Distopia: Distorção e Desesperança vs. Consciência e Eros

 

Por João de Athayde

Ilustração: Lu Amaral

Substituímos a utopia pela distopia neoliberal 

Substituímos a utopia, seja ela socialista, comunista ou mesmo social-democrata, mais precisamente capitalista social-democrata, onde se sugeria um possível equilíbrio moral entre forças sociais desiguais e antagônicas, pela distopia neoliberal. Ou então a utopia católica São Franciscana — e suas variantes fora do quadro católico — de viver aqui em Terra num espelho de paraíso onde os seres humanos se despojem de seus excessos materiais e vivam em harmonia com a natureza. Uma natureza que seria a emanação do divino, uma carnação do divino e na qual o Ser Humano encontra ou reencontraria seu lugar, respeitando a encarnação da divindade residente no outro Humano. 

Pois bem, substituímos — ou nos forçam a substituir — estas e outras utopias pela distopia neoliberal, que grita em suas mídias compradas, falsos pastores e intelectuais manipulados, consciente ou inconscientemente: “Não há outro jeito! Não há outra via! Não há outra salvação, no nível coletivo, senão acatar o “Fim da História”! Era isso o que o Fukuyama na verdade se apressava em anunciar e a gente não percebeu direito (1). A partir disto, devemos prestar reverência ao inexorável avanço do divino senhor capitalismo financeiro predatório norte-ocidental, o destruidor de Estados e instituições nacionais, estruturas públicas, direitos trabalhistas, sociais e de toda forma de egrégora horizontal e solidariedade consciente, afetiva e efetiva (2). 

Além de tudo, este capitalismo financeiro é antiestético, porque é contra qualquer forma de beleza que venha da tessitura social: massacra a flor com um tanque de guerra ou com um think tank. O neoliberalismo é, por assim dizer, antipoético por essência e por excelência.

 

Estar em Distopia

“NOS DEMOS CONTA DE QUE ESTÁVAMOS NUM PESADELO DISTÓPICO, NUM FILME DE TERROR OU CIÊNCIA-FICÇÃO AMARGA E TURVA COMO A ÁGUA DA CEDAE”

Mas a distopia a qual quero me referir é também “estar em distopia” que aqui seria um estado emocional individual. Trata-se de um olhar distópico sobre as coisas, os acontecimentos, a sociedade, a vida. Estar em estado distópico, que traz algo de terrível e desesperador, é aumentar a visão e a relevância do que é ruim, fazendo uma distorção para o lado do que é mau. É uma visão distorcida da realidade que não auxilia a enfrentá-la, logo, não convém alimentá-la.  

No caso da distopia Brasileira ou da distopia ocidental, ela é certamente fruto de um momento político-econômico, social, coletivo, mas que vai se expressar em muitos de maneira individual e intimamente. Ou seja, muitas pessoas ao mesmo tempo tendo, ou tendendo a ter, um olhar exagerado e distorcido, como se vivessem numa distopia, oscilando entre dias ou momentos infestados com este teor. Mas é claro que isso é provocado: sabemos, vemos e constatamos que há grandes interesses por detrás disso. 

Nas sociedades norte-ocidentais a tendência distópica se baseia num relativamente sutil, mas constante declínio das condições de vida e da esperança no futuro. Isto gera muitas vezes uma melancolia calada, podendo levar à uma depressão ou às posturas reativas com o próximo, como o sarcasmo recorrente ou uma ironia um tanto histérica, que é, ao mesmo tempo, fruto da descrença no contato verdadeiro com o outro e provocador de barreiras nestes mesmos contatos sinceros. Isto vem junto com um individualismo exacerbado, uma busca ávida de prazeres materiais ou sensoriais concomitantemente com uma falta de libido – ou ao menos de uma libido sã (3).  No plano social, isso pode gerar uma falta de natalidade e, no nível individual, uma falta de fertilidade/potência e de energia criadora erótica (colocando aqui em oposição a energia ou impulso de vida eros, e o impulso ou tendência à morte, thanatos). Isso traduz-se por uma falta de energia vital, o que só pode ser resolvido por uma sugação da energia do outro, ou seja, um certo “extrativismo humano”, seja da mão-de-obra do outro — quase sempre o imigrante — seja da energia artístico-criativa de outrem, de alguém que esteja fora do círculo thanatos-materialista. 

Psychi em grego (4), que dá origem ao termo psique, é “alma” e uma das maneiras de interpretar o termo alma é “o que você pensa e sente aí dentro desta cachola de ilusão individual”. Ou seja, psychi/alma/pensamento/sentimento é algo distinto do material, do materialismo. E não tem nada a ver com espiritualismo, ou pelo menos pode não ter a ver, estou me referindo aqui a algo mais no âmbito do psicológico. 

Ao mesmo tempo, vivemos em carnadura no mundo material e precisamos de alimento, proteção, prosperidade. Sim, essa é a dicotomia última do ser humano… que talvez nem venha a ser uma verdadeira dicotomia, mas uma extensão, uma complementaridade. Porém, o ser humano necessita de projetos e projeções, e isso é do âmbito da psychi/alma/pensamento/sentimento (que é, no final das contas o que os Alemães chamam de Geist e os Franceses de esprit) e esses projetos, projeções, crenças e esperanças geram a energia para que se atue no mundo material, na realização, no trabalho, na sociedade, na economia.  Pois bem, no Brasil a distopia se alimenta da velocidade da queda: parecíamos estar enfim decolando enquanto sociedade e país quando nos demos conta que estávamos num pesadelo distópico, num filme de terror ou ciência-ficção amarga e turva como a água da CEDAE, a companhia pública de águas do Rio de Janeiro, hoje contaminada por sabotagem e/ou descaso gerados por interesses privatizantes. Então, nessa novela-pesadelo distópica brasileira, no espaço de três, quatro anos… estávamos no abismo. Estaríamos até, segundo o pensamento distópico, não à beira do abismo, mas já largados em seu vão. 

A distopia brasileira é o desespero da queda, o debater-se do afogado, ou melhor, do afogando. Envolto pela espuma das ondas, mesmo o exímio nadador pode entrar em pânico. Então, gato escaldado requer atenção: a situação é ruim, mas quem tem interesse em estimular um quadro distópico, desesperador, depressivo, desalentador? Cui bono? Quem ganha? A quem isso beneficia? A quem isso interessa, como se diz no Duplo Expresso? Esta é a pergunta do milhão! Não; dizendo melhor, essa é a pergunta do grilhão; o grilhão é o elo da corrente, porque é justamente a pergunta da libertação, é a pergunta da saída da Matrix, é a pergunta do fim da ilusão. Cui bono? A quem interessa?  Interessa a alguém ou “alguéns” que vai/vão vender soluções, soluções de ilusões. Sejam estas soluções autoritárias “versão crua”, neoliberais entreguistas ou soluções pseudo-democráticas pseudo-libertárias, identitárias maquiadas… e neoliberais entreguistas. Não nos deixemos então capturar por esse jogo; esquive-se, resista pessoalmente e socialmente, enfrente no pessoal e no social. Enfrente e siga em frente. 

A prática neoliberal é por fundamento e princípio antipopular, incluindo aí ser anti-classe média, extrato social que os neoliberais põem tanta energia e recursos midiáticos para capturar. Assim sendo, porém, o resultado é sempre a insatisfação popular e essa insatisfação é o que deve ser usado como liga social. Para isso devemos nos livrar da ilusão, das ilusões. E talvez não seja tão difícil se desiludir quando a vida e a sociedade começam a piorar a olhos vistos. Então o ponto é a consciência: é por isso que as forças neoliberais põem tanta energia no controle da mídia. 

 

Crítica ao Romantismo como Filosofia

“ALGUNS (…) COGITAM NEM MAIS VIVER: “VIVER PARA QUE, NUM MUNDO QUE PARECE UM PESADELO.” JUSTAMENTE; QUE PARECE UM PESADELO.”

Se a crença na utopia pode ter algo de sonhador-ingênuo, esta, porém nos dá forças para viver, lutar, construir e realizar. Por outro lado, o olhar distópico ou o pensamento distópico, nos entristece, nos desespera e nos desanima, nos tira forças de agir. Nos incita a seguir o que parece ser o “novo senso comum”, a seguir lideranças (distópicas) que parecem saber aonde vão, a seguir o que dizem os anúncios, a mídia (a mídia “alternativa” de ex-querda e de nichos identitários aí incluídos) ou ainda, nada fazer, tudo abandonar e, quando muito, se limitar a sobreviver. Alguns, ou muitos em alguns momentos, cogitam nem mais viver: “viver pra quê, num mundo que parece um pesadelo?” Justamente; que parece um pesadelo. Esta é a visão distópica, que é exageradamente romântica — me refiro ao Movimento Romântico — e que é fatalista e geradora de tuberculoses emocionais e sociais. O Romantismo como filosofia, ou como modo de lidar com os fenômenos, é ou foi capaz de engendrar grandes obras de arte, mas como este se baseia numa visão idealizada de si mesmo, do outro, das relações, da sociedade, da natureza, carrega em si o germe de um componente de desilusão fatalista que leva à morte concreta ou simbólica. Morte ou apodrecimento de sua energia vital; morte ou fim de relações afetivas e sociais; morte ou desequilíbrio de sistemas morais, levando o indivíduo a “passar para o outro lado” literalmente, psicologicamente, politicamente; morte ou abandono de um povo, de um país, de uma nação, de um projeto de nação. 

 

“É FÁCIL MANOBRAR UMA MASSA EM PÂNICO, MAS É DIFÍCIL MANOBRAR PESSOAS E COLETIVOS CONSCIENTES”

É muito útil uma consciência, uma observação um pouco mais analítica, distanciada dos eventos, sem deixar-se confundir com eles, ou seja, a consciência de que a grande maioria desses eventos são como a chuva: os fatos sociais, políticos e pessoais tocam você mas não atingem seu âmago porque você não é feito de açúcar para se desfazer com a água, embora alguns poucos poderosos manipuláticos (manipuladores através do midiático) tenham interesse em te fazer crer nisso.  Cui bono? A quem beneficia? Certamente não a você. Não à sociedade, não ao país, não aos povos. Portanto, não se ligue no DDD da Distopia, Distorção e Desesperança por que esse DDD — uma ligação que te oferecem “gratuitamente” — é exatamente a base que certas forças econômico-políticas (e outras sabe-se lá com que intenções), necessitam para manipulá-lo. É fácil manobrar uma massa em pânico, mas é difícil manobrar pessoas e coletivos conscientes. 

Praticar o fortalecimento da psichi/alma, dos pensamentos/emoções/sentimentos é praticar o fortalecimento pessoal, social e político. Ligue-se em pessoas que estão na mesma frequência de onda, ou que estão buscando essa mesma frequência.  

Sintonize; estamos aqui! E não estamos sós — embora existam muitos iludidos por aí, cada vez mais pessoas no mundo estão se tornando conscientes das linhas e pinças de manipulação. 

Ah, e neste caso então, cui bono? A quem interessa a consciência?

Interessa ao ser humano, ao ser bem humano, interessa a nós. 

 

Lutanálise! 

Notas:

1-Eu mesmo, admito, na época não percebi.

2- Egrégora, segundo o Dicionário Online de Português: “Força espiritual que resulta da soma das energias mentais, físicas e emocionais proveniente de duas ou mais pessoas reunidas em grupo.” Eu acrescentaria que a egrégora pode ser vista também como uma reunião geradora de uma coesão psíquica e social. 

3-Não se trata de uma abordagem moralista, mas de um conjunto de fatores fisiológicos e psicológicos, como a capacidade de se relacionar e de sentir e proporcionar prazer erótico-genital sem ferir ou aviltar ao outro ou a si mesmo, obter/gerar mais satisfação que angústia, levar em conta a afetividade, entre outros aspectos.  

4-Ψυχή, lê-se aproximadamente “psirrí”, ou “psihi”.

 

João de Athayde é antropólogo carioca residente na França (Aix en Provence). É doutor na Universidade de Aix-Marselha, França e vinculado ao IMAF (Institut des Mondes Africains / Instituto dos Mundos Africanos) com pesquisa sobre as heranças culturais ligadas ao tráfico de escravos no contexto do Atlântico Negro, em especial sobre identidade, religião e festa popular entre os Agudàs, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a África e o Nordeste Brasileiro. Ele participa e comenta no Duplo Expresso às sextas-feiras.

 

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