Hy-Brazil: eles “amam” o Brasil

{nota: este texto inclui contribuições dos participantes no Grupo do Duplo Expresso no Telegram.}

historicamente a base eleitoral do clã Bolsonaro se concentra nas baixas patentes das FFAA,  nas polícias e milícias, em amplos setores neo-pentecostais, nos caminhoneiros e numa diversificada parcela da população mobilizada pelo anti-petismo.

muito embora Bolsonaro sirva caninamente ao centro do núcleo do setor dominante no Brasil (banqueiros, exportadores de commodities, grande comércio importador, mídia corporativa), este não esconde preferir um cão de guarda com melhor pedigree.

mas existiria um grande empresariado genuinamente “puro-sangue bolsonariano”?

quais as principais áreas de atuação dos empresários integrantes do Instituto Brasil 200 e apoiando o ato convocado por Bolsonaro para 15-MAR-2020?

os grandes empresários financiam campanhas eleitorais, assim como empenham apoio político, como um investimento cujo retorno se dá através de favorecimentos em concorrências, aditivos de contratos, superfaturamentos, anistia e isenções fiscais, mudanças normativas, alterações na legislação e mesmo emendas constitucionais.

cada segmento do setor dominante projeta e molda um Brasil conforme seus interesses e de acordo com seus negócios específicos.

para os exportadores de commodities, o Brasil não passa de uma gigantesca fazenda e uma imensa mina, onde a quase totalidade da população é perfeitamente dispensável.

voltados para o mercado externo, não dependem da demanda interna. seus negócios são como enclave territoriais conectados a portos de escoamento para o exterior, com uma cadeia produtiva já desnacionalizada, tanto nos insumos e maquinário fornecidos por transnacionais quanto pela comercialização da exportação controlada por grandes traders globais.

o Brasis dos exportadores de commodities já é, e sempre foi, um país neo-colonial e semi-escravocrata.

para os banqueiros e rentistas, a mais valiosa commodity brasileira é a taxa SELIC, seus negócios orbitam em torno da assim mal denominada “dívida pública”, um mecanismo criminoso de transferência de renda, geração de miséria e perpetuação da condição dependente e periférica da economia brasileira.

um moinho satânico girando a cada noite no overnight uma parasitária fortuna, remunerada à uma das maiores taxas de juros reais do mundo, sem gerar qualquer emprego e sem nada produzir.

em janeiro de 2020: As operações overnight corresponderam a 99,5% do total das operações compromissadas, com médias diárias de R$1,1 trilhão e de 8.160 operações.

o Brasis dos banqueiros e rentistas é um país cuja totalidade da economia é engolida pelo buraco negro da financeirização, transformando cada habitante num cidadão endividado, cuja única cidadania restante consiste em fazer da existência um esforço integral para saldar uma dívida impossível de ser quitada.

para o grande comércio importador, um robusto mercado consumidor interno é condição fundamental para o sucesso de seus negócios, do mesmo modo uma âncora cambial mantendo a relação Dólar/Real favorável à importação.

o Brasis do grande comércio importador é um país “classe média” e de “moeda forte”.

o governo Bolsonaro se esmera em atender as demandas do Brasis dos exportadores de commodities e do Brasis dos banqueiros e rentistas: liberação de agrotóxicos, abertura das terras indígenas à mineração, contra-reformas regressivas, privatizações, queima das reservas cambiais, não auditoria da dívida pública, proposta de autonomia da Banco Central.

já o Brasis do grande comércio importador atuando no varejo sofre duplamente: com o Dólar valorizado e pela queda do poder de consumo da maioria da população.

o Real é a moeda que mais se desvalorizou no mundo em 2020, com uma queda acumulada de 13%;

taxa de desemprego e sub-emprego atinge 34,5%;

52,5 milhões de pessoas ainda vivem com menos de R$ 420 por mês.

ao pagar mais caro pelos produtos importados, é obrigado a majorar o preço de venda num cenário de grave contração da demanda.

assim, eis a questão:

por que os empresários do grande comércio importador, prejudicados pela política econômica do governo, ainda apoiam Bolsonaro?

originado do Movimento Brasil 200, lançado no início de 2018 em Nova York, o Instituto Brasil 200 tem também como empresa participante a BNZ – Advogados Associados, por sua vez principal organizadora da Associação “Eu Amo o Brasil”, com sede na rua Estados Unidos, São Paulo (SP).

a “Eu Amo o Brasil” tem como missão a promoção do patriotismo, neste sentido toma iniciativas tais como:

– hasteamento de 103  bandeiras do Brasil ao longo da Marginal Tietê;

– divulgação da lei Nº 12.031, de 21/09/2009, determinando a execução do Hino Nacional, ao menos uma vez por semana, em todas as instituições de ensino fundamental, sejam públicas ou privadas.

um “patriotismo” reduzido a sua expressão mais superficial e caricata e invertido em prol do país alheio, cujos exemplos mais grotescos são:

– a presença uma Estátua da Liberdade em frente as lojas da rede Havan;

 – Bolsonaro batendo continência à bandeira dos EUA.

no caso da Havan, há um longo histórico documentado de empréstimos tomados no BNDES, a maioria na modalidade FINAME – destinada à aquisição de máquinas e equipamentos nacionais voltados para produção industrial, o que não se ajusta a empresas atuando no comércio varejista.

segundo o procurador Celso Três:

“A Havan tem origem no ilícito, no extraordinário esquema de corrupção no porto de Itajaí por onde Luciano importava mercadorias subfaturadas no atacado pagando tributos simbólicos.”

envolvendo também remessas ilícitas ao exterior, a megafraude foi denunciada pelo MPF em 2004:

“No método de pagamento e remessa ilícitas através de CC5, muitas vezes os valores partiam de uma conta no BESC, titulada pela empresa Havan e por Nilton Hang. Desta conta foram efetuados inúmeros Doc’s para as contas correntes no BANESTADO.”

mas em 2008 a Justiça Federal em Itajaí julgou a denúncia inepta…

assim, voltamos a questão:

por que os empresários do grande comércio importador, prejudicados pela política econômica do governo, ainda apoiam Bolsonaro?

a verdade parece ser: tudo é fake! o segredo do negócio jaz alhures.

{nota sobre o conceito de lumpenburguesia:

“O que agora constatamos são combinações entre assentamentos de empresas transnacionais dominantes na banca, no comércio, os meios de comunicação, a indústria, etc, rodeados por círculos multiformes de burgueses locais completamente transnacionalizados em seus níveis mais altos, rodeados, por sua vez, por setores intermediários de diferentes pesos.

 Os grupos locais se caracterizam por uma dinâmica de tipo “financeiro”, combinando todos os tipos de negócios legais, semilegais ou abertamente ilegais, desde a indústria ou o agro business até o narcotráfico, passando por operações especulativas ou comerciais mais ou menos opacas.

 É possível investigar a uma grande empresa industrial mexicana, brasileira ou argentina, e descobrir laços com negócios turvos, uso de paraísos fiscais, ou com uma importante empresa de cereais realizando investimentos imobiliários em esquemas de lavagem de dinheiro proveniente de uma rede narco, que por sua vez está associada a um grande grupo midiático.

 As elites econômicas latino-americanas aparecem como parte integrante da lúmpen burguesia global. São sua sombra periférica, nem mais nem menos degradada que seus paradigmas internacionais”

“O auge das lúmpen burguesias latino-americanas” – Jorge Beinstein}

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arkx é um nickname presente na Internet desde seus tempos primevos, na época dos BBS antes da Web. algumas poucas vezes arkx é nosotros, nunca é anônimo mas sempre não é um autor.

anteriormente em Hy-Brazil:

para além da farsa e da tragédia

também os anões começaram pequenos

o auto-golpe do “foda-se”

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