STF, ouça o latim que presta: requiem aeternam missa pro defunctis (cantada e rezada para si)

Por Romulus

– Post atualizado em 13/6



Latim que presta: requiem aeternam missa pro defunctis

– Saibam que escrever o post foi muito doloroso para mim. Quem lê o blog bem sabe que sempre nutri – em mim mas também nos outros! – a esperança de que, caso tudo mais falhasse, o STF analisaria o mérito do impeachment.

– Costumava ir além: inúmeras vezes dei o benefício da dúvida quando Ministros da Corte davam passos em falso.

– Enganei-me.

– Há algumas semanas soube que um post teve outra leitora ilustre: não outra que a sua destinatária principal, a Presidente Dilma Rousseff.

* * *

Trilha sonora deste post (cortesia de Ciro D’Araújo):

“Libera Me” (Fauré), por James Morris

– vídeo com o belíssimo áudio linkado ao post

– letra, com a tradução para o português, ao final do texto.

* * *

O post “Latim gasto em vão: STF goste ou não, golpe está tatuado na testa de seus Ministros”, se dificilmente provocará um estalo na consciência do destinatário principal, ao menos proporcionou mais um manifestação da minha comentarista bissexta favorita.

Já mencionei o quanto o comentário anterior da Professora Maria, cientista política, me tocou. Reproduzi ele no post “Recados (2): de Maria para ‘Romulus’”. Recomendo fortemente a sua leitura. Quem ler o novo comentário de sua autoria, que vai abaixo, certamente irá lá ler o original.

Aliás, adivinhem o que tem no link dessa passagem do post de ontem:

Devo confessar que agradeço aos golpistas por esse efeito colateral do seu atrevimento e da sua conspiração. O retorno que tenho neste blog tem sido das coisas mais gratificantes na minha vida atualmente.

Sim. O link do tal “retorno gratificante” leva, como não poderia deixar de ser, ao comentário de Maria de 19/4. Ela o fez após ler o post “Reflexão sobre a coletiva de Dilma: o “Novo” enterrará o “Velho”?”.

Por coincidência, há algumas semanas soube que esse mesmo post teve outra leitora ilustre: não outra que a sua destinatária principal, a Presidente Dilma Rousseff.

Mais do que ficar envaidecido em ter sido prestigiado por essas duas distintas leitoras, fico é tocado e agradecido.

Em vez de vaidade o que vem é humildade.

Tenho algo a acrescentar com relação ao comentário de hoje de Maria, que vocês lerão mais adiante. Ela diz:

Você é duro e quase cruel em suas palavras, que não deixam escapar nenhum aspecto dos atos, pessoais ou de significado histórico, a que ele (Barroso) se entregou, em uma análise dolorosa e, no entanto, inescapavelmente verdadeira.

Saibam que escrever esse post também foi muito doloroso para mim. Quem lê o blog e, mesmo antes dele, meus comentários às postagens do Nassif bem sabe que eu sempre nutri – em mim mas também nos outros! – a esperança de que, caso tudo mais falhasse, o STF analisaria o mérito do impeachment.

Costumava ir além: inúmeras vezes dei o benefício da dúvida quando Ministros da Corte davam passos em falso. Pois Barroso, mais do que nenhum outro, foi por mim poupado de críticas mais pesadas por acreditar que ele, de caráter político e conciliador, dava anéis para preservar dedos no pleno.

Enganei-me.

Qual foi o dedo que ele preservou?

Talvez apenas o dedo indicador, que lhe permite apontar pecados nas demais instituições, mas não na sua.

Vejo que mereci todas as críticas e advertências de comentaristas quando diziam que me enganava quanto ao STF e quanto a Barroso em particular.

Aliás, ontem um ativista ficou amuado e disse no Twitter, após ler o post, que “não adianta criticar por criticar”. Esse ativista é responsável pelo movimento de envio de petições pedindo audiência pública no STF sobre a possibilidade de exame do mérito do impeachment na Corte. Entendo, portanto, que se incomode com a minha crítica aberta à Corte. Mas certamente diz que “critiquei por criticar” por apenas recentemente ter começado a ler meus posts. Os demais leitores certamente sabem que o post “Latim gasto em vão…” é, na verdade, eu dando a minha mão à palmatória e admitindo que errei profundamente em várias das minhas avaliações nos últimos meses.

O ativista, no tuite em que me critica, linkou um artigo de juristas defendendo o exame do mérito no STF. Se tivesse checado meu blog com mais atenção, veria que não apenas publiquei o artigo que ele linkou, como também outros seis que chegam, por vias diferentes, ao mesmo destino. Publiquei artigo até mesmo de estrangeiros, como o Professor Catedrático de Coimbra Vital Moreira, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Não só concordo com a tese do exame pelo STF, como – ao que me consta – fui a primeira pessoa a escrever um postou artigo com fundamentos jurídicos para o mesmo. Fiz isso em 6/4, em resposta ao post “Por que o Supremo precisa analisar o mérito do impeachment”, do Nassif. Nele, Nassif comenta criticamente a entrevista que fizera com a então Procuradora Flávia Piovesan sobre o tema.

Flávia afirmou então categoricamente que não haveria possibilidade de exame – em qualquer grau – pelo STF. Certamente naquele momento ainda falava como parte desinteressada, não?

Diante do acanhamento da comunidade jurídica em geral, vi-me compelido a escrever algo. Fiz isso mesmo não sendo constitucionalista, como ressalvo no post. Hoje relativizo essa minha preocupação.

Pois me digam: de que adianta ter o selo “constitucionalista” quando os que o têm – como o Ministro Barroso, o Presidente interino Temer e a própria Secretária Nacional de Direitos Humanos Flávia Piovesan – rasgam sem nenhuma ou com pouco vergonha a Constituição – que supostamente respeitariam a ponto de lecionar a disciplina que a estuda?

Penso agora que talvez pouco adiante o conhecimento profundíssimo se há limitações de ordem moral em quem os aplica, não é mesmo?

Com relação ao movimento de envio de petições ao STF, não apenas o apoio como o tenho divulgado quase todo dia no Twitter. Cobro, inclusive, meus seguidores a respeito do seu envio. O tal ativista bem o sabe e com frequência agradece.

Devo dizer que continuo apoiando e divulgando a iniciativa. Não porque acredite que o STF analisará o mérito, mas porque acredito no valor de uma audiência pública e desse debate para fins históricos, pensando nas futuras gerações e nas decisões que farão sobre o modelo institucional brasileiro.

Isso porque, como disse ontem, “golpista” está carimbado na testa de vários Ministros do STF. Assim, nessa dimensão histórica, todo o esforço é válido para tirar o pó de arroz que alguns – como Barroso – têm aplicado na fronte para tentar disfarçar essa tatuagem hedionda. Por isso, continuo apoiando – talvez até com mais afinco – as petições e a audiência pública.

* * *

Como disse em resposta ao comentário de hoje da Professora Maria, esperarei pacientemente pelo próximo.

Rezando que se dê em circunstâncias melhores, contudo.

Devo registrar, por fim, cara Professora Maria, que invejo profundamente os seus ex-alunos da USP. Pois perder os ídolos é um processo bastante doloroso, pelo qual, diferentemente de mim, eles não passarão.

É…

Passemos então ao latim que presta do título. Trata-se de um réquiem cantado para alguém ainda em vida:

* * *

Por Maria

O mestre e o discípulo

Caro Romulus,

Depois de ler seu artigo impecável, brilhante e doloroso, ocorreu-me que, por mais que o Ministro Barroso hoje o (nos) decepcione, aquele que foi seu professor poderia justificar-se perante a História, senão por outra coisa, ao menos pelo fato de ter formado um discípulo como você. São aquelas lições então aprendidas que sustentam hoje sua justa indignação contra a pessoa em que seu mestre se transformou.

Não gostaria de estar na pele do Ministro do STF ao ler seu artigo. Fui professora da USP durante mais de 30 anos e sei do que falo.

Tal como no seu caso, a tentativa de prisão do ex-presidente Lula, no episódio da famigerada “condução coercitiva”, foi o que, frente à perspectiva aterrorizante de voltar a viver 1964, que então claramente se delineava, me fez tomar consciência de que não poderia omitir-me. Detesto as conversas de comadre que ocupam grande parte das postagens do Facebook, mas mesmo assim decidi que era preciso, vez ou outra, compartilhar com outras pessoas alguns artigos publicados nos blogs, inclusive no GGN, que pudessem ajudar a compreender a tragédia em curso.

Sem sua competência e brilho para analisar por conta própria a vertiginosa sucessão do horror que se precipitou desde então – apesar de ter lecionado Ciência Política por 15 anos – era pelo menos o mínimo que eu poderia e deveria fazer. Para minha surpresa, foram sobretudo ex-alunos meus, inclusive mestrandos e doutorandos de Antropologia, que também lecionei, os que compartilharam essas postagens, ao mesmo tempo em que me dirigiam palavras de carinho e gratidão, ainda reconhecendo na antiga professora, hoje distante dos debates acadêmicos, algum ensinamento que lhes transmiti e que incorporaram para si mesmos, como princípio de vida.

Como os comentários entusiasmados que você recebe a cada nova publicação de suas análises, também para mim essas modestas expressões de reconhecimento foram o que de mais gratificante experimentei nestes tempos difíceis, na certeza de que parte de minha missão fora cumprida, ao deixar sementes que hoje dão frutos, como caminhos de luz e de esperança de futuro.

Chego a ter pena do Exmo. Sr. Ministro do Supremo por haver-se voluntariamente privado dessa alegria. No entanto, apesar dele – e contra ele – é você que nos mostra o que poderia ter sido e não foi, ou deixou de ser, seu mestre, o professor Barroso.

Você é duro e quase cruel em suas palavras, que não deixam escapar nenhum aspecto dos atos, pessoais ou de significado histórico, a que ele se entregou, em uma análise dolorosa e, no entanto, inescapavelmente verdadeira.

Obrigada por nos mostrar, mesmo na contraluz, o espectro de quem foi um dia um grande ser humano, um grande jurista e um grande professor. Receba nas minhas palavras uma expressão do meu respeito e admiração por sua lucidez e coragem.

* * *

Atualização (12/6)

NOTA importantíssima:

Mais uma vez devo agradecer ao Nassif por abrir este espaço e principalmente por, com sua competência e credibilidade (oásis no deserto da mídia brasileira), ter reunido ao longo de décadas de trabalho um público fenomenal. Nunca deixem de ler os comentários nos posts daqui do GGN. O nível das contribuições e discussões é altíssimo.

Viva a web 2.0!

Mais comentários, entre os tantos que merecem destaque:

* * *

Maria volta a comentar e já não é mais tão bissexta assim.

Corre o risco de eu ficar mal acostumado, caríssima.

Por Maria

Obrigada pela consideração que se traduz em suas palavras tão gentis.

Não havia percebido que você tinha incorporado ao seu blog o meu comentário em que apenas procurava expressar minha gratidão por suas análises tão ricas e lúcidas.

É claro que também leio você no blog da Maya Vermelha(aqui), partilhando o amor pelos animais que anima seu entusiasmo pela chihuahua socialista.

Ontem mesmo postei no Facebook o seu texto, com recomendação expressa de que não deixem de acompanhar os post de sua incrível caninazinha.

Quanto à ideia (de eu mesma ter um) blog, não me animo a tanto.

Hoje minha interlocução política diária é com a pessoa extraordinária que cuida de mim, minha casa, meus bichos e minhas plantas. Uma nordestina arretada que muito jovem veio do Ceará para Sâo Paulo com dois filhos e aqui os criou com mais uma menina produzida já na Pauliceia.

Isso, à custa dos sacrifícios que mesmo os que conhecem de perto a vida dura dos pobres tem dificuldade em imaginar. Foi operária metalúrgica, participou com o Padre Ticão dos primeiros movimentos por moradia na ZL, foi empregada doméstica e cozinheira de mão cheia em restaurantes de bairros de trabalhadores e enfim se tornou minha cuidadora, que me acompanhou quando mudei para Santos.

Hoje, graças à ajuda inicial do Prouni está formando em jornalismo sua menina. Agora, já sem Prouni, ela tem que novamente redobrar o sacrifício para pagar a faculdade, mesmo com a meia bolsa conseguida mediante a indignidade de um atestado de pobreza.

Tudo isso forjou uma mulher de uma força e coragem extraordinárias, com uma consciência de classe que, se pudesse ser encontrada entre os demais trabalhadores, certamente nos garantiria para já o triunfo do nosso tão esperado Fora Temer!

É com ela que compartilho a cada dia as notícias e reflexões sobre os artigos dos blogs, retroalimentadas pelas leituras de sua menina futura jornalista. É meu exercício diário de traduzir em “cotidianês” o que antes discutia na Academia, mas é o que importa e para quem precisa e sabe aproveitar a lição.

Para isso um blog não é necessário. Mas ficarei honrada em acrescentar você ao meu Facebook, para que ao menos você possa acompanhar as reações às minhas postagens despretensiosas que motivaram meu comentário ao seu artigo.

Um grande abraço.

* * *

Por Romulus

Mais uma coisa em comum: sempre me esforcei – mesmo criança, veja que prepotência! – para tentar contribuir para o aumento do grau de consciência politica das dignas brasileiras que trabalharam na minha casa. Em geral, evangélicas neopentecostais que ouviam enquanto trabalhavam às rádios pertencentes ao dep. Arolde de Oliveira, do DEM, ou a ele mesmo: Eduardo Cunha, do DEMO.

Fico feliz e honrado de tê-la como amiga no Facebook.

Não sei se já viu, mas mais uma vez transformei seu comentário em post*.

(*este aqui mesmo… o “Latim que presta…”).

* * *

Mais um comentário – de outro leitor – digno de nota (entre tantos outros que também a merecem).

Este, que vai abaixo, desnuda um pouco mais a fala do Min. Barroso.

Brilhante.

Por (leitor que assina) rgudes

golpe da colegialidade

Quanto aos dois bordados do Min. Barroso:


(1)

“Eu acho que quem acha que (o impeachment) é golpe tem fundamentos razoáveis para dizer que não há uma caracterização evidente de crime político e, na verdade, está-se exercendo um poder do ponto de vista de quem foi derrotado nas eleições. Esse é um discurso plausível. O outro é: a presidente não tinha mais sustentação política para fazer o que o País precisava, e a maior parte da sociedade e a maior parte do Congresso acharam que era melhor afastá-la.”


(2) “Não é papel do Supremo jogar o jogo político quando ele chega nesse estágio. Essa deixa de ser uma questão de certo ou errado e passa a ser uma questão de escolhas políticas. Não é papel do Supremo fazer escolhas políticas.”

Nada me tira da cabeça, Romulus, que essas mal-bordadas linhas não expressam inequivocamente a posição do min. Roberto Pavão Barroso.

Quanto a (1), me parece meramente descritivo: uma singela apresentação dos termos em que divergem os ministros do Supremo. Uma parte vê claramente o golpe. A outra, não é que não veja, mas está se lixando. É só ver como é vagabunda a caracterização da “divergência”: uns apontam o golpe e os outros apontam a falta de sustentação política. Em outras palavras, uns acham que devem e outros acham que não devem considerar a ilegalidade do processo. Uns acham que devem intervir e outros que não.

Quanto a (2), apenas a apresentação do acórdão, ou acordão. Num “estágio” em que a posição majoritária está consolidada, claramente a segunda, pelo princípio da colegialidade, resta aos “vencidos” acatar a posição vencedora. “Deixa de ser uma questão de certo ou errado”. A escolha política do Supremo não é “não fazer escolhas políticas”, mas se omitir. É o golpe, e não a democracia. Ponto.

Assim, o Min. Barrosdo avisa que não é golpista tout court, mas apenas pelo princípio da colegialidade.

* * *

Por Romulus

Quanto a (1), me parece meramente descritivo: uma singela apresentação dos termos em que divergem os ministros do Supremo. Uma parte vê claramente o golpe. A outra, não é que não veja, mas está se lixando. É só ver como é vagabunda a caracterização da “divergência”: uns apontam o golpe e os outros apontam a falta de sustentação política. Em outras palavras, uns acham que devem e outros acham que não devem considerar a ilegalidade do processo. Uns acham que devem intervir e outros que não.

Car@,

Só esqueceu do terceiro bloco no Supremo: o daqueles MinistroS que estão no golpe.

Aliás, não só estão como são articuladores capitais do mesmo.

Não preciso colocar foto desta vez, né?

* * *

Por André Oliveira

Barroso se comporta como um juíz de luta de boxe que pula pra fora do ringue quando a disputa entre os dois pugilista fica muito feroz, por medo de receber um gancho de esquerda perdido.

Estranho que Barroso ande falando mais, bem mais, do que deveria, e falando mal. Logo ele que costumava dizer que não comentava sobre questões que deveria analisar em ações na Corte.

Como dizia a personagem Emilia de Lobato o ministro abriu a torneirinha.

* * *

Do (leitor que assina) noctivago vago

Penso caber mais uma vertente sociológica

Que tal, a despeito do expressivo e intenso testemunho do aluno ( suponho que excelente ) ao mestre (excelente ), num texto com viés nitidamente histórico, diante desse nosso agora, mas também o dos dias futuros – os quais confirmarão nossas descobertas e posições..; que tal, diante disto tudo, propor e fazer o viés sociológico – posto que anterior ao direito – antes deste pertinente e adensado pedagógico-juridico? Afinal, ubi societas, ubi jus, mas não o contrário, não é mesmo?

Quando esperamos encontrar caráter, firmeza e cultura de valores, isto reside fora e não dentro do direito. É muito mais moral e filosófico que o sistema desta preponderante linguagem, àquele auto referenciamento que a pertinência e o ‘devir’ jurídico sequer alcançam…

Imaginemos um Judiciário onde o seu amigo mais querido, e que por acaso é juiz togado, seja diferente daquele seu amigo dono de pizzaria. E por que seria diferente? Por causa de um só, justo e único insumo intelectivo – a educação. Só por isto. Pensar que o dono da pizzaria não pudesse ser um magistrado melhor que seu amigo mais querido…baseado em que? Aptidão, talento, atributos, qualidades, essência? Justamente aí encontram-se as surpresas da vida: como a gente se amarra em histórias, narrativas e relatos empolgantes de vencedores, especialmente quando saem de tão baixo e chegam tão alto…

A dobra da circunstância pelo talento, a todos, nos fascina…

Qual a leitura, então?

Por que razão imaginar um Judiciário saído do túnel do tempo, diferente deste nosso. Tão escravagista quanto nosso passado. Como explicar um clássico e rural senhor de engenho de toga, como GM? Como explicar um descompromisso com a verdade penal como uma RW dizendo: os fatos não condenam, mas irei contemplar a literatura jurídica, aquela que diz que pode..? Temos o direito de não sermos classistas? Se afinal, enquanto cada classe veja-se como ‘a classe de pessoas’, ou subgrupo de indivíduos a quem e para quem todos os outros devem algo? Como ser menos bairrista ante nosso tosco brasil varonil, quando e onde parte substancial dos nossos melhores malditos : Mário de Andrade, Glauber, Nelson Rodrigues, Tobias Barreto ( Graciliano, Josué de Castro e tantos mais ), são tão geniais que mal cabendo em si, derivaram saindo da particularidade para falar da mortiça e cruel generalidade

– endemica e social; e mais ainda, falar de frente a ela ; e sendo o que foram e são, nossa sociedade é tão ruim que até os engole e aceita, mas à boca miúda incrimina e recrimina estes tais discriminados e malditos?

Ou mesmo o tênue limite de manobra, por onde escrevia e descrevia socialmente a nossa infindável futilidade, o negro e formidável Machado, o príncipe escritor nosso?

Nosso Judiciário, infelizmente é e só pode ser o nosso Judiciário. A política é a mais maldita das bênçãos humanas e afinal, personagens não podem ou conseguem ser corajosos. Pessoas humanas, apenas numa dada inflexão de tempo, oportunidade e necessidade, o são.

Apenas a religião consegue respeitar o fato que o herói histórico mais genuíno e verdadeiro é e sempre foi divino.

* * *

Do (leitor que assina) Rpv


Devaneios de um leigo nesta seara

Sei que você fala de uma pessoa e não de uma ciência social aplicada chamada: Direito.

Mas acho que vale a pena tratar sobre ela. Sua reflexão me levou a isso.

Como leigo, vejo dois extremo nessa área. Um “garantismo frouxo”, para dizer o mínimo. Àquele que nosso excelentíssimo ministro GM pratica com seus “amigos”. Vide Roger Abdelmassih e DD, para citar casos emblemáticos, ao menos é o que aparenta para um leigo. Esse Direito (sem julgamento de valor em relação ao Ministro) é um formalismo cego. No primeiro caso um homem rico, casado com uma mulher jovem, condenado a mais de duzentos anos com fartas evidências recebeu um HC. Estava claro que tentaria fugir do país. No segundo caso, será que o juiz Fausto estava querendo fazer graça com um juiz do Supremo, para reiterar um novo pedido de prisão logo após o primeiro HC? Não parece razoável com seu currículo.

Por outro lado, há um discurso, ao menos perceptível para um leigo, de que é preciso, nos julgamentos, “interpretar”, “contextualizar”, “historicizar” os fatos, pois do contrário, se estaria cometendo injustiças (os “ricos podem pagar bons advogados”, etc.). Quando ouço esse discurso, como leigo, vale reiterar, me soa como um “idealismo romântico”. Como se o Direito tivesse uma função justiceira, aquilo que a luta política, numa “democracia jovem e frágil”, é incapaz de fazer. Assim, através do Direito se corrigiria as distorções e, assim, se estaria praticando “justiça social”. Tudo entre aspas, ok? Esse Direito se denominaria de “voluntarismo implacável”. Uma espécie de “teoria do domínio do fato” levada ao extremo, se é que isso é possível pós Joaquim Barbosa?

E qual a ironia da história? Qual é a ironia dessa luta entre “direita” e “esquerda” pela disputa sobre o que vem a ser uma boa prática jurídica, ou melhor, sobre o que seria um “bom Direito”?

A esquerda criticava o “garantismo frouxo” e a direita o “voluntarismo”. A primeira, porque dessa forma os “crimes de colarinho branco” e os “homens ricos” em geral, nunca sentiriam o peso da Justiça sobre seus ombros. Do outro lado, a direita criticava o “voluntarismo implacável” porque temia ser pego por ele. Se um juiz tivesse a liberdade de julgar, tão somente conforme “sua vontade”, a revelia dos “fatos materializados nos autos”, etc, etc; isso daria margem ao arbítrio do Estado contra a liberdade do cidadão. A ruína dos princípios liberais.

E aí está a ironia. Sei que esse discurso “voluntarista” não era praticado pela esquerda mais esclarecida (sem ironia), mas era proferido largadamente pela maioria da esquerda ligada aos movimentos sociais. E, por isso, pode-se dizer que o feitiço virou contra o feiticeiro. A “direita golpista” está deitando e rolando; abusando até dizerem chega, no uso do “voluntarismo implacável” para, primeira e precipuamente, derrotar o “trabalhismo” (é assim desde Vargas), e, depois, esvaziar os poderes eleitos e, por fim, se deixarmos, assumirem o Poder através de uma “burocracia aristocrática” de puros e sábios (e dá-lhe auxílios com retroativismo desde os tempos de Cabral… Fora outras cositas, que ninguém ousa comentar, pero, como las brujas, que las hay…)

E aqui chegamos a prática do Ministro Barroso. Na verdade, o exercício do Direito no Brasil é um mero joguete nas mãos daqueles que efetivamente detêm o poder. A chamada “plutocracia”, ou “as elites”, “os poderosos”, o “1%”, os golpistas, etc.

E, diante disso, o apelo. Será que é pedir demais, ou melhor, será que é ser ingênuo demais pedir coerência aos operadores do Direito no Brasil. Ou os “doutores”, que gostam tanto de criticar “essa bagunça”, “essa bandalheira”, será que não ficam nem ao menos rosados de rolarem felizes nessa lambança de contradições, aumentando exponencialmente a distorção do nosso Estado Democrático de Direito? Essa bagunça, doutores, são vocês que fazem (com nobres exceções). Como diria o poeta: Transformam o país inteiro num puteiro. Pois assim se ganha mais dinheiro.

E eis que o nobre Ministro do qual você fala tristemente, nada mais é que uma engrenagem dessa máquina podre. Não é desculpa. NUNCA. Mas não consigo deixar de lembrar o Ministro Marco Aurélio, quando ficou falando sozinho após o incidente com o Lula. Uma andorinha só não faz verão.

Operadores do Direito do Brasil, que prezam pelo equilíbrio e a coerência – a alma de toda ciência: uni-vos! Vocês têm uma parcela de contribuição muito grande a dar para podermos enfrentar nossos dilemas e assim construirmos uma nação mais justa, equilibrada e fraterna.

Um “bom Direito” é um Direito coerente, aquele que não escolhe hora e nem pessoa para se efetivar. Aquele que segura CEGAMENTE a balança EQUILIBRADA numa das mãos e a espada na outra. Que respeita os meios (a coerência, governdada pelo equilíbrio e o bom senso), independentemente dos fins que eles venham a produzir, porque sabe que a “carne é fraca” e quem legisla é o povo, por isso, que seja feita sua vontade (através das leis e do voto) e não a vontade de “doutores iluminados”, pois de boas intenções…

Coerência, senhores do Direito. Será pedir demais?

* * *

Por Ciro D’Araújo:

Trilha sonora deste post:

“Libera Me” (Fauré), por James Morris

(vídeo com o áudio belíssimo linkado ao post)

——

Líbera me, Dómine, de morte ætérna, in die illa treménda.

Quando cœli movéndi sunt et terra.

Dum véneris iudicáre sǽculum per ignem.

Tremens factus sum ego, et tímeo, dum discússio vénerit, atque ventúra ira.

Quando cœli movendi sunt et terra.

Dies illa, dies iræ, calamitátis et misériæ, dies magna et amára valde.

Dum véneris iudicáre sǽculum per ignem.

Réquiem ætérnam dona eis, Dómine: et lux perpétua lúceat eis.

——

Livra-me Senhor, da morte eterna, naquele dia tremendo,

Quando os céus e a terra se moverão

Quando virás julgar o mundo pelo fogo.

Eu me sinto tremer, e temo, até chegar o julgamento e a ira futura,

Quando os céus e a terra se moverão.

Naquele dia de ira, calamidade e miséria, dia de grande amargura

Quando virás julgar o mundo pelo fogo.

Dá-lhes descanso eterno, Senhor, e luz perpétua brilhe sobre eles.

* * *

Viva a web 2.0! (2)

Obrigado, Nassif! (2)

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.