A China, Hong Kong e a esquerda de que a direita gosta

Por Mário Maestri

 

A direção do PSOL, partido que se propõe à esquerda do PT, emitiu declaração de apoio irrestrito às mobilizações “democráticas” em Hong Kong contra o governo chinês. Militante do partido protestou, com razão, contra uma declaração que jamais foi discutida no partido e defendeu, sem razão, as maravilhas do atual socialismo chinês, construído com a exploração capitalista de sua população, aumentando assim a confusão sobre o tema.

 

A China é hoje país de capitalismo adiantado, com significativo capital imperialista, na acepção de Vladimir Lenin. Devemos, portanto, defender os direitos democráticos na China, sobretudo os direitos de sindicalização e de greve de seus trabalhadores. Mas devemos, também, nos opor ao ataque à integridade nacional chinesa, promovido pelo imperialismo desde o século 19. São duas questões distintas. Ao menos para a esquerda que quer combater a direita e o imperialismo e não dar tapinhas nas costas  do grande capital.

 

Hong Kong faz historicamente parte da China e foi desde sempre habitada por população etnicamente chinesa. A cidade e sua hinterlândia foram ocupadas pelos britânicos, durante a primeira guerra do ópio [1839-42],  que impôs a venda e a distribuição daquela droga na China. Nesses anos, outras regiões tornaram-se enclaves imperialistas, espezinhando os direitos nacionais daquela nação. Quanto da vitória da Revolução Chinesa, há setenta anos, o imperialismo manteve Hong Kong, Macao e sobretudo a ilha de Formosa como suas possessões ou sob sua influência.

 

Um Estado Bitcoin

Hong Kong ocupa pequena extensão dos territórios nacionais continental e insular chineses. Com uma área que não alcança a metade do microscópico Luxemburgo, possui de sete milhões de habitantes. Superior à população do estado de Santa Catarina, que é territorialmente 86 vezes mais extenso!  Trata-se de uma espécie de micro-Estado faz de conta, de produção agrícola e manufatureira desprezível. Trata-se de conglomerado de mega-bancos internacionais, onde o capital quase não paga impostos. Hong Kong é uma das cidades mais caras do mundo.

 

Em 1º de junho de 1997, Hong Kong voltou ao domínio chinês, no contexto do acordo “um país, dois sistemas”, válido por cinquenta anos. Na época, os dois sistemas eram o socialista, da China continental, e o capitalista, de Hong Kong. O paraíso financeiro manteve autonomia quase completa quanto à Justiça e à economia e muito ampla, no relativo ao governo. A China passou a controlar a defesa e a diplomacia. Hong Kong seguiu sendo uma espécie de Estado bitcoin, com moeda própria, sustentada pela especulação bancário-financeira.

 

A autonomia de fato e de direito transformou Hong Kong em local de depósitos bancários clandestinos e de refúgio físico de mega-capitalistas e mesmo de criminosos procurados no continente, o que levou a China a propor  tratado de extradição, motivo inicial das atuais manifestações. Hong Kong tem tratados de extradição com mais de vinte países, entre eles os Estados Unidos e a Inglaterra, mas não com a China. Os procurados pelo imperialismo não podem lá se acoitar, os bandidos chineses, sim.

 

Ás do Imperialismo

O projeto de Lei de extradição foi retirado, mas as manifestações prosseguiram ainda mais furiosas, desde então sem pauta de exigência, a não ser as fantasiosas reivindicações de independência do paraíso fiscal e bancário ou de sua volta ao status de colônia inglesa. Bandeiras estadunidenses e inglesas são levantadas nas manifestações, enquanto  bandeiras chinesas são queimadas. Líderes do movimento conversam com políticos yankees e britânicos e foram recebidos por Trump.

 

As manifestações mantém-se por mais de meio ano. Elas dificultam a vida em Hong Kong e melaram a cuidadosamente organizada celebração dos 70 anos da Revolução Chinesa.

Centros administrativos e o aeroporto internacional foram ocupados; mobiliário urbano, foi destruído; a polícia tem sido atacada, mesmo em seus quartéis; o valor da moeda local tem caído. Porém, jamais foi realizada repressão forte, que pusesse fim ao movimento, por parte das autoridades locais ou do governo chinês, que tem o direito legal de fazê-lo.

 

Hong Kong é peça central da partida de xadrez que o imperialismo estadunidense joga contra a China. Desde 1997, promoveram-se manifestações pela “democracia”, esperando que, ao espalharem-se pelo continente, contribuíssem para a ruína do poder central e para a explosão da unidade nacional chinesa, como aconteceu na URSS, em 1990. O imperialismo sonhava com a retomada do movimento reprimido há trinta anos, na Praça da Paz Celestial. Esperava uma “revolução de veludo” de olhos puxados, falando mandarim. Uma explosão hoje mais do que improvável, devido ao atual avanço econômico do país.

 

Porta-avião Yankee

Atualmente, com as manifestações em Hong Kong, o imperialismo procura sobretudo comprovar a inviabilidade da aplicação da proposta chinesa de “um país, dois sistemas” em Taiwan. Pois, se ela se efetivar, constituirá  uma terrível e irremediável derrota para os Estados Unidos. A uns 180 km da costa chinesa, a ilha de Formosa tem mais de 23 milhões de habitantes em uma extensão territorial pouco menor do que a do Estado do Rio de Janeiro.  Mais de 95% da população da ilha é etnicamente chinesa.

 

Foi na grande ilha que se refugiaram, com o apoio militar dos Estados Unidos, as tropas contra-revolucionárias e a escória civil que acompanhou Chiang Kai-shek – em torno de dois milhões de pessoas -, derrotadas pela Revolução em 1949. Sem qualquer consulta à população da ilha, ela passou a ser a sede da denominada República da China ou China Nacionalista ou China Democrática, em contraponto à República Popular da China ou China Socialista. Apenas em 1971, a China fantoche foi substituída pela República Popular da China no importante Conselho Permanente da ONU.

Até 1996, ou seja, um ano antes da devolução chinesa de Hong Kong, a ilha foi governada por ditaduras militares, abertas ou disfarçadas. Nesse então, já se tornara uma potência super-armada, com bases navais e territoriais estadunidenses, com a proposta explícita de “retomada do continente” e destruição da China socialista. Em 1979, os EUA comprometeram-se formalmente com a “defesa” da ilha, atualizando periodicamente, até os dias de hoje, planos de combate ao desembarque chinês nesse seu território nacional. Os planos militares EUA de defesa de Formosa apoiam-se na tradicional supremacia aérea e naval  estadunidense.

 

China como Potência Militar Moderna

Recentemente, facções hegemônicas da burguesia de Formosa abandonaram a retórica sobre a reconquista do continente pela proposta da independência de nação definida como singular e diversa à China, denominada de Taiwan. O parlamento chinês votou a reconquista imediata da ilha em caso de declaração de independência, fazendo que a posta fosse posta em banho-maria por seus defensores. Ainda mais que, agora, vacila o compromisso estadunidense de apoio militar geral no caso de confronto militar entre a China e as tropas da Ilha de Formosa.

 

O salto tecnológico-militar da China, com destaque para as armas hipersônicas, determina que os porta-aviões estadunidenses se mantenham afastados das costas chinesas e que os navios da Sétima Frota não entrem no estreito de Taiwan, em caso de guerra.  O domínio aéreo e naval yankee inconteste da região passou a ser questão do passado. Ainda mais com a atual convergência militar chino-russa. O que aumenta a importância de Hong Kong como instrumento político dissuasivo da unificação entre a China e sua província desgarrada.

Entretanto, o desembarque chinês em Formosa já iniciou, há muito, sem que os USA disparasse um tiro.

 

No passado, a ilha industrializou-se fortemente, com o apoio e sob a dependência estadunidense, como contraponto à economia chinesa. Atualmente, como os demais países asiáticos da região, a pequena Taiwan tem sido cada vez mais envolvida economicamente pela China, onde já trabalham 10% de sua mão de obra. Milhares de empresas taiwanesas se estabeleceram também na China.  Pekim facilita igualmente a instalação no continente de empresários, de trabalhadores, de turistas e de aposentados de Taiwan. Se tudo seguir como agora, a retomada do controle nacional chinês sobre sua província perdida é apenas questão de tempo. O que aterroriza literalmente o imperialismo estadunidense.

 

Revolucionários do Imperialismo

Dentro e fora do PSOL, grupos pretensamente marxista-revolucionários, como a CST, o PSTU, o MES de Luciana Genro, apoiam também a ofensiva contra os direitos nacionais chineses. No passado, algumas dessas organizações sustentaram politicamente os fundamentalistas contra a Revolução Afegã e o Solidariedade de Walesa contra o Estado operário polonês. Festejaram como “revolução política” a dissolução da URSS e a explosão da Iugoslávia e o massacre que se seguiu. Há pouco, saudaram os genocídios iraquiano, sírio e líbio e, agora, mobilizam-se contra a resistência nacional venezuelana. Apoiam o imperialismo, indiferentes às catástrofes que ele produz, propondo que defendem movimentos revolucionários que ninguém vê. Agora, a bola da vez é Hong Kong.

 

Estranhamente, reivindicam-se de León Trotsky, que dedicou os últimos meses de sua vida à defesa incondicional da URSS contra os ataques imperialistas, pouco importando, lembrava, que o país vivesse sob direção stalinista. Iguais energúmenos, infiltrados entre seus seguidores, defendiam o combate à URSS, devido à direção de Stalin. Trotsky explicava que era imprescindível a defesa da base social e econômica da revolução e de seu Estado, para poder avançar na luta pela democracia operária. 

 

O velho revolucionário lembrava que, independentemente do caráter do governo de uma nação, seus direitos nacionais devem ser defendidos dos ataques imperialistas, mesmo de países ditos democráticos. Propunha que o Estado brasileiro de Getúlio Vargas, que definia como semi-fascista, deveria ser apoiado no caso de eventual ataque imperialista. Os piores cegos são os que se negam a ver, para proteger interesses espúrios. 

 

Mário Maestri, 71, historiador, é autor de Revolução e contra: revolução no Brasil. 1530-2018.

https://clubedeautores.com.br/livro/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil#.XW2RdS3Oogt

 

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