A carta de Lula, a versão do 247, a correção do PCO e os vinte e três porquinhos

Por Mário Maestri

Ao montarmos um puzzle, revelamos a imagem nele escondida, bonita ou feia. Mas, para isso, as pequenas peças devem ser encaixadas, todas, corretamente, sem forçá-las. Na madrugada do dia 7 julho, quarta-feira, passava no Congresso, em segunda votação, a destruição do sistema público e privado de pensões, por 370 a 124 votos. Ao mesmo tempo, o governo e a Justiça golpistas autorizavam a transferência de Lula da Silva, da Polícia Federal, no Paraná, onde está preso em cela individual, para a famigerada prisão de Tremembé, no interior de São Paulo. Ali seria encarcerado em unidade prisional comum, coletiva, para ser exposto a indiscutível risco de vida e vexação. Isso, poucas semanas após a mortandade de mais de meia centena de detidos na prisão de Altamira, no Pará, devido à enorme violência e desordem do sistema prisional do país.

No mesmo dia, 7, quarta-feira, após contribuirem ao assalto do grande capital às pensões dos brasileiros, Rodrigo Maia e líderes e parlamentares de partidos da base da sustentação do golpe, à pedido de parlamentares do PT e de outros partidos ditos de oposição, dirigiram-se ao STF para requerer que sustasse a transferência descabelada e irresponsável. O que foi prontamente aceito, mesmo sem percorrer as instâncias inferiores competentes, pouco confiáveis. Nesse momento, já era claro que a provocação começava a causar forte comoção no país, que ensejaria manifestações populares de indignação.

Feito isso, tudo voltou à tranquilidade – o projeto de modificação constitucional do regime previdenciário foi enviado ao Senado, onde será votado e aprovado duas vezes. E Lula da Silva permaneceu onde estava, transformando-se sua prisão em Curitiba em um quase privilégio. Tratou-se literalmente do alívio da família ingênua ao retirar o bode que lhe puseram na sala, para que viva a inocente ilusão de melhoria, enquanto tudo segue igual e mesmo cada vez pior.

Na continuação, em 12 de agosto, segunda-feira, Lula da Silva enviou carta aos “Deputados e deputadas” que foram apresentar seus protestos ao STF contra, nas suas próprias palavras, “mais uma arbitrariedade da Vara de Execuções Penais no processo em que fabricaram minha condenação sem provas de qualquer crime”. Na breve missiva, de menos de uma página, Lula da Silva saúda a “oportuna e inequívoca demonstração de defesa das garantias individuais e do Estado Democrático de Direito” por aqueles que tomaram sua defesa, naquele momento. Agradece, assim, o que define como “gesto de solidariedade”. Rodrigo Maia e os parlamentares golpistas terminaram, portanto, saindo otimamente na foto dessa enorme encenação.

Dois dias depois, 14, Mauro Lopes escreveu o comentário “Da cadeia, Lula dá o primeiro passo”. Nesse artigo, o editor do Brasil 247 propõe que o ex-presidente e ex-sindicalista avançava aos destinatários do agradecimento, entre eles Rodrigo Maia, o cacique do Centrão, a proposta de uma “frente antifascista” para o país. A “carta” seria destinada a “praticamente todo o espectro político do país, exceto à extrema-direita” bolsonariana, a alguns partidos nanico, o PTB, o Novo e o PSDB. A mão estendida aos golpistas praticantes do Centrão expressaria o fato de que Lula da Silva tudo desculpava, inclusive sua prisão, pois teria “os olhos postos no país”. Ou seja, a oposição perdoaria o feito e nada reivindicaria do perdido em prol de uma frente anti-fascista que teria dois dois grandes eixos. Ou seja, a “defesa das garantias individuais e do Estado Democrático de Direito” destacada pelo autor na conclusão da sua carta de agradecimento.

Comentário da direção do PCO impugnou quase imediatamente a interpretação do principal editor do site petista. O pequeno partido centrou sua passada atuação política na defesa do direito de Lula da Silva participar nas eleições e, após elas, na liberdade do principal preso político do Brasil. Tudo associado, agora, à proposta de luta pela derrubada do segundo governo golpista, que defende como ilegal, antipopular e antinacional.

Entre outras ponderações, o artigo do PCO aponta com razão que a carta, “por si só”, não permite a dedução de Mauro Lopes de lançamento por Lula da Silva da citada e exótica frente anti-fascista com os golpistas, à exceção dos bolsominions e alguns outros poucos. Como lembrava Freud, muitas vezes, um charuto é apenas um charuto, como uma carta de agradecimento pode ser apenas isso. A interpretação de Mauro Lopes não teve maior difusão na mídia, e salvo engano, fora o pronunciamento do PCO, não conheceu crítica ou esforço de contextualização que permitisse melhor compreensão de seu sentido. Assim como uma uma melhor avaliação do pronunciamento de Lula da Silva por carta.

Inicialmente, é importante destacar que, ao menos, a defesa da frente oposicionista geléia com o Centrão tem o apoio de Mauro Lopes e de importante parcela do PT. O que não é pouco. Caso contrário, o editor do 247 não teria divulgado sua interpretação da carta de Lula da Silva. E, se o tivesse feito por iniciativa pessoal, teria sido exigido sua retratação imediata. Uma outra constatação necessária é que Lula da Silva não impugnou, direta ou indiretamente, a dedução rendicionista de sua carta de agradecimento. As razões para a sua falta de pronunciamento sobre ela podem ser diversas. Ele pode estar total ou parcialmente de acordo ou pode não se opor visceralmente à proposta de frente amplo com uma facção poderosíssima do inimigo. Ainda mais que praticamente todos os golpistas aos quais agradece pelo ato já participaram da base de apoio dos passados governos presidenciais petistas. Ou pode simplesmente não querer se referir à interpretação.

Destaque-se também que o ex-presidente jamais impugnou diretamente a legalidade do segundo governo golpista, de Jair Bolsonaro, nascido de eleições fraudulentas. E se absteve de chamar, nas suas múltiplas entrevistas, os trabalhadores, diretamente, à mobilização pela reconquista de seus direitos, dos bens sequestrados à nação e pela derrubada da ordem ditatorial em instauração. Lula da Silva tem se limitado a apontar como solução da terrível situação do país uma fantasiosa volta ao colaboracionismo de classe, com sucesso muito relativo durante seu segundo governo, quando dos momentos áureos da economia mundial, há muito superados. Portanto, propõe apenas um retorno à “normalidade institucional” sem qualquer recuperação do que foi arrancado à população e ao país. Um comportamento que repetiria a entronização petista na presidência em 2002, que sancionou nos fatos as escandalosas mega-privatizações de FHC e as reformas anti-populares do PSDB. Lula da Silva segue vendo na intervenção de homens providenciais a solução do Brasil e do mundo.

Mesmo que não possamos deduzir seu apoio à pretensa frente com os golpistas vistos estranhamente como antifascista por Mauro Lopes -qualquer coisa como fogo que não queima e água que não molha-, a linha geral de atuação política de Lula da Silva, antes, livre, e, agora, na prisão, aponta nesse sentido. Foi Lula da Silva, que, em 26 de agosto de 2017, em Salinas, em Minas Gerais, mandou suspender a oposição dura das ruas pela deposição de Michel Temer, grogue e contra as cordas, para centrar forças nas eleições de 2018! A ação dos governadores nordestinos da oposição, de mãos dadas com as reformas impulsionadas pelo Centrão e pelo governo golpista, aponta também nesse sentido.

A política de apoio indireto à ofensiva anti-popular do Congresso, sob o comando de Rodrigo Maia, tem sido sustida indiretamente pela CUT petista e pela CTB do PC do B, através da escandalosa passividade que surpreende positivamente golpistas e governistas. As mobilizações de rua, longamente espaçadas, para não radicalizar a população revoltada, são realizadas sem preparo e convocação pelas centrais e direções sindicais molengas. São meros atos formais para não perderem totalmente a confiança da população.

No mesmo sentido político apontou Fernando Haddad, quando e após as eleições. Na campanha, ele jamais se referiu ao golpe. Tirou um selfie com o general chefe dos golpistas, que segue disparando contra a população. Prometeu não anistiar Lula. Cortejou FHC, Joaquim Barbosa, Moro e toda a caterva golpista que posava de democrata. Após as eleições, reconheceu o segundo governo golpista e desejou boa administração a Bolsonaro! Aponta, agora, como caminho de luta as eleições de 2020 e 2022, que serão certamente manipuladas como as de 2018. Eleições a serem realizadas quando a população e o país já estarão arrasados. Nesses momentos, Haddad prepara-se para defenestrar Gleisi Hoffmann da presidência do PT, no congresso de novembro, por pouco colaboracionista, e defensora de Lula da Silva, apoiado pela banda mais podre do petismo. Uma passividade cúmplice que se estende ao PCdoB e a uma boa parte do PSOL do Boulos e do Freixo. Este último acaba de vencer a copa da indecência adesista com seu verdadeiro “Namoro na TV” político com a Bruxa do Impeachment no programa “Quebrando o Tabu”.
Como propõe corretamente o artigo do PCO, “por si só”, a carta de agradecimento de Lula da Silva pode constituir apenas um agradecimento. Entretanto, até agora, na oposição parlamentar, as bandeiras oposicionistas foram todas arriadas e os fuzis apontam para o solo, em sinal de rendição às tropas e à ofensiva inimiga.

Entretanto, a carta de Lula da Silva do dia 12 de agosto e a proposta-interpretação de Mauro Lopes de abrir as portas da cidadela oposicionista já de muralhas instáveis foram coroadas por um enorme cereja, como todo o bolo que se preze. Para surpresa geral da nação e perplexidade dos ainda inocentes, no dia 14, quarta-feira, a MP denominada cinicamente de “Liberdade Econômica”, que propunha o fim do descanso dominical do trabalhador e a proteção do registro do ponto, entre outras barbaridades, foi aprovada pelos golpistas, na Câmara, em forma arrasadora, por 345 votos a favor e 76 contra. Dos 56 deputados do PT, apenas 33 votaram contra e 23 outros apoiaram a medida, se abstendo, por ausência. Um indiscutível sinal de boa vontade para com o Centrão, para com os golpistas, para com os generais vende-pátrias! E até agora não se escutaram sequer os muxoxos formais do PDT, para as arquibancadas, pela adesão de Tábata Amaral a praticamente todas as votações históricas contra os trabalhadores e a população.

Os indícios e as provas materiais são muitas. As ações da oposição petista e de seus puxadinhos indicam que eles, todos, procuram embarcar na canoa dos golpistas que consideram “moderado”. Mesmo quando eles lhes negam um lugar no barco dos vencedores. Se não é “vera” a proposta de frente petista com os antifascistas do Centrão, contra o bicho-papão Bolsonaro, anunciada por Mauro Lopes, ela é, definitivamente, “ben trovata”.

* Mário Maestri, 71, historiador, é autor de Revolução e contra: revolução no Brasil. 1530-2018. https://clubedeautores.com.br/livro/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil#.XW2RdS3Oogta.

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