Bolsonaro quer ser o cara
Luiz Carlos de Oliveira e Silva (Professor de Filosofia)
- Bolsonaro sempre foi um típico político do “baixo clero”, sem maiores ambições, satisfazendo-se com as mutretas menores da política como rachadinhas, funcionários-fantasma, desvio de verbas de gasolina etc. De vereador a deputado federal, foram quase trinta anos seguidos nessa vidinha sossegada…
- Mas aconteceu de a fortuna bater à sua porta… Mesmo medíocres como Bolsonaro são capazes de perceber a “chance de suas vidas”. Ele ousou atender ao chamado, apostando ter as virtudes necessárias para dar conta da oportunidade que se abria diante de si.
- Estas virtudes atendiam pelo nome-fantasia de Paulo Guedes, um homem “do mercado”, que sempre viveu de oportunidades e apostas, se é que vocês me entendem… Guedes fez a “leitura correta” da conjuntura e apostou no azarão, fornecendo a Bolsonaro o que este jamais imaginou ter: uma agenda político-econômica coerente, com programas de curto, médio e longo prazos.
- A agenda Paulo Guedes não é mais do que a continuidade e o aprofundamento do programa da plutocracia rentista de desmanche de todas as bases sobre as quais se apoiou o processo de modernização do país, iniciado em 1930. Desde o governo Collor, este programa de desmanche é o que vem unificando a plutocracia…
- Por ter a agenda programas de curto, médio e longo prazos, ela tem camadas distintas, cada uma com sua dinâmica própria. Por isto, o governo Bolsonaro tem que contemplar os interesses menos imediatos – cujos efeitos serão sentidos mais adiante, como as privatizações e as “reformas” –, como tem que atender aos interesses imediatos do rentismo – que dependem do Orçamento da União e da contenção dos “gastos públicos” etc.
- Oriundo dos porões da ditadura – a sua “alma mater” – e cevado por anos pela doce mediocridade da apropriação de verbas de gabinete, seria Bolsonaro capaz de administrar as contradições da agenda de desmanche em meio a crise que vivemos?
- Depois que Bolsonaro descobriu o caminho-das-pedras que levaram Lula ao paraíso eleitoral que deu a vitória ao PT em três eleições presidenciais seguidas, ele também quer ser “o cara”, por boniteza e por precisão. Os novos fatos indicam, me parece, que Bolsonaro – quem diria? – quer ser um novo Lula, um Lula-sem-PT…
- Lula conseguiu a proeza de produzir uma aliança entre os mais pobres (“tiramos 30 milhões da pobreza!”) com a plutocracia (“nunca se ganhou tanto dinheiro como nos meus governos!”). Este parece ser o modelo que Bolsonaro está ensaiando tomar para si. Para isto, ele precisa convencer a plutocracia que mais vale garantir a aprovação da agenda de médio e longo prazos – as “reformas” e as privatizações – que a manutenção a ferro-e-fogo da agenda imediatista da “responsabilidade fiscal”.
- Bolsonaro – ao dar um chega-pra-lá nos olavistas e no imediatismo de Guedes, e ao cair nos braços do Centrão – quer convencer a plutocracia de que o melhor caminho para garantir a aprovação da agenda de desmanche é restabelecer a aliança “lulista” entre os pobres – via políticas de transferência direta de renda – e o rentismo. Ainda que com o sacrifício das “contas públicas”…
- Bolsonaro precisa ser reeleito, para a segurança jurídica de sua família, isto é certo, mas ele está conseguindo dar um sentido político a este interesse privado. Como foi dito acima, mesmo medíocres como ele são capazes de perceber a “chance de suas vidas”. A palavra agora está com a plutocracia…
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