pessoas conseguem ignorar que o debate sobre eleições, no atual contexto, nada mais é do que uma maneira de excluir o povo através de uma perspectiva irreal sobre o que é democracia. Políticos, líderes religiosos, intelectuais e defensores da democracia em todo o mundo não podem estar errados quando afirmam que Lula é um preso político.

Não podemos fazer como os “patos amarelos” que ignoraram tantos avisos de pensadores renomados e seguiram cegamente Alexandre Frota, Lobão e Kim Kataguiri como pessoas com mais de dois neurônios. Como serão chamados esses “militantes de esquerda” que agora, ao abandonarem um líder e preso político na cadeia, apenas legitimam uma fraude que já tem Alckmin como vencedor, mesmo que ninguém conheça um único eleitor dele?

Os alertas de fraude eleitoral serão ignorados? O visível estado de exceção, sob a batuta da Ditadura da Toga, deixou de existir? Vamos seguir normalizando o arbítrio? É isso que restou do espectro à esquerda da nossa política? Haddad que sequer parece um Lula tímido, faz questão de se revelar todos os dias – ainda que de maneira inconsciente, dada a naturalidade – um Alckmin envergonhado, com o disfarce em tom vermelho nas roupas e peças de marketing.

Longe de trazer a religião para o debate, nunca é demais lembrar que é secular a necessidade de reagir, pois até mesmo na bíblia há uma orientação mais adequada para casos como este que vivemos hoje no Brasil. Vejamos:

Depois de uma inspeção, eu disse aos nobres, aos oficiais e ao restante do povo: Não os temais! Lembrai-vos do Senhor, grande e temível, e lutai por vossos irmãos, vossos filhos e filhas, vossas mulheres e vossas casas” (Neemias 4:14)

É preciso avaliar, sem o “fogo amigo”, que em toda a esquerda (não apenas a partidária), células têm sido acometida de moléstia grave que cega às lutas e dá lugar à proliferação por contágio (direto ou teletransportado) de um comportamento psicopático de “frouxidão pós-moderna”. É uma forma light de parecer empático, mas que tamanha a decomposição da capacidade de desenvolver a empatia para os problemas reais, o cérebro do enfermo é induzido às práticas de fácil mobilidade social.

A “frouxidão pós-moderna” tem grande poder de contágio direto nos partidos de esquerda que se rendem ao mercado financeiro, escolas, universidades, associações e organizações diversas que são permitidas pelo estabelichment como “humanitárias” ou “progressistas”. Na “prática fácil de mobilidade social” estão os caminhos pavimentados pela Globo, onde “militantes de esquerda” podem fazer tudo, desde que este “tudo” esteja contemplado no “Kit Esquerda Plim Plim”.

As pautas identitárias assumem neste “kit” um papel relevante. É cool ser cirandeiro! As novas tecnologias são importantes ferramentas para que os enfermos possam “causar” nas redes sociais. Isso ajuda na hora de dormir. Após lindos gritos de guerra ou incontáveis compartilhamentos de hashtag, o sono profundo está assegurado. É lindo debater os problemas nórdicos e ignorar a derrocada do Brasil para uma espécie de Congo Amazônico que surge à revelia do povo real, aquele que está ocupado tentando sobreviver.

A forma rápida como a doença da “frouxidão pós-moderna” se alastra já nos permite falar em epidemia. A deformação cerebral provocada pelo contato televisivo com a Globo e o desinteresse pelo debate político, conduzem mais e mais “militantes de esquerda” ao seguro caminho da “Esquerda Plim Plim”. A internet e as redes sociais dão vazão aos mais inusitados perfis que fortalecem a doença, pois permitem de maneira segura e confortável a relação dos enfermos com a própria esquizofrenia. 

A ausência de líderes de esquerda, alguém capaz de dar um “choque de realidade” (único antídoto com poder de cura), dificulta o combate desta epidemia. Lenin foi muito feliz ao afirmar que “sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária”. Diante da força do opositor externo e da incapacidade mental das vítimas da doença “frouxidão pós-moderna”, devemos abandonar a crença de que empunhando as nossas incontáveis bandeiras identitárias estamos prontos para o confronto ou que basta criar lindos slogans e com os nossos gritos afinados, acompanhados por lindas coreografias, vamos derrubar o Regime Temer e as suas bases de sustentação nas “instituições que estão funcionando normalmente”.

A formação da consciência política se dá como consequência de um exaustivo e necessário apreço pelos antigos valores característicos de uma sociedade sadia. Por mais que pareçam démodé esses valores são inseparáveis do real militante de esquerda (aqui a palavra “real” se dá em oposição ao militante da “Esquerda Plim Plim”). A construção dessa consciência é, em grande parte, a mais eficiente profilaxia no combate à doença da “frouxidão pós-moderna”.

No entanto, precisamos estar convencidos de que tudo isso faz parte de um processo contínuo. É de fundamental importância que sejam feitas as devidas leituras e análises dos acontecimentos históricos, mas sobretudo que sejam observados com o devido rigor a atual conjuntura.

Células podres devem ser isoladas! Para identificá-las, basta observar como reagem à luta e quais os caminhos escolhem “na hora da onça beber água”. Se no lugar de luta por justiça, soberania popular, soberania nacional, democracia e igualdade social, optarem por bandeiras minoritárias, por exemplo, pode isolar, pois estão enquadrados na doença da “frouxidão pós-moderna”. A esses portadores do vírus “pelegus” devemos dedicar dias, meses e anos para recuperá-los.

A real esquerda deve escrever uma nova história. É preciso dar lugar aos empáticos. Vamos resgatar os militantes orgânicos, aqueles que se importam com quem morre abandonado nas ruas, com quem está endividado e sem condição de ser atendido nos hospitais, quem precisa “matar um leão por dia” para sobreviver. Vamos ouvir os “velhos nacionalistas” e entender que todos nós somos responsáveis pelo combate à “frouxidão pós-moderna”. Faça a sua parte!

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.