Não nos deixe sem liderança, (Presidente!) Lula!

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

Não nos deixe sem liderança, Presidente Lula. Convoque o mundo por testemunha da nossa luta. Dobre a aposta. E, assim, desmascare o blefe deles. Deixando-se levar, o Sr., ao contrário, permitirá que tal blefe se torne realidade.

Está na hora de perdermos o que resta dessa soberba e aceitarmos: institucionalmente, não somos mais do que um grande Paraguai. Uma grande Honduras. Toca engolir o orgulho (descabido) e recorrer a todo o apoio com que pudermos contar. Onde quer que ele possa ser encontrado.

Para que os gênios de Lula, Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurelio Garcia criaram a UNASUL, a CELAC e relançaram o MERCOUSL senão para lidar, também, com situações dessa natureza?

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Espectador do Duplo Expresso desta manhã comenta, ao término do programa:

O general, político e estadista francês que liderou as Forças Francesas Livres durante a II Guerra Mundial, Charles de Gaulle, “fugiu” da França para a Inglaterra. Também na II Guerra Mundial, o general norte-americano Douglas MacArthur “fugiu” das Filipinas para a Austrália, jurando “eu voltarei” para depois aceitar a rendição do Japão em 1945, supervisionando sua ocupação até 1951.

Mas não precisamos ir tão longe na História. Em 2009, deposto por um golpe civil-militar e exfiltrado sob a mira de metralhadoras de seu país, o Presidente de Honduras Manuel Zelaya regressou clandestinamente da Costa Rica e buscou refúgio na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Ou seja: o oposto de “fugir”. Logrou, com essa ousadia, internacionalizar a questão. E, tão importante quanto, seguir denunciando não apenas o golpe que sofrera, in loco, mas também a manipulação da eleição que se avizinhava, realizada sob estado de sítio. Semelhanças com o Brasil de 2018 não é mera coincidência.

  • Zelaya fala à TV alemã da Embaixada do Brasil.

Mesmo cercada pelo exército, a embaixada do Brasil tornou-se, até o término do processo eleitoral, o ponto focal da resistência hondurenha:

  • Zelaya faz comício (!) da Embaixada do Brasil

Mais recentemente ainda, condenado a prisão política (travestida de “jurídica”) junto ao seu gabinete, o Presidente (separatista) do Governo da Catalunha, Carles Pigdemont, “fugiu” para a capital da União Europeia, Bruxelas. Internacionalizou assim, na marra, questão que os chefes de Estado do continente, hipocritamente, insistiam ser “interna do Estado espanhol”. Ou seja, o similar local do “as instituições estão funcionando normalmente”.

  • Bruxelas: Puigdemont internacionaliza, na marra, conflito entre a Catalunha e a Espanha

Mesmo fora do país, Pidgemont concorreu a um assento no Parlamento da Catalunha, tendo sido reeleito pela Província de Barcelona. Foi, na sequência, reeleito também para o cargo de Presidente da Catalunha pela maioria parlamentar conquistada por seus apoiadores – apesar do intenso bombardeio político-midiático do governo de Madri. Condenado a prisão caso pise em solo espanhol, Puigdemont segue liderando um “Governo da República Catalã no exílio”, em Bruxelas.

Voltemos ao Brasil. A Presidente do PT, Gleisi Hoffmann, reafirma todos os dias a disposição do Partido de seguir com Lula “até as últimas consequências”. Nem poderia ser diferente, já que o PT – corretamente – grita aos quatro ventos que “eleição sem Lula é fraude”. Quem registrará a candidatura de Lula será ela própria: Gleisi Hoffmann. Há exemplos concretos de candidaturas apresentadas em convenção partidária por procuração, diante da impossibilidade de comparecimento do candidato por constrangimento do Judiciário. Seja porque, vítima de lawfare, o candidato estivesse preso – caso do sindicalista e vereador Jeremias Casemiro, em Resende-RJ – ou, mais “inusitado” ainda, estivesse foragido – caso do Prefeito de Embu das Artes, na Grande São Paulo, Ney Santos.

 

É certo que se deixar prender, injustamente, reflete não apenas a magnanimidade do Presidente Lula mas também o seu altruísmo em nível individual: com desprendimento, permite que, nas mãos de seus algozes, sua imagem pessoal seja aviltada com finalidades políticas. Sim, porque, a partir de uma prisão, a “narração” sobre o personagem Lula tocará exclusivamente ao outro lado (com “notinhas” plantadas na grande imprensa, imagens “dessacralizantes” vazadas, etc.)

Mas e para o coletivo? E para a luta?

Será adequado, em momento tão dramático, permitir ao inimigo que retire do campo de batalha a nossa liderança? Deixando para trás uma tropa acéfala? Perdida entre gritos contraditórios dos diversos lugares-tenentes, rivais, que ficam? Alguns deles, inclusive, que sem muito disfarçar torciam – quando não se empenhavam, como viemos a constatar recentemente – para que a operação de retirada do General pelo inimigo tivesse sucesso?

O que se teme?

Mácula na biografia?
(ou seria “hagiografia”?)

O rótulo de “fujão”?

Voltemos, pois, ao início:

– MacArthur!

– De Gaulle!

São ambos, herois da II Guerra, “fujões”?

Na certeza da absolvição de ambos não apenas pela História, mas também pelos seus contemporâneos, fecho com importante lição do General de Gaulle. Lição essa até aqui não aprendida por quem parece querer uma solução negociada para a crise brasileira, mas que sabota, inconscientemente, esse mesmo propósito:

(…)

Como mencionado no programa, a ofensiva dos Marinho, de saída já fadada ao fracasso, lembra importante lição de estratégia dada pelo General De Gaulle aos americanos, no contexto da Guerra da Argélia. De Gaulle fora eleito para resolver a “questão argelina”. Na sua histórica viagem a Argel, então capital da “Argélia francesa”, em público!, De Gaulle celebremente disse aos colonos, contrários à independência, “je vous ai compris”, livremente traduzido como “eu entendi os seus anseios” – para aplausos frenéticos da multidão. No entanto, já no voo de volta a Paris, confidenciava aos conselheiros mais próximos: “estive lá e pude ver. A Argélia e os argelinos jamais serão franceses. A guerra está perdida”.

Contudo, os atos que se seguiram aparentemente demonstravam o contrário: De Gaulle ordenou na sequência a maior ofensiva das forças militares francesas contra os insurgentes independentistas de toda a Guerra!

Como explicar?

Abismado com a manobra, o representante do governo americano, também convencido da inevitável derrota francesa, pergunta ao General por que, estando numa posição de fraqueza, não negociava com os rebeldes, em vez de ataca-los daquela forma.

De Gaulle não hesitou e deu lição ao americano:

– Ora, justamente! É por estar em uma posição de fraqueza que não podemos negociar! Isso seria uma capitulação – e não uma negociação! Para negociar, temos de estar em uma posição de força. Daí o nosso ataque feroz!

Da mesma forma, é por estarem nas cordas que a Globo e a Lava Jato, convencidos de sua derrota no final, ensaiam o contra-ataque atrevido. Querem, na realidade, conseguir um acordo – menos ruim – para ambas.

E como deve reagir Lula?

Ora, deve ele também seguir a máxima do General De Gaulle e partir para cima com tudo.

*

Imaginemos uma romaria de personalidades internacionais, prêmios Nobel e estadistas visitando, um a cada dia, Lula asilado numa Embaixada. Imaginemos as entrevistas (como as de Zelaya para a TV alemã!). Imaginemos convocação extraordinária da OEA, da UNASUL, do MERCOSUL e da CELAC para deliberação de emergência (senão da Assembleia Geral e, talvez, do Conselho de Segurança da ONU).

Aliás, para que os gênios de Lula, Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurelio Garcia criaram a UNASUL senão para lidar, também, com situações dessa natureza?

Paraguai é suspenso do bloco da Unasul
Do G1, com agências internacionais

Mercosul também suspendeu o país nesta sexta-feira até eleições de 2013.
Medidas ocorrem após Lugo sofrer impeachment em processo relâmpago.

Os membros da Unasul decidiram nesta sexta-feira (29), em reunião extraordinária realizada na Argentina, suspender temporariamente o Paraguai do bloco regional até a realização de novas eleições naquele país, previstas para abril de 2013.

A decisão, anunciada pelo ministro das Relações Exteriores argentino Hector Timerman, após a reunião realizada em Mendoza, Argentina, acontece pouco após decisão tomada pelo Mercosul, que suspendeu o Paraguai e incluiu a Venezuela ainda nesta sexta. Segundo Hector, o bloco espera a retomada da “ordem democrática” no Paraguai.

O bloco da Unasul é formado por Argentina, Brasil, Uruguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Guiana, Suriname, Venezuela e o suspenso Paraguai.

Suspensão do Mercosul

O Mercosul decidiu suspender temporariamente o Paraguai até as novas eleições presidenciais do país, em 2013, e afirmou que a Venezuela será incorporada ao bloco como “membro de pleno direito” em 31 de julho.

Os anúncios foram feitos pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner, ao fechar o encontro de cúpula semestral do bloco na cidade argentina de Mendoza.

O Mercosul “suspendeu temporariamente o Paraguai até que se leva a cabo o processo democrático que novamente instale a soberania popular” no país, disse a presidente argentina, ao lado da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e do presidente do Uruguai, José Mujica.

(…)

Serve para o Paraguai mas não para o Brasil?

Por quê?

Porque, no “grande” Brasil, “as instituições funcionam normalmente”?

Está na hora de perdermos o que resta dessa soberba e aceitarmos: institucionalmente, não somos mais do que um grande Paraguai. Uma grande Honduras. Toca engolir o orgulho (descabido) e recorrer a todo o apoio com que pudermos contar. Onde quer que ele possa ser encontrado.

Rogamos:

– Não nos deixe sem liderança, (Presidente!) Lula!

– Convoque o mundo por testemunha da nossa luta!

– Dobre a aposta!

– E, assim, desmascare o blefe deles!

– Deixando-se levar, o Sr., ao contrário, permitirá que tal blefe se torne realidade!

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  • “Liderar resistência de embaixada é ato de bravura, Lula”

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.