Conversando com um idealista de esquerda: o que nos distingue na estratégia política

Conversando com um idealista de esquerda:

– Discussão no post “o Brasil & o Brasil (7)”, de Arkx, aqui no GGN.

Romulus:

Eu sonho com a mesma sociedade que vc sonha… a vir depois da ruptura que você propõe.

Mas vc sabe que a sociedade brasileira é em sua maioria conservadora – em valores e em temas econômico-sociais.

O que vc propõe para sustentar um governo como o que vc quer, sem base social na maioria da população?

* * *

Arkx:

meu Nobre,

esta é a discussão de fundo de qualquer projeto autêntico de transformação social: como viabilizar, concretizar e dar prosseguimento a mudança. compreendo qdo vc se refere a um “conservadorismo” da sociedade brasileira. ele existe. mas não com o peso que as análises do lulismo lhe dá (veja bem, uso “lulismo” cfe. André Singer em “Os Sentidos do Lulismo” e não pejorativamente). se nossa sociedade fosse tão conservadora, o PT não teria vencido 4 eleições presidenciais consecutivas. e este é apenas um exemplo de vários que podem ser enfileirados. a desalentadora verdade é que o lulismo sempre usou de diversas meias-verdades para tentar justificar sua inapetência para encaminhar qualquer tentativa, que fosse, de mudanças. este não é um problema exclusivo do lulismo. é o problema de toda uma Esquerda que vem fracassando historicamente em todas as épocas e em todas as partes do mundo. o mais escandaloso e recente exemplo foi a Grécia. reflitamos: com se explica o apoio que a sociedade grega deu ao “NÃO” – contra o austericídio – e ainda assim Tsipras capitular aos banqueiros alemães? esta Esquerda não quer arcar com os custos da mudança. nunca quis. na Grécia, como no Brasil, todo o instrumental está desde muito colocado para se encaminhar as mudanças. no Brasil, como na Grécia, existe base social para isto – tanto que o Povo sem Medo prossegue inundando as ruas. o que falta é uma liderança, uma coordenação, uma vanguarda, ou o termo que se preferir, que de fato lute pela mudança.

abraços.

p.s.: sei que já me alonguei em demasia para um simples comentário, mas deixo duas refer6encia que ilustram minha opinião sobre a questão que vc indagou.

“Entrei exultante no gabinete do Primeiro Ministro. Eu flutuava numa bonita nuvem empurrada pelo entusiasmo popular com a vitória da Democracia Grega no referendo. E no momento em que adentrei no gabinete, senti imediatamente um certo ar de resignação – uma atmosfera negativamente carregada. Eu me deparei com um ar de derrota, que era completamente inverso ao que ocorria do lado de fora, nas ruas. Naquele momento, tive que dizer ao Primeiro Ministro: “Se você deseja usar todo este clamor por democracia que ouvimos do lado de fora das portas deste prédio, conte comigo. Mas se, por outro lado, você sente que não pode usar este majestoso “Não” contra uma proposta irracional de nossos parceiros Europeus, eu simplesmente desapareço no meio da noite”.

Yanis Varoufakis – 13/07/2015

http://www.abc.net.au/radionational/programs/latenightlive/greek-bailout-deal-a-new-versailles-treaty-yanis-varoufakis/6616532

em “A Modest Proposal for Transforming Europe”, Varoufakis apresenta quatro linhas de ação para superar uma crise global que se desdobra em quatro frentes: crise bancária, crise da dívida, crise de investimentos e crise social. através de engenharia financeira clara e precisa, define o que fazer, porque fazer, como fazer e indica qual a fonte dos recursos.

http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/4-the-modest-proposal-four-crises-four-policies

* * *

Romulus:

O exemplo que você usa das vitórias eleitorais do PT trabalham contra o seu argumento.

O PT só ganhou quando moderou o seu discurso, ocupando o nicho vago da socialdemocracia.

O caso da Grécia tem outros complicadores.

Tb fiquei muito frustrado com a “traição” do Tsipras.

Depois caiu a ficha:

(1) ele tentou usar a vitória do não como alavancagem para concessões dos europeus. Não colou. Aí ele não teve o que fazer, porque não havia plano B. A saída do Euro demandaria 6 meses de estudo e implementação. Nós, macacos velhos de mudança de moeda, sabemos bem como é isso. Nada tinha sido feito para viabilizar o plano B.

E Yanis Varoufakis sabe disso.

Faz demagogia agora.

(2) A posição de Tsipras é difícil. Quem queria ser 1o ministro comandando o austeríssimo? A saída fácil para ele e politicamente melhor seria justamente pedir demissão e convocar eleições depois da recusa dos europeus em negociar.

Podia facilmente saltar do navio afundando.

Só não digo que Yanis Varoufakis fez exatamente isso porque a sua cabeça era pré-condição da Merkel para seguir negociando.

Mas ele vir com esse discurso demagógico é extremamente indigno para alguém que, assim como Tsipras, nao viabilizou o plano B.

Um adendo.

Lembre-se da citação de Ortega y Gasset que o Barroso adora (talvez demais…):


Entre querer ser e pensar que já se é, vai a distância entre o
sublime
e o ridículo.

Aceite as limitações do Brasil. É duro mas é a verdade.

Para chegar onde vc quer com mais velocidade, só com uma revolução armada e repressão, até mudar a maneira da maioria da população de pensar com uma nova Revolução Cultural – e se mudar.

As experiências do Sec. XX não foram boas, não é?

Mas continue com o seu idealismo.

É importante para o debate e para influenciar para onde aponta o vetor final da frente de (centro) esquerda.

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.