Hong Kong e Taiwan: O Pecado Mortal do Partido Comunista Chinês

Por Mário Maestri

 

A restauração capitalista na China começou em 1978, dirigida pelo PC Chinês de Deng Xiaoping [1904-1997]. Em abril-junho de 1989, o país balançou com a “revolução de veludo” da Praça da Paz Celestial. Com ela, o imperialismo apostava na explosão da unidade nacional e do Estado chinês e  reconversão capitalista sob o domínio do capital mundial, como ocorreu na URSS, sob o governo de Boris Yeltsin [1991-99]. Houve apoio imediato aos sucessos de Tiananmen em Hong Kong e Taiwan.

 

Nesses anos, a fragilidade econômica relativa da China e o caráter da nova direção chinesa levaram-na a fazer grandes concessões ao imperialismo, ao negociar a recuperação de Hong Kong, sob a proposta “um país, dois sistemas”.  Em 1997, quando da unificação nacional, Hong Kong pesava fortemente na economia chinesa. Seu PIB era 18% do chinês – hoje, é apenas 2,7%, e segue caindo.

 

Fazendo da necessidade virtude, a direção chinesa apontou a proposta “um país, dois sistemas” como meio de recuperação também da ilha de Formosa, ocupada pelas tropas de Chiang Kai-shek e por seus seguidores -dois milhões de pessoas -, derrotadas pela Revolução Chinesa, em 1949. Desde sempre, a auto-proclamada República da China contou com o apoio do imperialismo para sobreviver.

 

Um só Sistema

A restauração capitalista facilitou a aproximação das direções da China continental e da ilha de Formosa, dirigida esta última por décadas, com mão de ferro, pelo Partido Nacionalista [Kuomitang]. A nova ordem chinesa e a proposta de “um país, dois sistemas” asseguravam os privilégios e as propriedades da burguesia e da oligarquia de Formosa. A aproximação fortaleceu-se com o avanço da integração da economia da ilha à China continental, em acelerado desenvolvimento capitalista.

 

Surfando a restauração capitalista, a nova direção chinesa deu as costas aos trabalhadores, apostando suas fichas nas classes dominantes de Hong Kong e de Formosa. Chocou simplesmente o ovo da serpente imperialista. Desde 1949, a destruição nacional chinesa fora objetivo político-ideológico-regional estadunidense. Entretanto, em 1972, os USA aproximaram-se da China, para melhor combater a URSS.

 

O comportamento imperialismo yankee quanto à China modificou-se com a destruição da URSS e o exórdio mundial dos capitais daquele país, em um viés imperialista, no sentido leninista do termo. A explosão da unidade nacional e o fim da direção centralizada chinesa se transformaram em premente necessidade estratégica dos USA, que viam retroceder sua hegemonia econômica mundial, mas mantinham – e mantêm – a hegemonia militar e diplomática.

 

O imperialismo yankee fortaleceu a instrumentalização de Hong Kong e de Formosa como os elos frágeis do Estado nacional chinês, sob a proposta da defesa dos “direitos democráticos” e da independência do enclave financeiro e da ilha. Em Formosa, o tradicional Partido Nacionalista foi deslocado  como instrumento imperialista pelo Partido Democrático Progressista, independente, fundado em 1986. Ou seja, quando se instalava os breves anos de unipolarismo estadunidense

 

Os Bons Tempos Coloniais

O movimento “democrático” de Hong Kong passou a exigir a manutenção dos privilégios que a comunidade local goza, segundo o tratado “um país, dois sistemas”,  e a eleição direta do governo. O que significa, nos fatos, a independência. Em torno de 3,4 dos sete milhões de habitantes de Hong Kong mantém a nacionalidade inglesa. Os manifestantes passaram a reivindicar diante das embaixadas da Inglaterra e dos USA que aquelas nações “libertem” a cidade. Surgiram lideranças e organizações claramente secessionistas.

 

As reivindicações intervencionistas dos manifestantes foram prontamente ouvidas. Em 16 de outubro de 2019, a câmara de deputados estadunidense  aprovou, por unanimidade, três projetos de lei interferindo diretamente nos assuntos internos de Hong Kong, parte do território nacional chinês. Espera-se pronta aprovação igualmente no Senado. O imperialismo yankee criou sinergia perfeita entre os movimentos de  Hong Kong e de Formosa. E alcançou indiscutíveis vitórias táticas.

 

Em em março-abril de 2014, manifestações anti-chinesas, a “Revolução dos Girassóis”, eclodiam em Formosa.  Apenas cinco meses mais tarde, era a vez da “Revolução dos Guarda-Chuvas”, no “Porto Perfumado”. As direções dos dois movimentos passaram a se encontrar, a se consultar, a planejar ações. Como resultado das manifestações de 2014, o Partido Democrático Progressista, liberal, anti-chinês, pró-imperialista, independista, assumiu o governo em Formosa, em 2016. As manifestações deste ano em Hong Kong dominaram o debate eleitoral em Taiwan, contribuindo para a provável reeleição da presidenta anti-chinesa, em 2020. Há pouco, Trump anunciou a venda de grande quantidade de armas para Formosa.

 

Paz ou Guerra

A mera ação da burguesia bancário-financeira, dos mega-milionários locais e do imperialismo estadunidense não é suficiente para explicar os mais de 350 mil participantes -os fantasiosos dois milhões da grande mídia internacional- na grande manifestação de 18 de agosto de 2019 em Hong Kong. Há  uma enorme insatisfação popular na cidade e na sua hinterlândia, permitida e alimentada pela nova direção chinesa, seduzida pelas benesses do capitalismo.

Hong Kong é o paraíso de mega-milionários, de banqueiros, de administradores de financeiras e de empresas de export-import, etc., com remuneração, salários e benefícios faraônicos.  É também uma das cidades mais caras do mundo, de abismais desigualdades sociais. Mesmo com sistema de saúde no geral gratuito e excelente rede de transporte, a cidade possui milhões de habitantes que vegetam na pobreza, sem a esperança de superá-la.

Nos anos 1960, o Partido Comunista Chinês tinha grande prestígio em Hong Kong entre os trabalhadores. Em maio-dezembro de 1967, os comunistas de Hong Kong dirigiriam um duro movimento grevista por melhores salários, melhores condições condições vida e contra a administração inglesa. A repressão britânica foi brutal, com mais de cinquenta mortos e cinco mil presos nos meses de revolta. Entretanto, em 1979, com a restauração capitalista em marcha, a direção chinesa abriu os braços para oligarquia financeira local e deu as costas aos trabalhadores. Ainda hoje, a administração de Hong Kong nega-se a reconhecer e homenagear os mártires daquele movimento.

 

Novo Bloco Dirigente

O bloco dirigente de Hong Kong, representante da oligarquia local, sustido pela direção chinesa pró-capitalista, aprofundou a isenção tributária que gozava o capital no enclave financeiro -no máximo 15%, sobre os lucros-, criando enormes dificuldades à administração pública municipal, dependente sobretudo das taxas imobiliárias. A construção civil é o coração de desapiedada especulação financeira, que lança no mercado a conta-gotas os limitados espaços não construídos. O custo do terreno pode chega a setenta por cento da construção, controlada sobretudo por cinco mega-empresas.

 

Em Hong Kong, o espaço habitacional médio, por pessoa, é 15 m2. Os super-ricos vivem em enorme residências e a população sobretudo trabalhadora sobrevive em latas de sardinha. Apartamentos de 80m2 custam o equivalente a 20 milhões de reais. Os aluguéis astronômicos devoram os salários. Multidões de populares vivem em “moradias-cápsulas” de até cinco m2., com cozinha e banheiro, de dois mil reais e mais de aluguéis mensais.

 

Em Hong Kong, grande parte dos manifestantes desceu às ruas contra um governo local que interpreta apenas os interesses dos grandes capitalistas, sob a proteção e autoridade do governo central chinês, que não arreda pé de sua política, devido ao seu novo caráter e ao contubérnio com a burguesia do enclave financeiro.  Agindo do mesmo modo para Formosa, não tem nada a oferecer para a população da ilha, facilmente captada pela demagogia autonomista e imperialista.  

 

O Capitalismo Faz Mal à Saúde

A direção chinesa não pode reprimir as manifestações em Hong Kong, para não enterrar de vez, em Formosa, a proposta “um país, dois sistema”. E não abre mão da exploração dos trabalhadores locais. Como solução da tensão social, aposta na  integração de Hong Kong e sua hinterlândia à grande baía, em território da China continental, através de moderno e milionário sistema rodoviário e ferroviário. Hoje, a cidade-monstro depende já do fornecimento da água potável, dos vegetais, da carne, etc. da China continental, onde trabalha boa parte de sua população.

 

As direções do movimento autonomista de Hong Kong e de Formosa são crianças brincando com o fogo, sob os olhos de um adulto piromaníaco. Se fracassa a  fórmula de integração nacional através da proposta “um país, dois sistemas”, retorna à pauta a retomada militar da ilha de Formosa e a suspensão da autonomia de Hong Kong, antes de seu fim contratual, em 27 anos, em 2043. É impensável e uma enorme humilhação à China a existência de um baluarte militar imperialista, ao lado de suas costas e um centro de agitação anti-nacional,  em territórios chineses.

 

O capitalismo faz mal à população de Hong Kong, à população de Taiwan e à independência e à unidade nacional da China, onde sua direção política pró-capitalista mina a coesão social e nacional em prol da defesa dos interesses mesquinhos do grande capital, senhor já absoluto do país libertado pela revolução popular e socialista, em 1949. 

Mário Maestri, Historiador, autor de, “Revolução e contra: revolução no Brasil”

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