A necessidade de estudo da guerra híbrida que assolou o Brasil na última década.

Por Manoel J. de Souza Neto¹, para o Duplo Expresso

O Brasil nos últimos anos esteve em guerra. Provavelmente você leitor deste artigo venha a discordar ou nunca leu nenhuma notícia sobre as bombas que foram jogadas nessa nação pacífica (subserviente na geopolítica, mas tecnocrata e perversa com sua população), pois esses ataques externos foram feitos através de propaganda, movimentos financiados para agitação, além de operações virtuais, lawfare, psychological warfare, cyberwarfare, e outras técnicas de guerra não convencional (Special Forces Unconventional Warfare – novembro 2010 TC 18-01) como guerra política, guerra irregular, assassinatos políticos, atos terroristas disfarçados de acidentes, entre outras metodologias, que envolvem fake news, interferência econômica (embargos e interferência em moeda, bolsa de valores, empresas, balança comercial, ataques aos setores produtivos e energéticos), diplomacia e interferência eleitoral externa.

Sem disparar nenhuma bala, essa guerra foi eficaz, destruíram a economia, a indústria, as instituições, o psicológico da população e o clima democrático. Perdidos, muitos brasileiros gritam por democracia e na mesma faixa pedem intervenção militar(?).

A ausência de fronteiras entre Estados nacionais, de limites entre guerras civis, comerciais e militares, fato comprovado que ocorre nas novas guerras virtuais, foi o que derrotou o Brasil, aquilo que chamam de guerra híbrida.

Neste caso, não se trata de algum ataque de um território inimigo. Até mesmo, porque o Brasil não tem inimigos declarados. Sua única área de disputa é no futebol, onde seu vizinho a Argentina é seu maior concorrente. Não foram os Argentinos que atacaram o Brasil! Correto?

Essa crise foi provocada por ONGs, consultorias políticas, Facebook, federações comerciais, petrolíferas, agronegócio, indústria das armas, white christians, e especuladores da bolsa de valores, mas também, provavelmente o quadro que apresentarei a seguir, levantará na memória dos iniciados nos jogos de capa e espada, que sem a ajuda de profissionais de inteligência militar essas tarefas não seriam realizadas. Se estavam agindo formalmente ou agindo de forma independente, não é objetivo deste artigo localizar.

O que aconteceu com o Brasil não se trata apenas de uma derrubada financeira, como a bolha da internet (1995-2001), crise imobiliária (USA, 2008) , ou quebra da Bolsa de Londres (1992), a crise brasileira é maior e mais profunda, atingindo em cheio as instituições, as matrizes econômicas, a economia das família, o comércio, bem como o clima democrático e a imagem internacional, revelando a fragilidade e facilidade com que o Brasil foi atingido sem reação.

Se trata de um conjunto de retrocessos emblemáticos que deve servir de exemplo para a regulação das empresas da internet (não dos usuários), pois acaba por revelar como boatos, bolhas, fabricação de opinião pública, falsas polarizações políticas, para criar clima social negativo e atender as demandas inconfessáveis de grupos de interesses, podem varrer em pouco anos uma nação que foi considerada a mais emergente em desenvolvimento no começo deste século (The Economist, 2009).

A pesquisa que está sendo realizada visa traçar principais elementos históricos, fatos, teorias, para determinar redes de aparentes casualidades, que revelam como, através de uma guerra não convencional, e disputa entre nações, blocos e setores econômicos, o Brasil foi jogado no limbo.

Sendo essa nação vasta em território, riquezas e população, bem como mercado consumidor, grande exportadora de commodities e segunda maior exportadora de alimentos do mundo, tendo posição estratégica neutra na diplomática nas Nações Unidas, acordos com o bloco BRICS e liderança dentre as nações latinas, a crise brasileira pode trazer agravamento da crise econômica e tensões militares e de relações diplomáticas globais.

No Brasil, desde 2016, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, seus seguidores do Partido dos Trabalhadores, repetem o mantra de que o partido do atual presidente Temer, o PMDB, teria dado um golpe branco. #FoiGolpe ou #TemerGolpista tem sido os hashtags mais divulgados nas redes sociais desde então. A explicação simplista dos “petistas” em defesa de uma narrativa de vitimismo, ocultaria duas realidades distintas.

A primeira é que de fato, o partido de centro esquerda levou uma rasteira de uma aliança formada por vários partidos de centro e direita, em especial PMDB, PSDB e DEM, além de militaristas e seguidores de Bolsonaro, e de muitos movimentos da própria esquerda dentro de PSTU, PCB, PSOL e do próprio PT. E a segunda realidade que ficaria ocultada por esta narrativa, é que o PT não foi o único alvo desta guerrilha virtual, política e jurídica, mas que na verdade, foi o Brasil o alvo desta guerra híbrida, e que não começou em 2016 com o impeachment, mas na verdade em 2009.

Entre 2009 e 2013 foram vistos fenômenos suspeitos de manipulação das redes nos países onde ocorreram Revoluções Coloridas, laranjas, rosas, púrpuras, o que ficou conhecido como Primaveras Árabes, ainda que não tenham sido exclusivamente no Oriente Médio. Em Junho de 2013 esse fenômeno foi observado no Brasil quando manifestações foram “infladas” no Facebook e Twitter com uso dessas mesmas técnicas. Sobre isso levantei mais de 130 mil imagens, documentos, atas, artigos, fotos e até memes.

Anos mais tarde as ligações entre redes sociais e as manifestações nas ruas se comprovaram, primeiro com o artigo de FINARDI (2016) em que foram reveladas as ações de redes de ativistas pós modernos, como Fora do Eixo, Mídia Ninja, Marcha das Vadias, Marcha da Maconha, Marcha da Liberdade entre outras, que eram financiadas por organizações como Open Society e outras relacionadas a George Soros, mas também outras relações com Banco Mundial, Instituto FHC, Oximity, TED, NED entre outras.

Comparei pessoalmente cada nome de jornalistas, lideranças de movimentos, ONGs, sites, intelectuais, e concluí, que nas alas da chamada esquerda pós moderna ou identitarista, nas lideranças mais conhecidas, todos tem algum vínculo, livro, revista, evento, fundo de pesquisa ou atividades relacionadas a Open Society e em alguns casos também com fundação Ford entre outras.

Num segundo momento, outros artigos como de ROCHA (2017) e FANG (2017), revelaram a ação de think tanks ultra liberais no Brasil financiados por instituições norte americanas como Cato, Atlas e a Alemã Friedrich Naumann. Ainda segundo o Le Monde Diplomatique, através da organização Students for Liberty (estudantes pela liberdade), o MBL recebeu recursos da Donors Capital Fund, Claws Foundation, Atlas Econ. Reserach Foundation, Donors Trust e Rodney Fund. Enquanto o jornal The Guardian em 26 de julho de 2017 afirmou que esses fundos viriam através de doações dos Irmãos Koch e indústrias de combustíveis fósseis (PHILLIPS, 2017).

Nesses artigos foram revelados que se tratam de mais de 30 organizações liberais financiadas para essas operações no Brasil, entre elas, Instituto Liberal, Mises, Instituto Millenium, Líderes do Amanhã, Mackenzie Center for Economic Freedom, Students for Liberty Brasil, MBL, Instituto Atlantos, IEE, Instituto de formação de líderes, Instituto Liberal de São Paulo, Instituto Liberdade, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, além de centenas de células, canais e páginas em redes sociais, grande maioria responsável por sites citados em pesquisa coordenada por Pablo Ortellado na USP, como páginas de fake news. O que gerou uma reação da direita que alega que os sensores das páginas de factcheck seriam todos de esquerda.

Sejam organizações de ultra direita, liberais, ou movimentos identitários (pós modernos), o que se revelou é que no Brasil desde o começo da década ocorreu treinamento, aparelhamento e organização de agitação de redes virtuais e de manifestações de rua, que levaram o Brasil a maior crise social e política de sua história. É impossível desassociar a crise da manipulação das redes sociais denunciada no The Guardian, envolvendo Cambridge Analytica e Facebook do caso brasileiro, pois estudos da USP e UFES revelaram enorme redes de blogs, contas e sites especializadas em fake news, a maioria envolvida em convocação para protestos de rua (tanto de esquerda como de direita), bem como seriam os mesmos os agentes principais que trabalharam em campanhas sociais e eleitorais, e também eram as mesmas organizações financiadas citadas nos artigos acima referenciados.

Complementado a rede de aparentes casualidades, o site UOL revelou em 26 de maio de 2018, que empresa administradora de várias das principais páginas de fake news brasileiras como Movimento Brasil Contra Corrupção, Juventude Contra Corrupção, Juiz Sérgio Moro – O Brasil está com você, Apoio ao Moro, Movimento Democracia Participativa entre outros, recebia recursos do deputados Francischini, maior aliado de Bolsonaro.

Lembremos que foram nessas páginas que surgiram boatos de ameaça de golpe comunista no Brasil desde 2012, e que em seguida pediram golpe militar, e que mais tarde em 2016 acusaram Dilma de pedaladas fiscais.

Já a ferramenta mais usada o Facebook, era alimentada por milhares de likes que surgiam automaticamente nas postagens desses grupos, bem como em listas como Vem Pra Rua, Gigante Acordou, Anonymous, Anarquistas, Endireita Brasil, Não vai ter Copa, MBL, MPL e tantas outras usadas para mobilizações entre as Jornadas de Junho de 2013 até o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016.

O canal 4 News (Channel 4) de Londres, forjou a visita na empresa Cambridge Analytica de clientes que supostamente eram do Sri Lanka e dispostos a investir em uma jogada de marketing eleitoral. Durante as negociações o executivo da Cambridge Analytica revela que eles estão por trás de operações no Brasil. (Channel 4 News, Cambridge Analytica Undercover: Secret Filming Reveals Election Tricks. 19 de março de 2018. www.youtube.com/watch?v=mpbeOCKZFfQ). Somente no Brasil 443.117 pessoas tiveram seus dados violados sem consentimento prévio apenas por essa consultoria citada, e que vem sendo usadas para essas operações de Cyberwarfare.

Bem mais que uma ferramenta psicológica de manipulação de massas, a guerra híbrida se dá pela continua ação, de grupos de inteligência chamados think tanks, que fazem permanente análise de ambiente, de exercícios de adaptação constante visando atingir por quaisquer meios o inimigo definido.

No caso brasileiro, para muito além do impeachment de Dilma, da prisão de Lula, da criação de clima psicológico negativo, através de uma falsa polarização que inflamou a população contra um suposto e falso golpe comunista, o que ocorreu em excessos de ações diárias, como manifestações, mortes, boatos, ataques as artes, educação, movimentos sociais, minorias, sindicatos, projetos de leis absurdos, polêmicas, entre outras, não passaram de cortina de fumaça, para encobrir a verdadeira agenda do golpe no Brasil.

A guerra híbrida contra o Brasil, muito maior do que o golpe conclamado pela esquerda, não se trata do ataque pontual a um partido ou liderança apenas, mas de um conjunto de medidas que visam destruir alianças que interfiram na geopolítica (BRICS), destruição dos setores indústrias que mantinham parte da economia brasileira no exterior como empreiteiras e indústria de alimentos, desindustrialização ampla, corte de investimentos em ciência e tecnologia, derrubar a economia brasileira e provocar a venda de estatais (em andamento, como Caixa Economia, BNDES, Correios, Petrobras e outras), a entrega do pré-sal, bem como desacreditar o meio político (tarefa fácil), desestabilizar as reservar econômicas, forçar a nação a ter que voltar a pedir empréstimos ao FMI, eliminar os direitos trabalhistas e previdenciários, privatizar serviços essenciais como saúde e educação, eliminar investimentos em cultura, eliminar legislação ambiental, favorecer a compra de terras brasileiras por estrangeiros, bem como transformar presídios em empresas.

Enfim, se trata de um projeto de destruição de direitos, imposição de políticas de austeridade, que ao final visam manter o Brasil na condição de colônia fornecedora de mão de obra barata e commodities. Essas ações são diárias, mantidas com exércitos de think tanks pagos e treinados no exterior, e ocorrem através da pressão em todos os órgãos de governo, dos três poderes e nas três esferas, municipal, estadual e federal.

Esse plano só é possível de ser realizado, graças às elites locais dispostas ao projeto de destruição da nação (A elite do atraso definida por Jessé Souza), em troca de terem espaço na exploração das riquezas bem como da miséria do povo.

A guerra híbrida se trata de um conflito diário, do qual o Brasil leva um novo 7X1 todos os dias, devido às massas de pobres de direita formadas pelo rebanho desorganizado e alienado, e graças às organizações sociais lideradas por burocratas da esquerda institucional, que tem olhos exclusivamente para seus problemas jurídicos e a disputa de poder pelo espaço perdido após o impeachment de 2016. Enquanto as massas não acordam, a nação brasileira passa por total destruição, caso único no mundo, onde um ataque dessa magnitude não teve nenhum tipo de resistência.

Segundo a pesquisa do Ipsos MORI (2017) com título “Os perigos da percepção”, o Brasil é o segundo colocado na lista das nações que têm a percepção mais equivocada sobre a própria realidade no mundo. Talvez por isso o Brasil esteja sendo atacado por uma guerra híbrida coordenada por forças exteriores e nem tenha notado.

1 Manoel J. de Souza Neto, brasileiro, cientista político, pesquisador e escritor. Membro de diversas comissões, grupos técnicos governamentais e do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura do Brasil entre 2005-2017.

 

 

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