Lula, o Petismo e a Natureza do Escorpião Esperto

Por Mário Maestri

Segundo a fábula, na travessia do riacho, o escorpião afogou-se ao picar a rã que o carregava às costas, em obediência irracional à sua natureza de predador.
A população tenta atravessar a destruição geral do país pelo golpista portando às costas a oposição faz-de-conta, capitaneada pelo petismo.
Espécie de escorpião malandro, a oposição caviar deixa a população se esvair na terrível travessia, para picá-la mortalmente ao pisar na outra margem.
Pretende sair da água, descansada, sem se molhar, toda pimpolha, para seguir o caminho, ditado por sua natureza, entre os escombros fumegantes da outra margem.
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Nas últimas décadas, o Brasil conheceu literal desfibramento, através de crescente desnacionalização e internacionalização de sua indústria, em contínuo recuo em relação ao agro-negócio e à mineração. Movimento apoiado por todos os governos que se seguiram após a “redemocratização” em 1985.
Para assumirem a presidência, Lula da Silva, Dilma Rousseff e o petismo abraçaram a política de liquidação da autonomia nacional, também entregando as decisões essenciais do país a representantes do capital globalizado – Enrique Meirelles, Palocci, Joaquim Levy, etc.
Desde 1985, o país foi espécie de latifúndio colonial ao serviço do pagamento dos rentistas e na obediência ao capital financeiro e imperialismo. Nos anos de vacas magras, a “plebe ignara” comeu o pão que o diabo amassou. Nos de vacas gordas, o pão foi servido com mortadela, cobrado dos viventes com juros do cartão.
Em 2016, o golpismo buscou salto de qualidade na dominação já exercida, através de reformatação geral que reduzisse a economia da nação à produção de quinquilharias, de grãos, de carne, de minério e de petróleo, tudo sob o domínio imperialista.
Do projeto não fazia e não faz parte uma ditadura militar e menos ainda uma ordem fascista. Nos espera coisa pior.
Iniciou-se submissão do Brasil a um status de nação “neo-colonial globalizada”, no qual as decisões políticas centrais são tomadas pelo imperialismo, em nome do grande capital.
Para tal, procedeu-se à destruição do capital monopólico nacional; das leis trabalhistas; das pensões, da saúde, da educação pública. Implementou-se a privatização das grandes empresas públicas. No parlamento golpista, assistiu-se à gestão semi-militarizada do país e à criminalização da oposição.
O poder busca uma institucionalidade que naturalize a privatização geral da administração das decisões econômicas públicas. Que transforme a gestão política desfibrada – municipal, estadual e federal – em monopólio de administradores-representantes do capital globalizado. Tudo, sob o alto controle dos senhores generais, juízes, senadores, deputados, etc., movidos por seus interesses próprios e submetidos ao grande capital globalizado hegemônico.
A inexistência atual de nacionalismo mesmo conservador na esfera militar ou entre empresários nacionais deve-se à debilidade da industria nacional e à sua incapacidade de propor caminho autônomo.
Mesmo antes da vitória da maré contra-revolucionária mundial de fins dos anos 1980, multidões de dirigentes políticos, populares e sindicais que se propunham de esquerda e do mundo do trabalho se metamorfosearam em políticos tradicionais. Passaram também a viver a política como meio de progressão pessoal, em uma ordem capitalista que acreditavam e propunham eterna.
O essencial era se eleger -ou se reeleger- presidente, governador, senador, deputado, vereador; ser ministro, secretário, assessor e por aí vai e, sobretudo, apresentar o mamar nos úberes fartos do Estado como serviço prestado à população e, não raro, à revolução!
Com o golpe de 2016, a esquerda de mentirinha alarmou-se com o perigo da suspensão de suas posições e privilégios institucionais, no exercício dos quais jamais criaram reais dificuldades para o avanço pouco silencioso do golpismo, a cara feia do grande capital ao qual serviram com devoção.

 

A vacuidade da ensurdecedora auto-propaganda petista das maravilhas de seus governos comprovou-se em 2016. O governo dilmista caiu sem que os trabalhadores saíssem à rua em sua defesa, com o fizeram na Venezuela, de Chaves e de Maduro, ou mesmo na Bolívia do presidente fujão.
Alguns diriam, com razão, que a oposição foi sabotada por organizações inexpressivas, ditas de esquerda, como o PSTU, o MES, a CST. Outros, também com razão, lembrariam que o PT e a CUT jamais chamaram de verdade a população em defesa do governo. Essa sim, foi uma das razões da escassa mobilização contra o golpe.
Desde sempre, o petismo e associados negaram-se a promover uma oposição dura e consequente ao golpismo institucional. Negaram-se a romper com as classes dominantes, chamando a população a uma luta dura. Dispuseram-se, ao contrário, a repactuar o contrato de serviços ao grande capital, no qual seus empregadores não mais se interessavam.
A CUT jamais mostrou a cara na luta contra o golpe. O governo Rousseff preferiu defender-se com os meios tortuosos tradicionais, como, sobretudo, a troca de votos no Parlamento por cargos. A presidenta participou da farsa do impeachment, legitimando-a, em troca da manutenção dos seus diretos políticos, que pouco lhe serviram, em 2018. Haddad fez ainda melhor. Afirmou que o golpe não era golpe.
Lula da Silva fez o inimaginável. Quando o governo Temer, a primeira barriga de aluguel do golpismo, fazia água e a população descia às ruas contra ele e o golpe, o ex-sindicalista gritou, em 26 de agosto de 2017, em Salinas, Minas Gerais, o “Fica Temer” e mandou a população se preocupar com as eleições de 2018. Pensava na sobrevivência política do PT e na sua, sabendo que as eleições seriam uma farsa e que o povo continuaria escorrendo pelo ralo do golpismo.
A farsa eleitoral entronizou a segunda barriga de aluguel do golpismo, um monstrengo que infantou monstrengos. E o PT e seus puxadinhos – PCdoB, PSOL, etc. – reconheceram a eleição como legal, com os desejos de bom governo ao novo presidente, por parte do indefectível Haddad. E, então, passaram a fazer de tudo para não serem alijados das benesses de que gozavam e continuam gozando.
Aceitam sem oposição a institucionalização do golpismo e esforçam-se para reprimir os brotes de oposicionismo da população, apontando agora como saída da crise as eleições de 2020 e 2022, que serão igualmente manipuladas. Pretendem desembarcar, sem se molharem e mantendo seus privilégios, na outra margem do rio, território nacional arrasado e calcinado para sempre pelo golpismo.
Lula da Silva apontou o caminho da submissão ao entregar-se sem resistência à Justiça golpista. Manteve comportamento digno e altivo na prisão, alimentando entretanto o mito de que foi injustiçado apenas por Moro e sua gangue, sem apontar o STF, o Congresso, os senhores generais que guardavam no bolso a chave da sua cela e o imperialismo, no comando geral da operação.
Com o governo Bolsonaro beijando a lona, a derrota de Macri na Argentina e parte da América Latina sublevada, Lula da Silva obteve a liberdade. Saiu da prisão e gritou “Fica Bolsonaro”, reafirmou a legalidade do governo ilegal e nada disse sobre o combate ao golpismo ao qual ainda não se referiu diretamente.
Nos seus primeiros quinze dias de liberdade, espinafrou o Mico, o Moro, o Dallagnol, a Rede Globo. Literalmente, choveu no molhado. Falou de sua tesão de 20 anos, da namorada, das maravilhas de seus governos. Apontou como único caminho da oposição as eleições de 2020 e 2022, dando tempo para o golpismo consolidar sua obra, em troca de muitos eleitos para o PT.
Em Recife, ao lado de Haddad, que reconheceu como seu candidato em 2018 -e certamente em 2022-, propôs que a passada luta por “Lula Livre” seja substituída pelo apoio ao reconhecimento de sua inocência. Agora, anuncia-se que pretende “dialogar” com os generais e com Rodrigo Maia, o chefe golpista no Parlamento.
Não cessa de jogar baldes de água gelada sobre uma oposição morna, já que sem direção.
Não avançaremos se não compreendermos que Lula da Silva, PT e anexos são eventualmente oposição bem comportada ao bolsonarismo, no seio do golpismo, ao qual já se acomodaram. Que a acomodação ao grande capital, ao qual seguem prestando os costumeiros bons serviços, faz parte de suas naturezas profundas de escorpiões da política tradicional.Mário Maestri, 71, é historiador.
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