América Latina Insurrecta Encurrala o Brasil Liberal

 

Por Mário Maestri

 

É um exagero dizer que a América Latina insurrecta encurrale o Brasil liberal. Mas é forte, sim, a pressão das atuais lutas populares no continente sobre o golpismo brasileiro.  Já nos últimos tempos, havia indícios de viragem dos ventos que começava a alimentar a rebeldia popular ao sul do rio Grande. A primeira lufada forte antiliberal foi a vitória, em junho de 2018, do oposicionista moderado López Obrador, nas eleições presidenciais do México. Ela foi seguida do anúncio de um pequeno tufão, pelo vergonhoso escore de Macri diante do peronista Alberto Fernandez, também nada extremado, nas primárias eleitorais de agosto deste ano. Apenas reza muito forte reverte a derrota do mauricinho do neoliberalismo sul-americano domingo próximo na Argentina.

 

Em setembro de 2019, no Haiti, retomaram as manifestações exigindo a renúncia do presidente pró-imperialista Jovenel Moïse. A repressão segue duríssima, já com mais de vinte morto, sob o quase silêncio da grande mídia internacional. E, em 31 de agosto, sem festa, sem parada, quase se escondendo, partiam as últimas tropas brasileiras de ocupação, enviadas à sofrida ilha, em 2014, pelo então presidente Lula da Silva, a pedido de Bush II. Elas deixaram um rastro de sangue e de tristeza e custaram e custarão bilhões de reais ao país, além terem sido importante ninho da conspiração dos generais golpista de 2016.

 

Já preparava as malas

Logo, iniciou a tormenta antiliberal. Em 9 de outubro, Lenin Moreno, o presidente equatoriano que se alugou ao imperialismo, despertou com a população enfarada nas ruas, devido a aumento astronômico dos preços dos combustíveis, parte das exigências do FMI -organização verdadeiramente criminosa- para aumentar com mais um empréstimo o endividamento do país. Lenin Moreno abandonou a capital, viu o país caindo nas mãos da população, já apoiada por parte das forças  armadas. E quando preparava as malas, foi salvo pela grande central sindical camponesa, que propôs a volta dos manifestantes para casa em troco da promessa de fim dos aumentos.

 

Após quatorze anos na presidência, o imperialismo apostava no desgaste de Evo Morales, governante nacional-populista sul-americano, concorrendo pela quarta vez à presidência. Todas as fichas do grande capital foram para Carlos Mesa, que assumira o governo nacional, em 2003, por breve tempo, após a fuga do presidente-empresário Sanchez Louzada, com a população nos seus calcanhares. O imperialismo e associados locais esperavam no mínimo um segundo turno, o que seria uma humilhação para Evo Morales e trampolim para operações golpistas. Em 20 de outubro, a população reelegeu-o no primeiro turno. Teriam ajudado a vitória os sucessos do Equador, encerrados dias antes e, mais ainda, a explosão popular chilena, iniciada quando se preparavam as urnas bolivianas. Agora, a reação nacional e internacional tentam debilitar o governo questionando a legalidade das eleições.

 

Também ao imperialismo o que é ruim pode sempre piorar. Por décadas, o Chile foi a vitrine do proposto paraíso liberal, que teria sido conquistado, em 1973, com privatizações radicais; destruição das conquistas sociais; repressão e massacre dos trabalhadores e de suas organizações. Receita amarga para a população, mas que traria bons bons resultados para todos, afirmava-se. No dia 18 de outubro, sexta-feira, o anúncio por Sebastián Piñera de pequeno aumento da passagem do metrô de Santiago fez explodir a amplíssima insatisfação popular com a organização neo-liberal do país. O amplo, maciço e duro movimento não retrocedeu diante da repressão criminal. O presidente ultraliberal foi à televisão, pediu perdão chorando lágrimas de crocodilo, prometeu concessões à população -aposentadoria, salário, saúde, etc. Entretanto, a população continuou nas ruas. O Partido Comunista e Socialista se negaram a participar de um farsesco “acordo nacional”. Sobretudo a CUT chilena chamou greve amplamente seguida em 24 de outubro.

 

Ventos Fortes

O ir e vir da luta política e social dá-se nos quadros das nações. Mas sua influência, boa ou ruim, tende a saltar faceira por cima das fronteiras, sobretudo em nossa época de informação imediata. Nenhuma nação é uma ilha isolada, diria se estivesse vivo o poeta jacobino John Donne. A vitória de Macri, de Piñera, a traição de Lénin Moreno e, sobretudo, o golpe no Brasil, em 2016, influenciaram patologicamente a América Latina, difundindo e fortalecendo o desânimo e o sentimento de impotência popular. Agora, o espraiar da revolta da população nas ruas e nas urnas intranquiliza a ordem golpista brasileira em institucionalização.

 

Por mais que a grande mídia se esforce para impedir, a população brasileira compara as semelhanças das suas condições de existência e reflete sobre as certeiras formas de oposição da população enraivecida dos países vizinhos. Se fortalece a compreensão de que apenas quem pede recebe, de que somente quem luta avança. São igualmente graves os golpes recebidos pela retórica da emancipação liberal, demagogia fortemente atingida sobretudo pelos fracassos de Macri, na Argentina, e de Piñera, no Chile reformatado por Augusto Pinochet e seus generais. 

    

Naqueles dois países se prometeu a emancipação liberal através da privatização dos bens públicos, da educação, da saúde, das pensões, etc. tudo à sombra do grande capital internacional. Bolsonaro, Macri e Piñera, apresentados no passado como os fulgurantes e inovadores três mosqueteiros da nova era liberal triunfante, desfilam agora diante dos olhos do mundo como o que realmente são – os três patetas macabros da peste capitalista em sua idade senil.

 

Complexidade Infinita

O Brasil, aposta grande na roleta imperialista, é nação de complexidade infinitamente maior do que a da Bolívia, do Equador, do Chile e da Argentina juntos. É qualquer coisa como a reunião das quatro nações e mais vinte e duas outros países hispano-americanos, já que formado pela agregação unitária de todas as ex-colônias luso-americanas. Para os trabalhadores e a população do Brasil, por-se a caminhar, em um mesmo passo,  contra seus inimigos, não é coisa simples. Mas quando o fizer, se o fizer, o grande capital e seus lacaios nacionais civis e militares serão extirpados, sem piedade, como ervas daninhas.

 

A história assinala a capacidade de lua de pequenas parcelas da população do Brasil que, em Palmares, Canudos e Contestado, defrontaram com sucesso forças militares repressivas imensamente superiores. Ou as mobilizações da população unida, em 1954, quando da morte de Getúlio, ou em 1961, no movimento da Legalidade, que fizeram tremer e recuar os generais golpistas e seus associados civis. A isso se deve a importância dos presentes  sucessos da América Latina, que estão hoje na cabeça dos brasileiros, queira ou não queira a grande mídia golpista.

 

A explosão popular no Equador, Chile, Haiti não foi espontânea, mas preparada por organizações populares, de diversas ordens, em geral pequenas e com grandes dificuldades de ação. Elas acenderam a faísca, mas não tiveram a força para dirigir a população em sua marcha. População que sabe o que não quer, mas ainda não compreende a necessidade de apoderar-se do poder, que é todo seu, por direito. E esse é certamente um dos mais graves problemas do Brasil, além da sua enorme  complexidade.

 

 Entre nós, os Prometeus, que desafiaram no passado, sem medo, o Olimpo, com a chama às mãos, para iluminar o caminho da liberdade social, se transformaram e deram lugar, hoje, a rechonchudos bombeiros estipendiados pelos deuses do capital. Os dirigentes dos partidos parlamentares de oposição seguem mandando a população a abandonar a luta, e só olharem e se preocuparem com as  eleições de 2020 e 20022. Acertam o passo com o golpismo, preocupados em elegerem-se e reelegerem-se em 2020 e 2022. Es esforçam e negociam para desempenhar algo semelhante ao triste mas bem remunerado papel do MDB, durante a longa ditadura militar, de oposição consentida e bem comportada.

 

Não vim trazer paz à terra

No Brasil, o massacre da população e da própria nação segue praticamente sem resistência. Os sindicalistas se escondem, esperando com o bom comportamento voltar a receber o imposto sindical. Os parlamentares encenam oposição e sequer denunciam a metamorfose em marcha das instituições em prol da construção de Estado e de nação desfibrados e desossados, geridos pelo grande capital internacional, tendo como administradores locais os senhores generais, juízes e políticos excelentes, remunerados regiamente.

 

A oposição colaboracionista literalmente contribui para a naturalização da nova ordem “neocolonial globalizada” em instauração. A destruição social e nacional e a entrega do patrimônio nacional ao capital estrangeiro dão-se sem qualquer oposição – Alcântara, Embraer, Pré-Sal, Aeroportos, BB, CEF, BR, Petrobras, Previdência, CLT, etc. Sequer denuncia-se a institucionalização em marcha do controle militar da população, com nova legislação e determinações como “Cadastro [nacional] Base do Cidadão”, promulgado em 10 de outubro de 2019; a PL 2.418/2019, que legaliza o controle das comunicações sem ordem judicial; a PL 1.595/2019 que viabiliza a criminalização da oposição sob a justificativa do “combate ao terrorismo” e legaliza a violência e crime policiais e militares.

 

E o que a oposição colaboracionista promete para o futuro não poderia ser pior. Esforça-se para fazer alianças com setores golpistas, em nome do combate ao Bolsonarismo, fenômeno conjuntural da nova ordem em construção do grande capital e do imperialismo. Mais ainda. A grande mídia noticia segmentos petistas preocupados com que uma eventual soltura de Lula da Silva reunifique nas eleições o bolsonarismo, hoje vazando água por todos os costados. Mas que o golpismo não se assuste. Lula da Silva promete que, se for solto, viajará pelo Brasil pregando a palavra boa -para o capital- da reconciliação nacional, logicamente sem restaurar a destruição estrutural dos bens e dos direitos da nação e de sua população.

 

 Não sou eu que digo do que necessitamos para sair desse buraco que nos engole e nos tritura. Para agradar a Damares, cito Jesus Cristo, caso Mateus, 10:30 não tenha inventado. É ele que aponta o caminho para a população do nosso triste país. Estrada também indicado pela  América sublevada: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada.

 

Mário Maestri, 71 historiador, é autor de Revolução e contra: revolução no Brasil. 1530-2018.

https://clubedeautores.com.br/livro/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil#.XW2RdS3Oogt

 

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