Bolsonaro, Folha e o ‘Telecatch’

Bolsonaro, Folha e o ‘Telecatch’:Redução de ganhos de servidores e políticos criaria caixa bilionário, mas por ora só há ações isoladas“,  matéria em destaque da FSP de hoje.

Por Piero Leirner.

A ideia de transformar o ‘Telecatch’ em conceito para entender a guerra híbrida veio do Romulus Maya, há cerca de 2 ou 3 anos.  Ele bem alertou então: “mesmo empresário, dois lutadores – toda oposição é ilusória“.

Assim é, também, essa que foi criada – e vivida em ambos os lados – de 2018 para cá, entre a imprensa establishment (mas pode levar na bacia das almas também os blogs satélites [de ambos “lutadores”]) e Bolsonaro.

Estamos falando há tempos que o projeto visa um “reboot” do Estado.

Para resumir a história, vou colocar aqui o diálogo que tivemos em mensagem, quando estávamos escrevendo um artigo para o Duplo Expresso, e que fecha a minha tese de titular (sim, vai sair, espero…):

“[19:26, 12/06/2019] Romulus: como q eh o nome do evento q possibilita o golpe na guerra hibrida? eh alguma coisa event

[19:26, 12/06/2019] Piero Leirner: Boot

[19:26, 12/06/2019] Romulus: boot event?

[19:26, 12/06/2019] Piero Leirner: Ou reboot

[19:27, 12/06/2019] Romulus: reboot

[19:29, 12/06/2019] Piero Leirner: Trata-se de um reboot, ou ‘reinicialização’ do sistema? É possível perceber sinais de que tal processo começou?

[19:32, 12/06/2019] Piero Leirner (mensagem de voz): E se trata de um reboot com ‘patch de segurança’. Sempre que computador atualiza tem isso.

[19:33, 12/06/2019] Romulus: e colocar a whole spectrum psy op

[19:44, 12/06/2019] Romulus: O – esperado – ‘golpe no golpe’ e a ‘guerra híbrida’ (…) O ‘sistema operacional’ do ‘computador-sociedade’ sendo (re-) inicializado no ‘modo de segurança’. Aquele em que todo o poder é dado ao administrador do sistema, para que possa ‘reparar a vulnerabilidade’ que o ameaçava. Para isso, diversas das funcionalidades do sistema, antes autônomas, passam a depender de comando específico/ autorização do administrador. Troque-se ‘computador’ / ‘sistema’ por ‘sociedade’ e ‘administrador’ por ‘ditadura’ que a metáfora fica ainda mais clara”.

Foi assim que insistimos desde então na metáfora do Sistema Operacional (parece que tem gente que “descobriu a pólvora” esses dias vendo o DE).

Para ser sincero, é só uma imagem mais cristalina de processos que descrevem a guerra híbrida e suas técnicas, que são muito tributárias da “cibernética social” (Bateson, Boyd e o OODA Loop). Mas qual era o ponto?

Insistíamos que uma parte central dos processos da assim chamada guerra híbrida no Brasil envolviam a tomada do Estado (sim, Estado, e não só Governo), seu aparelhamento e um novo “ambiente” de “visualização” do “sistema operacional” – chame-se isso de ideologia.

No fundo, os principais agentes operacionais disso – o “DOS” do sistema – eram os militares, que acoplaram outros “sistemas” que começaram a produzir os filtros, o I/O (Input/Output) – “quem pode” e “quem não pode” “rodar no ambiente”.

Esse é, por exemplo, o papel ideológico que a Justiça realizou (junto com uma série de outros agentes) em relação ao tema da “corrupção”.

Esta peça visava o começo do processo de “desinstalação” dos scripts anteriores. Seu modus operando foi projetar nesses scripts tudo aquilo que se deseja fazer, atribuindo a eles o “funcionamento errático” do sistema.

Assim, em um primeiro momento, era o PT que “aparelhou e ideologizou” o Estado; beneficiou empresas “amigas”; instituiu um projeto de poder para um “Reich de 1000 anos”. A “corrupção” sintetiza esse processo.

Como procurei argumentar há bastante tempo, trata-se de um processo de “transferência projetiva”: você manda para o outro seus sinais com um acoplamento negativo e se livra da percepção de que é você quem está executando este processo.

Algo como enxertar seu script no software antigo, fazendo ele parecer o portador de um vírus (para usar uma metáfora mais atual).

E, para continuar na metáfora, agora que o PT foi colocado em quarentena – serve tão e somente para dizer que o atual SO precisa continuar “rodando” -, a fase é de limpeza do resto dos aplicativos.

O “espaço vital” dessa gente visa, justamente, esses dois: a política e a burocracia estatal.

Bolsonaro (os militares) ataca(m) sistematicamente a primeira, a Folha é uma mostra de como se ataca a segunda.

MAS TRATA-SE DO MESMO PATRÃO: o SO que vai produzir um novo Estado em “modo de segurança”, cujos parâmetros são são dados pelos militares

[PS: nada a ver com essa profecia auto-realizável do Agamben & nano-chips implantados tipo “Black Mirror”. O controle é ideológico e psíquico, o resto vem no piloto automático, como pretendem os manuais de Opsy da guerra híbrida].

A técnica da “pinça” em que este processo se desenvolve é basante clara.

De um lado ficam essas clivagens artificiais do “núcleo” do SO (Bolsonaro/Militares, Bolsonaro/Governadores, Bolsonaro/Mandetta, Bolsonaro/etc);

de outro a imprensa que faz o papel de sempre “ouvir os dois lados”.

E aí a “imprensa” produz essas “pérolas”, os “ataques” a Bolsonaro (que como efeito colateral reforçam a posição ideológica do próprio bolsonarismo – é uma sinuca de bico mesmo) mas também os “ataques” ao “Sistema Operacional antigo”.

Portanto, para finalizar, volto ao começo: Telecatch.

PS: podia voltar aqui à história dos banqueiros pagarem essa conta, mas hoje vou dedicar ela a este outro personagem – a Família Frias. Se eles toparem dar 30% do dinheiro que eles têm debaixo do colchão – que não está fazendo NADA a não ser esperar o sobe-e-desce de ações e “mercados” – eu topo dar 30% do meu salário também, sem criticar.

PSS: Sabem por que os 30% não saem do bolso do Frias & cia? Porque os militares garantem que não saia. E assim eles também garantem sua posição no novo SO – com a devida consolidação de todos os contratos que passam pela “nova política”…

link: https://www.facebook.com/100000522644355/posts/3401858083174913/?d=n

Piero Leirner, professor-doutro da Universidade Federal de São Carlos, tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em antropologia da guerra e em sistemas hierárquicos, desde 2013 também realiza pesquisa no alto rio Negro, sobre hierarquia em sistemas tukano.

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