COVID-19: monólogo do vírus

Monólogo do vírus
« Eu vim parar a máquina cujo freio de emergência vocês não encontraram»

Parem de me lançar esses olhares de vingança. Abandonem a aura de terror com que envolvem o meu nome.

Nós, os vírus, desde a origem bacteriana do mundo, somos o verdadeiro continuum da vida na Terra. Sem nós, vocês nunca teriam visto a luz do dia, nem mesmo teria estado sobre ela a primeira célula.

Nós somos os seus ancestrais, como as pedras e as algas, e bem mais do que os macacos. Nós estamos onde vocês estão e também onde vocês não estão.

É uma pena que apenas reconheçam no universo aquilo a vocês assemelhado.

Mas, acima de tudo, parem de dizer que sou eu quem está matando vocês. Vocês não estão morrendo por causa do que faço aos seus tecidos, aos seus pulmões, mas porque deixaram de cuidar dos seus semelhantes, de si mesmos e de toda a vida na Terra.

Se não tivessem transformado a ainda ontem exuberante, caótica, infinitamente povoada amplitude do mundo – ou melhor dito, dos mundos – num vasto deserto para a monocultura do Mesmo e do Mais, eu não teria sido capaz de me lançar à conquista planetária das suas gargantas.

Se durante o último século não se tivessem convertido praticamente todos em cópias redundantes de uma mesma forma insustentável de vida, não  estariam agora prestes a morrer como moscas abandonadas nas águas envenenadas da sua civilização adocicada.

Só estou cumprindo a sentença que vocês próprios proferiram há muito tempo. Olhem para mim com muito cuidado: sou apenas a outra face da Morte que reina soberana no mundo de vocês.

Por isso, parem de me culpar, de me acusar, de me perseguir. Olhem para mim como um libertador e não como o coveiro.

Vocês são livres para acreditar ou não em mim, mas eu vim desligar a máquina cujo freio de emergência vocês não encontram.

Eu vim suspender a operação da qual vocês são reféns. Eu vim expor a aberração da ’normalidade’.

Agradeçam-me, sim. Sem mim, por quanto mais tempo fariam passar como necessárias todas estas coisas aparentemente inquestionáveis, cuja suspensão é imediatamente decretada?

A globalização, as competições, o tráfego aéreo, as restrições orçamentais, as eleições, o espetáculo das competições desportivas, a Disneylândia, os ginásios, a maioria das lojas, o parlamento, o encarceramento escolar, as aglomerações de massas, a maior parte dos trabalhos de escritório, toda essa sociabilidade inebriada que é apenas o contrário da angustiada solidão da vida enclausurada nas grandes metrópoles.

Agradeçam-me o teste da verdade que vão passar nas próximas semanas: finalmente irão viver a própria vida, sem os milhares de subterfúgios que, mal ou bem, sustentam o insustentável.

Ainda não se tinham dado conta que nunca tinham sido capazes de instalar-se em suas próprias existências.

Graças a mim, por um tempo indefinido, não trabalharão mais, os seus filhos não irão mais à escola, e ainda assim será o oposto de férias.

Eu vim para desacomodar a todos vocês. Nada lhes garante que o não-mundo de antes vai retornar.

Se vocês não forem mais remunerados, se não receberem seus salários, o que pode ser mais natural do que deixar de pagar  o aluguel? Por que é que alguém que não pode mais trabalhar deve continuar a pagar prestações aos bancos ?

Agradeçam-me: pois os coloco ao pé da encruzilhada que tacitamente estruturou suas existências: a economia ou a vida.

A decisão é de vocês.

O que está em jogo é histórico. Ou os governantes impõem o estado de exceção deles, ou vocês inventam o de vocês.

Ou vocês aproveitam o tempo que agora lhes dou para imaginar o mundo do depois, a partir das lições do colapso a que assistimos, ou este colapso será completamente radicalizado.

O desastre cessa quando para a economia. A economia é o desastre.

Perante mim, não cedam nem ao pânico nem à negação. Não cedam à histeria biopolítica.

As próximas semanas vão ser terríveis, esmagadoras e cruéis. Os portões da Morte estarão bem abertos.

É uma civilização, e não vocês, que eu venho enterrar. Aqueles que querem viver terão de criar novos hábitos para si próprios.

Cuidem dos seus amigos e dos seus amores. Repensem com eles uma forma de vida justa. Criem aglomerados de Bem Viver, expandam-nos e eu não terei poder sobre vocês.

Que outra forma havia para lhes lembrar que a redenção está em cada gesto? Que tudo reside  no ínfimo.

Tive de me render às evidências: a humanidade apenas se coloca as questões que já não pode mais deixar de se colocar.

 

link original com o texto completo: https://lundi.am/Monologo-do-virus

 

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